Pai

Eu e meu pai, anos antes de ser enganada

Era sábado. Ou talvez domingo. Ou talvez eu não lembre mesmo que dia era, mas era um daqueles em que ninguém de casa tinha muito o que fazer e podia desperdiçar horas em frente à tv. E era isso que meu pai fazia.

O sofá era de dois lugares e ele ocupava os dois, deitado assistindo algum programa, série ou filme pela metade, provavelmente. Esse é um defeito dele. Não importa se o filme começou há 1 hora atrás, se o programa já está no final ou se é season finale de uma série que ele nunca viu antes, se ele se interessou, vai assistir mesmo assim. Talvez essa seja uma qualidade, não vou julgar.

Ele segurava um prato grande e raso e comia alguma coisa de colher. Eu cheguei perto e achei que era feijão. Na minha cabeça de criança fazia sentido, ele amava feijão. "Eliane, o feijão é de hoje?", se a resposta fosse sim, ele enchia o prato. Eu perguntei pra ele e, depois de pensar um pouco, foi confirmado. Era feijão, eca. Tudo bem gostar, mas comer assim puro de colher? Aí era demais.

Eu sentei no outro sofá, depois levantei, fui brincar, voltei e o prato já estava vazio. Meu pai me pediu pra levar até a cozinha e foi aí que senti o cheiro. Era brigadeiro. Poxa, eu amo brigadeiro e ele não me ofereceu uma colher sequer, me deixou acreditando que era feijão. Na maior ingenuidade.

Pai, eu te perdoo, mas não esqueço.

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