Ele me bate

Os olhos trazem consigo um arroxeado diferente e mais carregado de sentimento do que as olheiras típicas das manhãs cansadas. Não que trabalho não faça sentir; não é isso, mas uma coisa é bem diferente da outra.

São sentimentos divergentes, eu diria que opostos, o sentir e o doer. Os poetas usam o verbo “sentir” cercado de lengalengas de uma vida a dois. De tijolos que são colocados pouco a pouco para construir um muro sólido e firme.

São 7h15.

Seu hálito alcoólico enche o ambiente com aquele cheiro que avisa a boemia da noite anterior. E, como se não bastasse, as mãos suadas e peludas que outrora levavam um relógio de prata — ele mesmo se orgulhava de dizer -, agora se empunham sobre a mesa exigindo o costumeiro gole de café.

As madrugadas a dois já não existem. O amor que antes eu o dedicara agora é medo e opressão. As suas palavras são gestos ameaçadores e só a sua presença me enche a alma de terror. Estar ao seu lado me apavora.

Por fora, indiferente. As mãos seguram a xícara com uma confiança feminina de meses. Fruto de uma prática sem igual: era preciso se acostumar à rotina. Que rotina.

À medida que meus passos avançam, eu me aproximo fisicamente deste homem e o que mais me assombra é justamente a sua presença. As minhas pernas doem de medo.

Eu sinto o meu coração pulsar como forma de implorar que alguém dê o primeiro passo e saia daqui, mas os meus músculos já não obedecem a essas ordens. O pires toca a mesa de madeira maciça e eu ao lado, como que esperando um olhar de aprovação, sorrio humildemente.

Num golpe brusco, uma cusparada me tirou um “dez”: aqui, como em um filme, eu recordei todos os meus últimos passos em um segundo e reconheci que errara. Na temperatura, talvez, na quantidade de açúcar; aliás, talvez ele quisesse adoçante. Eu quero fugir. Não dá tempo.

Aquelas mãos grandes e suadas me dão o veredito final. Como quem mata uma mosca eu sinto aqueles dedos entrarem na minha face e muito mais profundamente na minha alma. Eu sinto o latejar de um rosto que se enfeia com o tempo e a dor de um coração que se dedica em todos os momentos.

Eu sinto a morte.

A morte de sonhos, de vontades e de sentimentos a dois, mas agora essas mãos que antes me conduziam ao paraíso das descobertas me humilham e são um instrumento de coerção. Essas mãos agora me puxam e sacodem porque não toleram mais. Essas mãos são monstruosas. Aquelas veias esverdeadas saltadas na pele morena e pulsantes de ódio e rancor me empurram para dentro de mim mesma e me fazem sangrar. Essas mãos tapam meus lábios e me impedem de gritar. E eu quero fugir.