Carta aberta

Paradeiro irrelevante, 10/04/2016

Endereço esta carta aberta a toda a comunidade intelectual, cientifica e religiosa. Na verdade, a todo aquele ou aquela que se interessar pela causa. Aviso desde já que este apelo não é filantrópico. Não estou aqui para espalhar grandes causas humanitárias. Estou aqui por puro egoísmo, para pedir ajuda em uma cruzada pessoal. Agradeço desde já a todo aquele que se dispuser a ler e responder meu apelo, aqueles que não tiverem o conhecimento ou as ferramentas necessárias para responder, agradeceria se pudessem compartilha-lo para que possa chegar a quem de fato me auxilie. Introduções e esclarecimentos feitos, segue a melhor descrição que eu pude compor de algo que não posso nem mesmo compreender.

Descobri uma criatura completamente nova: É claramente selvagem, digo isso não porque ela é animalesca, mas sim dotada de uma rebeldia natural. Leva-me a descordar de Sartre e leva-me a acreditar em Deuses, afinal nada neste mundo poderia ter gerado tal combinação de beleza, alegria, bondade, graça e leveza. Já constatei que não há no mundo alma que possa abarcar aquela sem ser consumida, rasgada e partida de dentro para fora, mas todas hão de quere-la dentro de si. Não há quem não simpatize com aquela simpatia, quem não gingue com aquele gingado, quem não sorria com aquele sorriso. Não há quem não a admire por sua alegria. Todos hão de quere-la e todos hão de ama-la, mas não há coração sob, muito menos sobre a terra que sacie sua fome de aventura, de ver o novo, de ver o desconhecido. Ela tem a natureza solitária, mas não como as árvores que plantamos em meio aos bosques de pedra, é solitária como o sol que ilumina a todos e brilha sem a ajuda de ninguém.

(Aqui, após cativar-lhe com tal figura e garantir que retenho seu total interesse, caro leitor, é onde insiro meu relato)

Somos íntimos, mas não amantes e eu claramente não tenho o direito de contestar sua alegria bucólica provinda da liberdade selvagem que ela contém em si. Todos sabemos que os mais eruditos pássaros deixam de cantar quando cerceados, perdem a alegria de compor. Sendo assim, não posso permitir que passe pela minha mente a gananciosa e egoísta ideia de enjaular em mim tamanha expressão do que a vida pode nos oferecer de mais belo. Além disso, jamais teria a coragem necessária para dizer-lhe que sou incompetente nas relações do ser, nunca poderia ama-la pela metade. E infelizmente não tenho a capacidade de dizer-lhe que a amo por inteiro. Sim, “inteiro”, no masculino, pois todo o meu eu a ama. Ela, porém, vive a desrespeitar esse acordo não verbal, não sei se por inocência ou por pura ousadia, segue furtando espaço em meu peito. Continua surgindo de forma inesperadamente esperada, como a grama crescendo rebelde entre os muros e as calçadas e rompendo os padrões de cinza, como o sol irreverente entrando pelas persianas nas manhãs e nos acordando sem autorização, como o frio noturno acobertando nossas almas com filmes, mantas e moletons. Não consigo registrar aqui como amo a parte do meu ser que pertence a ela, nem como odeio a parte do meu ser que pertence a ela, pois todo o meu ser pertence a ela.

Certa vez me disseram que os grandes homens são aqueles que tornam possível o impossível e palpável o inimaginável, sendo assim venho entregar-lhes este desafio: Expus a todos sua natureza, na esperança de que algum dia venham acalmar minha inquietação curiosa com explicações. Peço encarecidamente que um biólogo explique a origem de tal graça, um matemático demonstre o teorema que comprova tal existência, um físico meça a força de tal atração, um poeta descreva a sutileza de tal relação, um teólogo justifique a injustiça de tal beleza. Na verdade, peço que todo aquele que puder ajudar-me a decifrar esse enigma em meu coração que o faça, pois jamais vi tamanho oximoro. Jamais vi tanto brilho emanando tantas sombras de mistério.

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