As lutas das minorias na conservadora “Princesa da Serra Catarinense”

Lages, Santa Catarina, Brasil. Conhecida como a “Princesa da Serra”, atualmente ocupa o 17º lugar no ranking das cidades com maior índice de violências contra as mulheres no Brasil. Na lista das 100 cidades mais violentas aparecem ainda as catarinenses Mafra, Criciúma, Balneário Camboriú e Chapecó. No Chile, em 2014, foram registrados quatro assassinatos de transexuais, travestis, lésbicas, bissexuais ou gays — os LGBT. No Brasil foram 218. 71 jovens mortos a tiros. 70 foram mortos a facadas. 21 espancados. 20 asfixiados. 11 mortos com pauladas e seis apedrejados, dentre outros.

A discussão da violência contra as mulheres e os LGBT (as chamadas “minorias”) nas mídias regionais é bastante tímida, principalmente em Santa Catarina. Apesar dos índices assoladores de violência, a imprensa claramente possui dificuldades em dar a devida atenção ao assunto.

”Primeiro temos que entender que estamos inseridos em um território que está fortemente marcado por uma cultura machista e patriarcal, onde as relações são forjadas a partir desta cultura, onde a mulher se ocupava com as ‘coisas’ dentro de casa, enquanto o homem com as coisas da rua, relações políticas, gerência da propriedade e relações sociais”, explica a professora Jô Antunes, mestre em Educação e pesquisadora do grupo Gecal — Gênero, Educação e Cidadania na América Latina”. “Lages é uma cidade machista e preconceituosa, extremamente conservadora. Haja vista outro dia tivemos um encontro do movimento separatista O Sul é Meu País. Um absurdo”, declara.

Com índices assustadores de violência contra a mulher e os grupos LGBTs completamente invisibilizados, qual o primeiro passo para mudar esta realidade? A professora opina: ”Penso que a caminhada é longa e árdua. Posso afirmar que esta temática está em pauta e isso é importantíssimo. As pessoas, mesmo que incomodadas estão falando sobre. As audiências públicas que ocorreram na cidade sobre as violências contra as mulheres são ponto positivo, mas não podemos esquecer do segmento LGBT que ainda é invisibilizado. Precisamos registrar coletivos da cidade como o Machismo Mata, Rolê das Mina e o próprio Gecal, que vem fazendo história em tão pouco tempo contribuindo de forma significativa”.

Registro de uma caminhada pelo fim das violências contra as mulheres organizada pelo Grupo Gecal e a Universidade do Planalto Catarinense — Uniplac. (Foto: Ari Júnior/Assessoria de Imprensa da PML).

Apesar do triste cenário, aos poucos a realidade de Lages vem mudando. Grupos e pessoas se destacam por bravamente exporem suas realidades em meio ao preconceito e conservadorismo local. Com esse objetivo, conversarei com pessoas que compartilharão suas histórias, projetos, lutas e vidas frente a este quadro. A primeira delas, Guilherme, é um amigo.

Descobri que optar por ser Drag Queen é também optar a trilhar um caminho solitário”.

Guilherme Buratto Fernandes Walter tem 19 anos, é homossexual e recentemente começou a participar do meio Drag, pouquíssimo explorado em Lages.

Guilherme, 19.

Sobre descobrir-se homossexual:

Desde que eu me descobri por gente. É engraçado quando me perguntam isso. Se a pessoa for heterossexual eu pergunto de volta, ”E você, quando se descobriu heterossexual?”. É natural. Nasci assim. Existe a fase de aceitação, que é bastante complicada, mas sempre tive minha homossexualidade como estado natural.

A relação de seus amigos e colegas com sua sexualidade:

Todos os meus amigos me amam. No grupo social do trabalho sou o único gay, mas isso nunca me limitou a nada, todos sempre estiveram cientes da minha orientação e sempre me respeitaram por isso.

Sobre sua Drag:

Nixx Andris. Nixx é oriundo de Nyx, a deusa grega que é a personificação da noite, das trevas, muito gótica. E Andris também é grego, cuja verdadeira origem é desconhecida.
Foto: Acervo pessoal.

A primeira vez que se montou:

Desde pequeno eu adorava ver a minha mãe se arrumar para os lugares, achava incrível. Alguns anos depois, quando não tinha ninguém em casa, eu colocava os sapatos dela e algum vestido e desfilava por toda a casa com Madonna tocando no rádio. Work the runway, sweetie! Depois, quando já estava cansado de me produzir pra ficar em casa, nos raros momentos que eu ficava sozinho, comecei a comprar maquiagens, treinar vendo tutoriais no Youtube e percebi que aquilo tudo deveria ser mostrado, exibido ao mundo. Resolvi trabalhar na minha Drag Queen. Assisti tutoriais com várias Drags (entre elas Rebeca Foxx e Cassie Lohan). Quando achei que a maquiagem e a roupa estavam relativamente boas, subi no salto e saí porta afora sem medo do que todos iriam pensar. Sei que não faz parte da pergunta, mas foi MA-RA-VI-LHO-SO.

Pra você, o que significa a arte Drag?

Eu não posso responder esta pergunta com tanta convicção, justamente por ser prematuro na área, mas pra mim, no momento é desconstruir os paradigmas que foram tão fortemente colocados na cabeça das pessoas. ”Homem nasceu pra ser homem!”, por exemplo. A liberdade de expressão é o traço mais forte em todas as Drag Queens, apesar de ainda existir um padrão dentro do grupo que muitas vezes inibe a existência de novas Drags. Pra mim, no momento, ser Drag Queen aqui em Lages é mostrar para as pessoas que nós existimos. Que não existem Drags apenas nas grandes capitais ou em outros países, mas aqui, na mesma cidade em que você mora. Homens que usam maquiagem e roupas femininas para expressar a sua forma de pensar.

Recebeu algum tipo de retaliação de pessoas próximas (ou distantes) ao se montar?

Sim, bastante. Muitas das pessoas que conversavam comigo eventualmente pararam de conversar, me excluíram das redes sociais e passaram a me ignorar em todos os lugares. Descobri que amigos íntimos também não aceitavam e tinham ou ainda tem preconceito com Drag Queens, travestis e transexuais e isso me fez pensar muito acerca de todas as coisas anteriores que eles diziam. Optar por ser Drag Queen é também optar a trilhar um caminho solitário.

Qual a melhor parte da arte drag?

Guuuuuuurrll! Com certeza é a maquiagem. Quando está pronta e você olha no espelho e começa a tocar Sissy That Walk da RuPaul você percebe como tudo isso é incrível. Já não é mais você e sim a sua personagem, pronta pra fazer revolução independente do lugar que for.

Pra você, aqui, quais os principais problemas que o meio LGBT enfrenta?

Sem pingo de dúvidas o preconceito. Quando você decide andar de mãos dadas com seu namorado na rua, é bom que se prepare para os comentários e olhares grosseiros que irá receber das outras pessoas. Não só aqui em Lages, mas em qualquer lugar do mundo ,mesmo que não aja uma reação adversa, sabe-se que em algum lugar da cabeça das pessoas o preconceito sempre vai existir. Acredito que campanhas, marchas, peças de teatro, encartes, publicidade e tudo isso pode ajudar as pessoas diariamente a desconstruir um pouco do preconceito delas. Falta também um grupo LGBT estruturado, com reuniões e soluções para combater a homofobia, algo que já deveria existir há tempo.

Lages é uma cidade bastante conservadora. Isso prejudica sua arte enquanto Drag?

Por incrível que pareça, não. Muito pelo contrário, isso me instiga a afrontar cada vez mais o pensamento e o preconceito das pessoas. Se eu pudesse usar um vestido de carne eu usaria, porque falta muito respeito pelo espaço e liberdade dos outros por aqui, tudo que esteja fora do padrão machista e arcaico é uma coisa ruim, feita, ridícula. Eu não vou parar de ser e fazer o que eu quiser por causa dessas pessoas. Elas vão ter que me engolir.
Nós, enquanto Drag Queens somos rainhas noturnas, de boates, da noite, sendo assim o conservadorismo não exerce muita influência sobre nós no dia a dia. Como homossexuais sofremos muito em todos os lugares. Gays “heteronormativos”, ou que ainda não saíram do armário, geralmente por medo não são prejudicados por esse sistema, muito pelo contrário, eles ajudam a prejudicar a vida de outros. Gays afeminados passam por muitas dificuldades. Em entrevistas de emprego, na rua ou em qualquer lugar são sempre discriminados e isso com certeza prejudica o bem-estar de qualquer ser humano.

Acha que estamos evoluindo e mudando este quadro?

Pouco, mas sim. As pessoas no geral estão começando a ver os gays com um pouco mais de humanidade, mas ainda falta muita empatia. Lages e todos os municípios da região ainda precisam crescer muito socialmente, pois o machismo ainda está cravado e é o cerne de todos os problemas sociais que enfrentamos. Sobre os novos grupos LGBT, acredito que também estejamos evoluindo. Vou continuar, não apenas com minha Drag Queen, a planejar formas de diminuir as fobias da sociedade com a comunidade LGBT e as dificuldades que enfrentamos, mas como eu disse, temos um longo percurso a ser feito. Nós existimos, estamos aqui, também somos seres humanos e não vamos nos calar, não vamos nos esconder, vamos ser quem e o que quisermos e a sociedade machista que nos aguarde!

A segunda parte deverá ser publicada em breve.