Presidenta dos mesários

Quando eu era criança, fazia questão de acompanhar meus pais na hora de votar. Sabe se lá quantos 45 eu confirmei sem saber o erro que isso representava, mas não entremos nessa questão. Pegar fila, encontrar a sala certa, apresentar o documento, assinar o caderno e apertar o botão verde. Tudo era emocionante.

No dia em que fui tirar meu título de eleitor decidi que queria ser mesária. Mesária voluntária. Sim, isso existe. Me candidatei e uns meses depois me telefonaram.

A ligação foi mais ou menos assim:

— Bom dia. Quero falar com a Marcella.
 — Oi, sou eu.
 — Oi, Marcella. Aqui é do cartório eleitoral. Vi que você se voluntariou pra ser mesária. É isso mesmo?
 — Sim.
 — Sério?
 — Sim.
 — Bom, então, a escola que você escolheu já tá lotada. Não vai dar. Só se você trabalhar em uma outra. 
 — Tudo bem, pode ser.
 — Mesmo?
 — Aham.
 — Tem certeza? É pra ser mesária.
 — Tenho certeza, pode confirmar.
 — Ah… Então tá bom.

Eu nunca senti um julgamento tão forte pelo telefone. Parece que a cada confirmação minha que, sim, eu queria ser mesária, deixava a mocinha ainda mais indignada.

Essa mesma indignação volta quando eu solto no meio de alguma conversa que eu sou mesária, escuto um "putz, que azar" e aí respondo "não, eu que quis". Um minuto de silêncio.

A real é que, quando a eleição ainda fazia sentido nesse país, era algo incrível de fazer parte. Eu lembro dos mesários que atendiam meus pais sorrindo, de serem simpáticos e de não deixarem transparecer qualquer raiva por estarem trabalhando desde as 7h da manhã no final de semana. Eu sei o quanto as pessoas lamentam receber aquela cartinha de convocação pra trabalhar na eleição e, se pra mim isso não importava, por que não me voluntariar e ocupar uma cadeira?

Na minha primeira eleição trabalhando eu escrevi na lousa da zona eleitoral: "Sejam bem-vindos à festa da democracia!". Dois anos depois teve o golpe e essa lembrança hoje é irônica, mas o que quero dizer é que eu realmente me empolgava com isso tudo.

Quando eu fui promovida à presidenta dos mesários eu fiquei me achando. Meu deus, meu bom trabalho foi reconhecido! Recebi a notícia no cartório eleitoral, com a minha mãe sentada nas cadeiras da área de espera e lembro de ter virado pra ela falando baixinho: "Você ouviu? Eu sou presidenta agora!".

A verdade é que ser presidenta dos mesários não é porra nenhuma. Eu fui enganada e o poder subiu na minha cabeça por um tempo. Você só tem mais trabalho e, se você for uma pessoa legal como eu, pode dar mais horas de almoço pro pessoal que tá trabalhando com você. 
Mas eu continuo ostentando o meu cargo mesmo assim.

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