La defense

Escrito em algum dia do inverno de 2012, no meu intercâmbio na França

São 8:35 e estou no metrô de Paris em direção a La Defense, bairro supermoderno e tecnológico, conhecido pelos gigantescos prédios espelhados. A linha de trem que me leva ao centro empresarial da cidade é a Amarela. Terei que atravessar quase todo o mapa. Estou sozinho porque minhas duas amigas reservaram a manhã para o Louvre, cujos imensos corredores já conheço. O metrô é sujo, ontem nevou, estou com os lábios rachados e as mãos geladas. Quero um café. Hoje é segunda-feira e, para esses parisienses, é apenas mais um início de semana. Mas eu sou viajante, tenho a boca seca e uma ansiedade na alma.

As pessoas no vagão se vestem com pesadas roupas de frio para encarar a baixa temperatura lá fora. Usam ternos, calças coloridas, toucas, cachecóis e luvas. As mulheres usam batom vermelho. Muitos leem livros ou tablets, ou digitam desenfreadamente em iPhones. Carregam pastas de couro nas mãos e bolsas de uma alça no ombro. Nas costas, a responsabilidade de uma vida adulta. Nos ombros, a pressão da felicidade e do sucesso. Assim como eu (neste caso, eu como eles, visto que sou a minoria), todos levam no coração o medo de falhar.

Tirar férias é a única alienação que todos têm o direito de usufruir. Viajar enobrece. Subitamente, não ter exigências de preocupar-se urgentemente com a vida se torna algo admirável. Apesar de não estar exatamente de férias, visto que estudo o dia inteiro e logo mais precisarei achar um trabalho no Brasil, chega a ser impossível não encarar um ano na França como um descanso do mundo. Por mais que eu não esteja na labuta reconhecida por um chefe, trabalho intensivamente comigo mesmo. Neste ano me descontruí e me edifiquei. Ponho-me exausto após pensar horas seguidas sobre mim mesmo, as pessoas ao meu redor, o ambiente em que vivo. Se algum dia a vida me permitir ser filósofo, creio que o momento é agora.

Preciso trocar de linha.

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La Defense

Saí do vagão e pausei The Verve. Nos longos corredores da conexão, as pessoas formam uma rodovia humana. Cada lado do túnel é uma via. No mais próximo do silêncio, caminhamos decididamente em direção a algum lugar. Eu não sei para onde vou, mas os franceses sabem. Ouço, acima de tudo, o som dos sapatos e botas no chão de concreto. Tac tac tac. Será que eles não têm nada para falar? Cada um se contenta com o fone de ouvido e as mãos no bolso. Enclausurado por paredes repletas de publicidades de filmes, peças de teatro e concertos musicais, vou em direção a uma Paris moderna, longe dos filmes românticos e das musicas populares. O lado B da cidade-luz.

Nosso lado B é sempre algo a ser escondido e recriminado. Reservamos ao Estranho, com quem não temos muita intimidade, apenas doses homeopáticas desta face soturna da nossa identidade. A gente acha que conhece os outros, mas na verdade conhece só aquilo com o que se contenta.

Arco de La Defense

Acabou a inspiração, não sei mais o que escrever. Estou sentado em uma plataforma situada depois do Arco do Triunfo pós-moderno. De onde estou, avisto uma boa parte da Paris-arranha-céu, da Paris-sem-glamour, Paris-metrópole-acinzentada. Estou em um filme do Batman. Sinto uma espécie de deslocamento estranha, porque é misturada por um torpor. Ao meu lado esquerdo, há um cemitério. Por que alguém decidiu colocar corpos no meio de um bairro cheio de prédios altíssimos? Aqui, supostamente, deveria estar o futuro da cidade. Mas faz sentido: o futuro de todos é aqui mesmo.

Penso na morte e portanto na vida. E nesta há ainda muito o que fazer.

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