Histórias do transporte público #4
Eu já vi acontecer com muitas pessoas. Às vezes no ônibus da manhã, às vezes na volta pra casa já à noite. Mas, mesmo usando o transporte público há uns bons anos, eu não me sentia preparada.
Eu olhava aquelas pessoas e pensava: "Quando serei como elas?". A coragem não vinha. Eu depositava esperança em passageiros que nunca vi na vida e imaginava que eles podiam tomar um atitude por mim. Me sentia impotente, uma novata no ônibus.
Terça-feira, dia 15 de agosto de 2017, era um dia frio e chuvoso. A garoa fez companhia pra São Paulo na parte da manhã até o dia seguinte e tudo que eu queria era chegar em casa. Por desatenção ou por pura maldade, o motorista, quase oito hora da noite, ignorou o meu sinal e passou direto no ponto em que desço.
Muitos outros passageiros já estavam na porta também pra desembarcarem e vi os olhares caírem sobre mim. Por que eu? Por que depositar a esperança em uma passageira totalmente desconhecida? Foi aí que me enxerguei naqueles olhares ansiosos e a coragem veio. Era o momento de eu debutar, e então gritei, pela primeira vez: "Motô! Vai descer!" e recebi o agradecimento silencioso dos outros passageiros. Eu havia crescido e me tornado a passageira que tanto almejei ser.
