O Cinza

Recorte da capa do álbum “O Cinza” /O Terno (2014)

Mais uma vez acordei cedo não porque já dormi o suficiente, ou porque tenho algo importante para resolver, mas sim porque o frio penetrou meu corpo a ponto de expulsar a mim mesmo, pois nunca há espaço para nós dois. Eu nunca fui muito de acordar cedo, mas sempre apreciei ver a cidade retomando vida aos poucos. As pessoas saindo para comprar pão, de chinelo e sem camiseta, claro. Os carros voltando a circular, aos pouquinhos tomando a cidade para si novamente. Os comerciantes abrindo e varrendo a areia de suas portas. Os ônibus nunca pararam, minha cidade não era tão pequena assim, mas para vê-los eu precisaria olhar em direção a Avenida e sempre preferi olhar a praia. Era delicioso observar e entender como começava o dia. Hoje no entanto não há o que observar, dormi e acordei ao som dos motores. As lojas não fecharam. As pessoas não deitaram. A cidade não dormiu. Parece que ser paulistano significa dirigir infinitamente um circular sem ponto final. As pessoas te fazem sinal, sobem, chegam onde querem e depois elas saem. Um após o outro vamos tomando esse ritmo, fazendo movimentos repetitivos, rotineiros e cotidianos para que possamos manter a cidade girando. Alguns apostam corrida, outros dirigem bem devagarzinho, alguns se recusam e preferem ir de bike pois acham que isso significa liberdade, mesmo que saiam de pontos comuns e também a eles cheguem. Por aqui não vejo aquele tio que caminha na praia com seu cachorro e sem camisa. Ou os senhores que passam o dia jogando xadrez na pracinha. Muito menos os comerciantes do bairro, todos sentados, tomando cerveja na padoca, no meio do expediente, com um olho no copo e o outro na banca de jornal. A cidade não para, as pessoas não dormem, o silencio não canta e as pessoas só correm. Nem apreciar o nascer do sol é possível aqui, as fábricas não param de cortinar o céu de cinza. Aparentemente minhas manhãs agora só me reservam café sem gosto e pessoas sem rosto.

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