Indigente

Foto: Ira Fox, fotógrafo novaiorquino que registra a cidade através dos reflexos gerados pelas poças d’água na rua.

Sento sempre no meio fio, para não atrapalhar os transeuntes apressados. Fico observando o reflexo da cidade distorcido na vala discreta que se esconde a céu aberto, no meio das ruas. Na tela negra e difusa cuspida pela boca de lobo que regurgita cotidianamente o chorume da burguesia, a maioria vê só a merda que sai de si mesmo, eu vejo a merda de todo mundo.

No espelho do lodo perde-se a clareza, e portanto, ganha-se o beneficio da dúvida. A janela preta e podre emoldurada pelo asfalto não me obriga a ver as rachaduras que gritam a ruína das casas que foram meus lares. No desforme das imagens me deixo esquecer as mágoas e as preencho de nostalgia. Não preciso olhar diretamente rostos que me desconheceram ao longo dos anos e perguntar-me se o que partiu foi o conhecido em mim. Afinal, não vejo outro motivo para que todos aqueles para os quais já fui alguém, hoje não me vejam nem como merecedor do título de ser.

Minha imaginação completa toda a incerteza gerada pelo lixo, flutuando no espelho d’água, com flores plásticas, falsamente perfeitas ou perfeitamente falsas. Como num sonho arquitetado vivo a mentira de suculentas memórias já apodrecidas há anos, consumidas pelos vermes e pragas do acaso que me pôs nessa calçada. Vermes e pragas estes que ainda tem a audácia de cotidianamente disputar restos comigo. Solitário, observo a modernidade líquida através do líquido da modernidade, tão preto e docinho quanto a Coca-Cola que acompanha o combo batata grande de mais um playboy filho da puta saindo do McDonald’s, sem dinheiro nem coragem de sonegar olhando no olho de quem não come há dois dias.

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