“Sou o zumbido no ouvido da sua vergonha, e a ardência na minha pele. Sou a primeira, mas não a última vez.”

[Gatilho: VIOLÊNCIA; DEPRESSÃO]

Eu tenho inúmeros motivos pra ir embora, e eu quero só um para ficar. Há quanto tempo não sei o quê é ver letras sobre linhas, e minha voz tornar-se tinta no papel. Há tanto tempo não sei mais quem sou, ou por onde ir. A sensação de subir uma escadaria, e ter subido tanto que já não há como descer, mas a subida continua sendo infinita. Tantos degraus, mas não há forças para subir, parecem altos demais para meus quase um metro e sessenta.

Meu grito não solto faz meu pulmão vibrar, e contenho um mar no meu peito. Não pareço ser tão pequena contando o tanto que falta para transbordar.

Sou cheia dos porquês, cheia de justificativas, cheia de frases de efeito e saídas majestosas. Sou fogo, sou ar, sou terra, e água. Sou a ardência no peito, o ar que falta, os joelhos ralados por tanto se arrastar, e o choro contido da madrugada. Sou as lágrimas que não pingam, porque já não sinto nada, e ao mesmo tempo sinto tudo. Sou morna, sou fria, sou quente. Sou a provação, o inferno, e o paraíso que te desfaz no gozo mais intenso. Sou o limbo. Sou o precipício. Sou o fardo. Sou a bagunça. Sou a desorganização. Sou a sujeira. Sou a epidemia. Sou quem carrega o fardo. Sou quem faz a bagunça, e a culpa. Sou a culpa. Sou a desculpa.

Sou o zumbido no ouvido da sua vergonha, e a ardência na minha pele. Sou a primeira, mas não a última vez. Sou a sua vergonha, mas não só a sua. Sou o som estalado que sumiu na imensidão da sua audição, mas que continua na minha. Sou a importância, que essa é só minha. Sou o consentimento sem consentir. Sou a loucura, sou quem sangra, e quem bebe o sangue.

Sou o nojo.

Sou o nojo que te desperta, e que me persegue. Sou o grito de socorro abafado pelo calor da mão de quem aquece, da mão de quem apedreja, da mão que aponta, da mão que estala do lado esquerdo, da mão que acaricia o torcicolo por ela causado, da mão que não arde mais, mas que fez arder.

Sou a ausência.

Sou a depressão, a procrastinação, o pânico, o vômito, o choro contido em banheiro público, o choro contido em mais uma praça de alimentação, ou em mais um corredor do mercado.

Sou aquela que pede em silêncio para ter forças, e para aquilo parar. Sou aquela que pede por silêncio, por aqui já tem muita gente falando. Sou aquela que espera que reconheçam minha dor, aquela que espera não receber uma faca pelas costas, porque já me sinto o trono do Game Of Thrones. Sou aquela que pediu ajuda, mas que agora não pede mais. Sou aquela que sangra, mas não importa. Afinal de contas, eu só não deveria ter descoberto. Eu só deveria ter ficado morna enquanto as coisas sumiam. Eu não deveria ter descoberto, assim ninguém precisaria ver o sangramento que não estanca.

O quê os olhos não veem, o coração não sente.

Já eu…

Eu sinto muito. Por mim. Por você. Por você. E por você. Mas principalmente por você, por não saber a dor da queimadura de quem ferve. E eu achava que tinha me queimado sozinha.

Transformei minha dor em tinta na parede, e riram. Transformei meu grito de felicidade em frases desajustadas, e você pode usá-lo também, afinal, você ferve. Ferve tanto que queima. Espero que tenha consciência do tanto que queima, do tanto que arde.

24/07/2017