A mortalha do amor

Os Amantes, René Magritte (1928)

A festa havia começado há tempo demais, os copos, os maços e os papos haviam se esgotado antes mesmo da folha no calendário virar. Os corpos ainda dançavam soltos, as conversas ainda não tinham voltado a seguir de forma linear e muito menos meus passos, mas minha animação se fora por completo. Todos aqueles sorrisos e abraços vazios de sinceridade por estarem cheios de embriagues não me enganavam. Minha consciência, mesmo entorpecida, sabia que no dia seguinte os problemas viriam me dar bom dia. Como de costume levantei-me repentinamente, abracei a todos e parti pela noite. Segui o caminho de casa fora do meu estado de consciência normal, como sempre.
 
 Ao entrar em casa, a primeira coisa que vi foi aquela caneca que você me deu, e num acesso de fúria atirei-a contra a parede. Algumas gramas a menos para segurar na barra que é lembrar de nós. Deitei e fiquei pensando na vida, mas aquele gosto das memórias, que um dia foram tintas como vinho e se tornaram ácidas como vinagre, permaneceu. Após pensar e repensar se de fato deveria, decidi simplesmente que não devo nada a ninguém.

Me ergui aos tropeços e aos poucos fui esquadrinhando a casa. Nos porta-retratos eu pisei. Os livros eu rasquei. No degrade de malhas e tons, que você organizou para mim com perfeição no guarda-roupas, despejei cândida, para remover a graça. Os quadros que penduramos juntos, eu derrubei com as lágrimas e o som que compramos naquela viagem, eu quebrei ao som de meus gritos. Da cachaça que você me trouxe de Minas me desfiz em partes, um pouco usei para queimar as fotos e os bilhetes de amor, o resto bebi para queimar as memórias. A garrafa foi pela janela, junto com n̶o̶s̶s̶a̶ minha coleção de CDs e com qualquer chance de voltar a tomar sua caipirinha.

Olhando em volta e procurando tudo o que fomos, não via mais nada. Claro que com minha mania de limpeza, lembro bem como isso te irritava, comecei a juntar tudo. Dois sacos imensos, cheios de ressentimento, orgulho, nostalgia e dor. Foi isso o que sobrou. Após jogar tudo fora, deitei. Só no dia seguinte, quando acordei na caçamba de lixo, já de volta à tão endeusada sobriedade, com o sangue seco, os machucados e as marcas de queimadura pelo corpo, é que percebi. Não importa o quanto eu me esforce para esquecer, os sorrisos e as lágrimas que compartilhamos, serão sempre parte de mim, as coisas que aprendemos, serão sempre parte de mim, as histórias que vivemos, serão sempre parte de mim, em suma, você será sempre parte de mim, assim como eu sempre serei sempre parte de ti.