Fraude, processos e a Associação Fake Mensa Brasil

Marcel Kroetz

Terminando de reunir os documentos e materiais para a minha manifestação naquele processo judicial envolvendo a Associação Mensa Brasil não tive como deixar de me perguntar: mas o que foi que eu fiz para deixar tantas pessoas nessa Associação Fake Mensa Brasil tão revoltadas comigo assim?

Não foi difícil encontrar a resposta. Mas, como esperado, não iria mesmo estar naquelas mais de 2.000 páginas de prints, e-mails e textos publicitários anexados pelo advogado da Associação Mensa Brasil no processo. A resposta vem lá da época em que eu atuei como auditor informal da Associação. Digo informal porque depois de ter concorrido e ter sido eleito como auditor do Comitê Executivo da Associação, descobri que a Associação estava em solução de continuidade e por isso não foi possível registrar a ata das eleições. Mas isso não chegou a ser um impedimento para a auditoria que fiz, visto que praticamente toda a Associação naquela época se resumia a uma planilha de gastos e um simples grupo no Facebook.

Mas e a resposta?

Bem… a resposta são os testes inapropriados que foram utilizados para admissão à Mensa Brasil.

Como assim, você deve estar me perguntado. O que tem a ver os testes de admissão com um processo envolvendo pedidos de registro de marcas no INPI?

Teste de QI, sua finalidade e sua baixa discriminatividade em altos percentis

Matrizes Progressivas de Raven Escala Geral Séries A a E — Completamente inapropriado para admissão

Bem, tem há ver que naquela época, e por muito tempo depois até nós mudarmos o teste, antes desse imenso clash que resultou no litígio em curso, todos os membros foram admitidos por um teste denominado Matrizes Progressivas de Raven Escala Geral — Séries A a E (esse mesmo da figura ao lado).

No entanto, esse teste, o das Matrizes Progressivas de Raven Escala Geral, além de não ser reconhecido como um teste válido para admissão, possui um enorme problema: sua escala não é suficientemente discriminante no percentil 98, no qual se encontra o ponto de corte para admissão.

Complicado?

Sim. Mas deixe eu te explicar um pouco que eu tenho certeza de que você vai entender.

Esse teste, o da Escala Geral, é um teste utilizado principalmente para diagnosticar dificuldade de aprendizado em crianças em idade escolar. Não é e nunca foi pensado para ser utilizado de forma corriqueira em adultos, muito menos com um objetivo de recrutamento ou seleção na faixa em que foi utilizado para o ingresso na Associação Mensa Brasil.

Veja só, fica fácil entender quando olhamos melhor a tal “escala geral”, aquela que o psicólogo responsável pela aplicação do teste utiliza para, a partir do número de acertos do candidato, encontrar em qual percentil esse candidato se encontra com relação a todas as pessoas que fizeram esse mesmo teste durante a sua normatização.

Matrizes Progressivas de Raven Escala Geral Séries A a E — Norma Geral

Eis assim que essa coluna mais a esquerda, o tão controverso “percentil”, não tem nada a ver com o percentual de acertos com relação ao número total de questões totais do teste. Não, como eu disse ali no parágrafo anterior, ele tem a ver com o percentual de pessoas que fizeram o teste durante a sua normatização e obtiveram uma pontuação menor, em número de acertos, do que aquela obtida nas colunas seguintes. Ou seja, um candidato com 21 anos (coluna 12) e que tenha acertado exatamente 59 questões (linha 20), acertou mais questões do que 95% das pessoas que fizeram esse mesmo teste durante a sua normatização.

Ok? Mas e daí?

Bem, é agora que fica interessante.

Você percebeu que nessa norma existe o percentil 95 e o percentil 99. Mas e o tal percentil 98?

Não tem né… e é aí que a coisa se complica.

Veja, se o o teste Escala Geral possui exatamente 60 questões, e só existem os percentis 95 e 99 em sua norma, só poderiam ser admitidos os candidatos que conseguissem acertar exatamente todas as questões do teste, cujo percentil seria 99, visto que 95 não corresponde a um resultado superior ao obtido por 98% da população nesse mesmo teste. Não?

Então… não era bem isso o que acontecia.

O “jeitinho brasileiro” entrando em ação

Zé Carioca — O jeitinho Brasileiro em um personagem desenhado por Walt Disney. Uma homenagem ao Brasil

Como o candidato ter de acertar necessariamente todas as questões é um requisito, digamos assim, demasiadamente rigoroso para os padrões brasileiros, e como apenas 1 em cada 10 candidatos de fato conseguia acertar todas as questões do teste, o número de questões necessárias para admissão foi reduzido para 58 e, em alguns casos, bem choradinho, 57. A final, a tabela não tem o percentil 98 mas, se passar de 95 já é difícil pacas, então nada mais justo do que dar aquele “empurrãozinho” para quem já conseguiu chegar até ali.

E assim foi. Anos e anos de teste inapropriado para admissão, gente entrando e o percentil efetivo diminuindo. Daquele mesmo jeito que fez a Mensa reduzir o seu percentil dos 1% inicial para os 2% que hoje todos acham que sempre foi assim.

Mas quando se trata de curva normal a estatística é impiedosa e, para entender com exatidão aonde eu quero chegar, é preciso se aprofundar um pouco mais no conceito de raridade associado ao conceito de percentil.

Raridade, o verdadeiro propósito do conceito de percentil

Veja só, dizer que acertou mais questões em um teste de lógica do que X ou Y e que isso faz de você uma pessoa mais inteligente, já prova que a sua suposição está completamente errada para começar. Mas deixemos isso para outro post.

Dizer que você acertou mais questões do que 98% da população em geral, a priori, acertaria em um mesmo teste de raciocínio lógico é, na pratica, dizer que você acertou mais do que 1 em cada 50 pessoas, a priori, iria acertar. Ou seja, significa dizer que a sua pontuação seria a maior do que a que seria obtida, a priori, em um grupo de 50 pessoas nessa mesma situação.

Nesse quesito, eu particularmente insisto no uso do termo “a priori“, porque sem se tratando de probabilidade, essas estatísticas são uma mera probabilidade de que o resultado seja mesmo assim, visto que o grupo de pessoas utilizado para a normatização do teste não é o mesmo com o qual o candidato está sendo de fato comparado no final.

Ok. Mas e se for mais do que 95% e não mais do que 98%, o que de fato muda no final?

Bem, primeiro, não será uma pontuação maior do que o que seria obtido por 1 em cada 50 pessoas no mesmo teste, mas sim o que seria obtido em 1 em cada 20. Bem menos do que a metade da raridade original. Mas tudo isso fica ainda mais interessante quando se amplia esse número para, digamos, 1.500, que é o número de membros que a Associação Mensa Brasil alega ter em seu site (embora não tenha mais de 200 na real).

Para se chegar a um número de 1.500 membros, com um teste cujo percentil efetivo de admissão é de 95% e não os 98% originais, seria preciso, a priori, algo em torno de 30.000 candidatos testados com o mesmo teste de admissão.

Mas e se fosse considerado o percentil original para admissão?

É aí que a análise fica mesmo interessante, quando olhamos para o resultado interno, desse relaxamento dos critérios de admissão. Isso porque, ao relaxar o percentil de ingresso para 95%, e não os 98% originais, desses mesmos 30.000 candidatos que originaram esses 1.500 membros que a Associação Mensa Brasil alega ter em seu site, a Associação teria apenas 600. Pouco mais de um terço do que alega ter, admitidos com base em um teste e um percentil inapropriados para admissão.

Ou seja, dois em cada três membros da Associação Mensa Brasil nunca passariam em um teste apropriado para admissão, mas a solução para contornar esse “pequeno” problema é relativamente simples: apenas não indicar o percentil obtido por cada membro no cadastro de membros da Associação. O que, de quebra, ainda solucionava um outro problema, o dos membros que apenas surgiam em eventuais “correções” do cadastro entre as indas e vindas naquela época devido a solução de continuidade na qual se encontrava a Associação.

Eis que então, com dois em cada três membros em situação, no mínimo e, a priori, irregular, qualquer solução democrática começa a se desviar bastante do seu propósito original.

Democracia, eis a questão

E foi assim que, na minha opinião, a democracia interna começa a desviar a Associação do seu propósito original.

Como a grande maioria dos membros nunca sequer teriam se tornado membros da Mensa Brasil se tivesse sido sempre respeitado de forma correta o seu critério de admissão, qual a chance de, na sua opinião e em um pleito democrático, isso realmente ser considerado um problema para esse conjunto de membros a final?

E foi assim que a única solução acabou sendo mesmo jogar pedras no Marcel. A final, errado estou eu, Marcel Kroetz, que acertei todas as questões em menos de 7 minutos de um teste que nunca foi o teste apropriado para admissão e achei que realmente fosse preciso corrigir esse “problema” com o teste para por um fim nessa questão.

Mas o tempo passou e estamos aí. A Associação continua com aquela infame carta aberta publicada em seu site e aquele comunicado ilegal em que atribui a qualidade de fake ao site da Editora Mensa Brasil.

Mas e todos aqueles membros que assinaram a tal carta aberta publicada no site da Associação, como é que eles se saíram com relação a esse percentil?

Não custa nada olhar. Te garanto que ficará ainda mais fácil de entender como que a estatística e a democracia tem um imenso poder de popularização. O mesmo poder que, sem manobras e processos judiciais como os que a o PT ainda chama de golpe e não de impeachman, tem o poder de tornar todo país de forma recorrente e persistente socialista de tempos em tempos. A única exigência é que um país realmente democrático esteja indo bem, para que a grande maioria exija, muitas vezes de forma violenta, a popularização do poder e que tudo comece a marchar para a mesma derrocada da qual todos participamos de forma geral aqui nesse nosso Brasil.

E é assim que, dos 71 membros que assinam a tal carta aberta que ainda permanece publicada no site da Associação Mensa Brasil, 18 não possuem qualquer registro de um dia terem sido aprovados em um teste de admissão; 7 eu não consegui localizar no cadastro; 16 obtiveram um resultado superior ao obtido por 95% da população em geral no mesmo teste e apenas 28 (pouco mais de 1/3) de fato obtiveram um resultado apropriado para admissão.

A situação é tão repetitiva que, em minha opinião, eu não ficaria nem mesmo surpreso se o próprio atual presidente dessa Associação, Carlos Eduardo de Souza Gomes Fonseca (Cadu Fonseca), que também assina a tal carta aberta, tivesse obtido um resultado acima do obtido por 95% da população em geral no mesmo teste e não os 98% necessários para admissão. Estando ele representando assim o legítimo interesse de todos aqueles que, embora sejam a grande maioria dos membros, nunca teriam sido admitidos como membros se não tivesse ocorrido esse relaxamento indevido do critério de admissão.

Leia mais: Presidente da Associação Mensa Brasil não passou em teste de admissão da própria Associação.

Conclusão

É assim que, de certa forma, toda essa história de carta aberta, processo judicial, comitê disciplinar, pedidos de marca registrada no INPI e o escambau, é uma situação mesmo muito peculiar. Porque é bastante evidente que quando se levantam informações que seria muito melhor para muita gentes simplesmente esconder, a melhor solução é sempre jogar pedra em quem falou.

Quando é no voto que se decide uma situação que a grande maioria dos que irão votar têm total interesse em esconder, ainda mais se lhes for possível simplesmente continuar se esgueirando por detrás da denominação social de uma Associação, não é no voto da maioria que que se torna possível resolver essa situação.

É por isso que eu continuo achando muito levianas essas acusações de fraude como consta genericamente nesse processo judicial e em todas as oposições protocoladas pela advogada Simone Vollbrecht, também signatária dessa carta aberta, nos pedidos de registro de marca no INPI. Ainda mais sendo essas acusações genéricas proferidas por parte de uma Associação que nem mesmo mantém regular seu cadastro de membros e que não exige com o rigor necessário o critério estipulado inicialmente para admissão.

Para quem perdeu: Mais um erro de Simone Vollbrecht.

A pergunta final que fica em todas essas mais de 2.000 páginas desse processo judicial e em todos os documentos reunidos por mim para a contestação é onde está essa fraude a final? Nos pedidos de registro depositados no INPI? na tal carta aberta? no comitê disciplinar que não se encontrava previsto no estatuto e que nunca foi nomeado pelo Comitê Executivo? Na assembleia geral ordinária convocada para data diversa do que prevê o estatuto? Ou na recomposição judicial do quadro social dessa Associação por membros sobre os quais nem mesmo há registros de que algum dia tenham se submetido a um teste de admissão?

O problema do Brasil não são os políticos, o congresso ou o Supremo Tribunal Federal. O prolema do Brasil é essa nossa insistência em continuar a ser assim, demasiadamente adeptos a esse nosso “jeitinho brasileiro“, enquanto esperamos que a Justiça resolva todos os problemas que nós mesmos criamos com essa nossa adesão indiscriminada a esse “jeitinho” no final.


Artigo publicado originalmente no site marcelkroez.com.br em 12 de julho de 2018.

Marcel Kroetz

Written by

Mestre em Engenharia da Computação. Jornalista. Estudante de Direito. Auditor Fiscal.

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