Dias escuros

Sinto como estivesse nadando em alto mar todo o tempo. A correnteza é cruel: ela arrasta meu corpo para o fundo sempre que pode e nunca consigo lutar de volta. Minha força é tão pouca perto do que encontro que não consigo boiar para a superfície. Permaneço, então, presa num universo azul e desconhecido, tentando escapar enquanto me esforço para não afogar.

Se ainda não sufoquei é por um milagre - deus, energias, alguma força oculta ou só a natureza que prefere judiar.

Não há vida nesse mar - nunca vi um molusco, baleia, sequer um peixe. Vez ou outra uma alga ou ser similar.

Quando consigo escapar por um instante, porém, como se voasse em direção ao sol, é como se saísse deste corpo estranhamente transformado em marinho e pudesse ser humana de novo. Encho o pulmão de ar e por algum momento abandono a carcaça e sou outra.

Grito para qualquer pescador, mas ninguém me ouve. Depois de tanto tempo, o sal queimou minha garganta, língua e cordas vocais. Não há voz.

Será que desaprendi a falar? O que se passa na minha cabeça, então, são ecos de onde e do quê? A luz quase cega meus olhos, mas aguento até onde posso.

Ao final, o esperado: afundo de novo.

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