R.I.P útero (ou, *insira a simbologia desejada aqui*)

– Aí a senhora assina aqui confirmando a recepção do material biológico para levar à biópsia.
– Certo. – respondo, ainda confusa, segurando a caneta. Olho pro recipiente, uma espécie de garrafão que mais lembra um galão de leite prontamente consumível direto do gargalo por um personagem de desenho estadunidense qualquer.
Sim, tenho em mãos nada menos que a fonte geradora de minha existência. É que, após seus 45 anos e dois filhos adultos, minha mãe estava realizando um procedimento de histerectomia, mais conhecido como a retirada do útero.
Tentando imitar a naturalidade infalível da enfermeira, me despeço com um meio sorriso que certamente demonstra não um desconforto, e sim uma mistura de hesitação e perplexidade. E então, carrego em mãos o que havia me carregado por 9 longos meses.
A cada passo no soalho antiquíssimo de madeira do hospital beneficente da cidade, uma ponderação – ora inocente, ora profunda demais.
Passo 3. Dou boa tarde ao guarda prostrado à entrada. Será que ele ao menos desconfia que transporto um órgão recém retirado cirurgicamente?
Passo 6. Isso posto… Quantos órgãos recém retirados cirurgicamente este mesmo guarda já não viu serem carregados, achando que se tratava de uma ordinária garrafa composta por líquidos igualmente comuns, pouco ou nada relacionados à estrutura humana? “Café, talvez”, ele possivelmente se indagaria.
Passo 10. Minha barriga ronca, e a simples associação de café -> útero -> fome me faz pensar na atual crença de alimentação de tal estrutura após o parto para, assim, absorver nutrientes como naturalmente realizado por mães no reino animal. E pela Bela Gil.
Passo 14. Errata mental: placenta, Marcella. Os animais (em geral mamíferos, até onde sei) se alimentam, após o parto, da PLACENTA.
Passo 17. A simbologia disso tudo é indiscutível. Um dia gerador de vidas, no outro um mero objeto de análise laboratorial.
Passo 20. Todas as minhas lembranças e vivências, joelhos ralados, paixões fervorosas, alimentos agradáveis digeridos, dores e sentimento de plenitude. Tudo isso em razão de um pedacinho de tecido e aglomerado de células que tornaram minha realidade possível.
Passo 23. Hm. Essas caraminholas estão começando a soar niilistas demais.
Passo 24. Mesmo assim, coisa estranha essa de uma hora estar vivo, correndo, cantando, pulando e, na outra… Desprovido de vida, recostado num invólucro de madeira prestes a ser consumido pelo húmus – tal qual este importantíssimo componente anatômico, apenas no aguardo de ser descartado em lixo hospitalar.
Passo 27. Lembro que sou espírita. Ah, sim. O doce e reconfortante ideal de vida após a morte que sustenta minhas manhãs.
Entro no quarto de apartamento, dando de cara com meu irmão Daniel. Sua reação após minha imediata dissertação a respeito da breve aventura se faz semelhante à minha – com exceção de um ávido “Jesus, que poético”, seguido de um longo silêncio mútuo e mãos largas (dele) levadas à cabeça, em reflexão.
Cerca de uma hora depois, minha mãe volta da sala de recuperação ao quarto. Eu, prontamente, como filha dotada de discernimento que sou, comento o ocorrido à pobre progenitora recém-operada (e provavelmente em poucas condições de ouvir tamanha esquisitice).
Ainda grogue, ela volta o olhar pra estante ao lado, onde se encontra a garrafa. O rosto começa a formular expressões que vão de sobrancelhas arqueadas, dentes à mostra em demonstração de nojinho até um semblante de introspecção profunda (tudo isso numa duração de dois segundos). Finalizando com um sorrisinho característico, solta:
– Ei, bora abrir pra ver?!
P.S: não abrimos pra ver.
