Seguimos um Cristo conservador?

Às vezes, eu me pego pensando sobre o que realmente a figura — e o exemplo — de Cristo representa para as pessoas. Infelizmente, de acordo com o que me limitei a pensar, a religiosidade fala muito mais alto do que Jesus, principalmente em meio à nossa sociedade e até sobre nossa política e todo o modo de se fazer política, pensando no Brasil.

Ninguém segue a Cristo: foi a minha primeira conclusão. Ninguém pensa como Cristo: foi a minha segunda.

Jesus era o perfeito comunista: totalmente iconoclasta, totalmente contra a má distribuição de renda e riquezas de toda uma sociedade pautada na injustiça, luta de classes e dominação. Cristo também era contra quaisquer modos de domínio: fosse do mais rico contra o mais pobre, fosse contra o do homem para com a mulher ou do sacerdote para com seus servos. Antes disso, sua palavra afirma: “os humilhados serão exaltados”, “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o rico herdar o Reino dos Céus” e “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.

Jesus era, sem sombra de dúvidas, contra a pena de morte. Ele “absolveu” uma prostituta quando estava prestes a ser executada, lembram-se?

Jesus não ensinava a pescar. Ele dava o peixe. 
Está claro. Ele multiplicou pães e peixes para, simplesmente, dar o que comer a quem tinha fome. Ele multiplicou azeite e farinha de uma viúva com sua filha para elas terem alimento. É pouco? Os mesmos que se dizem “seguidores de Cristo” lançam sete pedras quando um governo, por exemplo, libera renda para pessoas em situação comprometida e não move UMA PALHA quando um deputado que se diz cristão é denunciado com contas no exterior para direcionar dinheiro ilícito.

Jesus amava. Fosse a prostituta, o cobrador de impostos, as viúvas e todos os outros pecadores que o perseguiam — e aos quais Ele recebia como amigos -, TODOS eram amados sem julgamentos ou preconceitos.

Jesus incomodava o governo e a religião estabelecida: Ele proibia algazarras no templo, desafiava fariseus, questionava o poder de governantes autoritários e ricos. Jesus era uma pedra no sapato dos poderosos. 
Sem entrar no mérito de Ele ser ou não o filho de Deus, podemos dizer que era, sem fim, um militante de causas. Jesus lutava pelos seus e lutava com os seus e, curiosamente, permaneceu entre nós durante 33 anos (carece de fontes) e não fundou sequer UMA igreja. Antes, disse que a igreja é cada um, que cada um é templo.

Agora, retomando o questionamento inicial e levando em consideração o que é ser Cristão, você acha mesmo que é? Será que eu sou cristão?

Não dói ver pastores e pastoras cheios de dinheiro enquanto existem membros em suas igrejas que não têm o pão de cada dia? 
Não dói ver missionários com carros e casas acima de suas necessidades quando há membros em suas igrejas que se levantam às 5h e dependem de transporte público (nas condições que todos nós conhecemos) para batalharem um aluguel de uma casa de três cômodos? Não dói ver o monopólio de uma família ou uma pessoa sobre a direção de uma multidão e de todos os recursos vindos dela? Nem Jesus, que era Deus, segundo alguns acreditam, conseguiu fazer tudo sozinho. Ele tinha 12 ajudantes.

Vamos lançar um novo olhar: e se a história de Jesus acontecesse nos dias de hoje? E se Jesus fosse uma mulher, pobre e negra, tivesse nascido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que questionasse tudo o que você acredita sobre fé e religião? E se Jesus fosse essa pessoa e confrontasse o governo de hoje? Você o rotularia como “esquerdopata”, “feminazi”, “vitimista” e “comunistinha”?
Se Jesus tivesse nascido hoje e incomodasse como incomodou há 2 mil anos, você realmente seria cristão e o seguiria? Eu continuo achando que não. Todos, sob a liderança de Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro gritariam: “Soltem Barrabás!”.

Ele, o Filho de Deus, iria para a cruz de novo.

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