Solidão

Mais uma vez saiu esgotado do trabalho, parou no boteco da esquina e pediu com tom de bocejo:
 — Vê o salgado menos feio que tiver aí, Seu Valter.
 — Tá tudo velho, Sérgio , você sabe que essa hora é só rebote. — respondeu o dono da espelunca enquanto analisava a vitrine como quem olha a papelada que representa a barreira entre o expediente e o feriado.
 — A Estella ligou, ta cansada, não vai cozinhar hoje.
 — Ela tá cansada há 30 anos… — comentou Valter enquanto puxava um guardanapo e pegava o primeiro salgado que viu na estufa.
 — É? Eu também. — suspirou enquanto refletia sobre o quanto aquele papel era irrelevante na interação entre os homens e os salgados. Dentro daquele ambiente não faria diferença alguma se a comida fosse servida diretamente com as mãos ou até mesmo com os pés.
 — Você precisa começar a se cuidar, Serginho, não somos mais moleques. Eu mesmo vou vender o bar e me aposentar, não tenho mais idade pra trabalhar tanto, assim como você não tem mais idade pra jantar aqui todo dia.
 — Você tá pra vender desde que o meu mais velho nasceu, e ele já ta se formando na faculdade.
 — Dessa vez é sério, recebi uma oferta boa, só to criando coragem de me despedir, você sabe que esse lugar é quase da família. Falando em família, teu caçula, passou?
 — Passou, se antes aquela casa já era grande demais pra gente, agora parece que eu moro sozinho. Nem a patroa eu vejo mais, quando acordo pra trabalhar ela já saiu e quando chego ela já dormiu.
 — É por isso que você vem aqui me paparicar toda noite, depois que sai da firma?
 — Anota aí mais uma coxinha, sexta eu passo aqui e acerto o mês todo e vê se vai tomar no meio do seu cu. — disse levantando pra ir embora.
 Saiu com o salgado na mão, morava a poucos quarteirões dali. Enquanto criava coragem para comer, ficou refletindo se de fato ia lá apenas para ter com quem conversar . Não se lembrava da última vez que seus filhos ou seus irmãos haviam ligado para marcar um almoço ou um churrasco. Muito menos da última vez que saíra para jantar com sua esposa. Já ia virando a esquina de sua rua quando os pensamentos foram interrompidos por um movimento estranho na calçada. Um homem levantou-se subitamente. Parecia ter saído do próprio concreto, tão sujo que estava. Se aproximou de Sérgio aos poucos, talvez com medo de assustá-lo.
 — Ó, toma aqui essa coxinha. — adiantou-se Sérgio, com pressa de se livrar do incômodo.
 — Acabei de jantar, obrigado. Eu … 
 — Dinheiro eu não tenho, foi mal, Grande, ta difícil pra todo mundo. — interrompeu, já acostumado com a abordagem.
 — Também não quero dinheiro, Senhor. — disse o morador de rua, tranquilamente.
 — Mas diga logo então, que porra você quer? — balbuciou Sérgio já impaciente.
 — Eu queria conversar, sempre vejo o Senhor passando por aqui cabisbaixo. Posso estar enganado mas você tem cara de informado e eu gosto muito de conversar com gente que sabe do que está falando. Aqui na rua é difícil encontrar alguém para conversar, quanto mais se for assunto bom como política ou literatura. O senhor tem cara de quem entende das coisas e se não for muito incomodo, acho que faria muito bem a nós dois simplesmente sentar e bater um papo.
 — Olha, toma aqui dez reis e vê se não vai gastar em bebida. — disse o homem enquanto se afastava, ainda confuso.
Chegou em casa e mais uma vez encontrou os quartos dos filhos vazios, a mulher dormindo e o silêncio ecoando nos cômodos sem vida. Como de costume, dormiu sozinho, bem ao lado de sua esposa.

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