Pode um homem ser (realmente) feminista?

Marcello Corrêa
Aug 23, 2017 · 3 min read

Na conversa de bar, o papo era violência. Uma amiga conta que, além de ter consciência de que pode voltar pra casa sem o celular, sabe que existe uma chance real de ser estuprada. Minha reação é de desconforto, reflexão, um pouco de surpresa, apesar de ler sobre o assunto. Uma coisa é conhecer estatísticas, outra, saber que o medo de ser violentada é tão real em uma mulher como o receio do assalto que ronda todos, independentemente do gênero. Mas difícil mesmo é sentir o que elas sentem.


Corta para anos depois, violência urbana agravada. Passo em uma calçada da Zona Norte carioca conhecida por concentrar ocorrências de roubos, próximo ao Norte Shopping. Minha namorada junto comigo. Metido a solidário e “feministo”, esboço um comentário sobre como deve ser difícil passar ali sozinha, com risco muito maior de ser assaltada etc e tal. Sou gentilmente esclarecido: “não, não sei, não”. Não é de ter a bolsa arrancada que elas têm medo. O perigo é de agressão muito mais dura, traumática.

Tempos depois, um desabafo no Facebook: aos gritos, torcedores fazem do metrô a extensão do estádio, relata a namorada. Cena comum depois de partidas no Maracanã, socam o teto, xingam. Obviamente, ninguém é obrigado a passar por isso, em um espaço público, de todos. Sozinha, mulher, ela escreve, nada pode fazer, por medo.

Mais uma vez, tento mostrar que entendo o drama. Relembro a experiência da volta de um jogo no mesmo Maraca quando vi um sujeito (que não era torcedor de nenhum dos dois times que disputaram a partida) ser alvo de piada (sem qualquer tipo de violência) da galera, por estar com camisa da cor da equipe rival. Meu ponto era acrescentar que esse quebra-quebra generalizado é chato, incômodo pra todos. E também causa medo. Mesmo sendo homem, quem está disposto a enfrentar sozinho a torcida do Flamengo (ou do Fluminense, Botafogo, Vasco)?

Pois bem: meu comentário foi tão profundo quanto aquele “É complicado…” que a gente solta sem graça na conversa de elevador.

Evidentemente, o risco a que uma mulher está sujeita em uma situação assim é maior. A sensação de vulnerabilidade é mais forte, justamente por causa das possíveis consequências: ser insultada e humilhada, na menos pior das hipóteses.

Essas três histórias mostram uma miopia que acredito ser compartilhada por muitos homens da turma na qual me incluo, a dos não-machistas e bem-intencionados. Na tentativa de ser solidários, mandamos logo o discurso de “acontece comigo também”. Seria ótimo, não fosse o detalhe de que, não, não acontece. Há de existir casos, mas quando um homem teve receio de ser violentado ou perseguido por andar sozinho na rua?

O medo, o desconforto e o iminente risco de ser desrespeitada que uma mulher sente ainda escapa de muitos de nós, por melhor que seja a intenção de ser ou parecer solidário. E é algo que provavelmente nós, homens, possivelmente nunca entenderemos, porque, na real, não sentimos isso na pele. Lembrando que, aqui, me refiro aos caras que se preocupam honestamente com a questão. Para os simplesmente machistas, a discussão é outra.


Não trago conclusões ou insights geniais sobre o assunto. Me parece que as saídas, do ponto de vista prático, passam por construir uma sociedade em que, em primeiro lugar, esse medo cotidiano não mais acompanhe as mulheres. E, em relação aos conflitos de discurso, a receita parece ser: entender melhor e ouvir mais o que elas têm a dizer.

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