Pode homem feminista?

Logo que adentrei a luta feminista, me conectando com os ideais propagados através das redes sociais e blogs, percebi de pronto que havia um rechaço aos homens que compartilhavam os princípios feministas de paridade de gênero se intitularem “homem feminista”. Sem nenhuma fundamentação teórica para me basear, apenas reproduzi aquilo que estava difundido no meio: homem não pode ser feminista.

Todavia, ao me conectar com as diversas — e muitas vezes divergentes — vertentes teóricas do movimento e, principalmente, as pós-estruturalistas, percebi que séculos de opressão internalizados pela e na figura da mulher tiveram como consequência a materialização de um corpo opressor, o do homem — todo e qualquer. Existe uma armadilha iminente aí, pois este pressuposto tem como consequência o engessamento do debate, elegendo e substancializando uma corporalidade masculina universal como opressora. Naturaliza-se um corpo, torna-o matéria-prima de discussão, e o que é natural não é passível de desconstrução. Por isso, quando muitas afirmam e reafirmam a impossibilidade de dialogar com o homem, pois aceitam que em sua estrutura está inserida a condição imutável de machista, estão também admitindo este machismo como natural e não como socialmente construído, estão negando transformação e essencializando a questão.

Entretanto, ao se declarar feminista, é necessária uma consciência por parte deste homem do lugar de onde fala. Em uma sociedade estruturada pela dominação masculina e subordinação das mulheres, é preciso reconhecer seus privilégios e reconhecer os mecanismos de opressão e suas sutilezas.

Eu compreendo o que essas mulheres dizem quando não aceitam que um homem se denomine feminista: nós só não queremos que você seja feminista apenas quando for cômodo. Uma mulher feminista é combativa o tempo inteiro, incessantemente, possui inteligibilidade social, é oprimida pela estrutura que marginaliza tudo aquilo que desvia da heteronormatividade; não expõe a opressão e o opressor apenas quando lhe convém. Amigo, não adianta você se denominar feminista se quando o amiguinho objetifica a mulher ou o faz piadinha misógina você se abstém e/ou ri junto. É preciso abdicar e questionar seus privilégios, e para o indivíduo privilegiado esta tarefa é muitas vezes difícil pois exige saída da zona de conforto e infindável confrontamento com o status quo— mas não é impossível.

Por fim, se não acreditarmos que todo indivíduo, que é produto das relações sociais, pode ser desconstruído (da mesma forma que foi construído), do que vale a luta?

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