Nós 5 no Rio.
O texto que vem aí faz referências pretensiosas aos seguintes autores/textos:
- This is water, David Foster Wallace
- Enivrez-vous (Embriague-se), Charles Baudelaire
- Meu olhar — II do Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Embora eu ache que funcione sem eles, gosto mais de fazer as coisas acompanhado. Se eles ainda não são teus chegados, faço o convite de ir lá, se apresentar, e deixá-los entrar nessa sua casa, também, assim como eu fiz. São bons amigos dos quais gosto tanto quanto ainda não conheço direito.
Vamos comigo, então.
Sento em uma mesa de bar em que nunca estive — como só pude passar pelo Rio de Janeiro uma única vez (e, ainda esta, foi só de passagem mesmo), me sobra apenas imaginar como seria tomar uma cerveja em um boteco do Leblon. Mas eu gosto das sobras, também, então vamos por aqui.
Estão na mesa, comigo, Baud, Dadá, Bebéto e meu avô, Paulão. Desses três primeiros, o Dadá é o mais novo, e como é comum dá juventude, começa nos ensinando:
- É sobre ver aquilo que está em todos os lugares, aqui, agora, hoje e sempre. Nos engrandecemos e evoluímos o pensamento, mas para que? Para nossas escolhas! Aprender a pensar não é aprender a raciocinar, é muito mais que isso, é aprender a perceber a escolha que sempre existiu e que sempre tivemos a escolha de sobre o que pensar.
Nesse momento um ciclista se distrai e cruza por um momento o caminho de um taxista que se desvia no ultimo instante, buzinando e xingando a plenos pulmões.
Continua o Dadá:
- Veja você. É de revoltar qualquer taxista, certo? Não só foram muitas as horas naquele mesmo assento, debaixo de sol e chuva, com o aroma sujo da rua, a concorrência do Uber, o sindicato que não ajuda, a multa por não ter dado seta, os cincão que teve que pagar pro flanelinha, o moleque a que abriu a porta e amassou a lateral, e agora me vêm esse ciclista maluco e faz uma dessas! Era o que faltava, no topo dessa vida árida, ter que perder o resto do dia de trabalho pra socorrer um acidente, ter o carro amassado e ainda passar por essa desgraça.
Dadá para por um momento e olha para a roda, quase em desafio. Todos atentos, esperamos; ele, que entende muito bem de como prender a atenção, retoma a postura continua:
- Isso, é claro, é o pensamento padrão. Aquele que não precisa de esforço. A conclusão clara e óbvia. Até porque, o taxista só poderia ver as coisas com os próprios olhos, que estão grudados em seu crânio e pivotam seu umbigo, de onde viveu absolutamente tudo o que aconteceu consigo desde o momento de seu nascimento.
- Mas, e se? Improvável, eu sei, mas possível. E se, aquele ciclista fosse justamente um médico que, tendo sido chamado pra um hospital próximo, pegou uma bicicleta para furar o trânsito porque precisava chegar o mais rápido possível na mesa de cirurgia para que pudesse salvar a perna, ou quem sabe a vida, de Toninho, o primo do taxista, que acabara de sofrer um acidente? Eu sei, eu sei! Já disse eu mesmo, é improvável; mas é um outro ponto de vista possível. A minha vida e a vida de vocês, assim como a daquele taxista, é recheada de buzinadas, fechadas no transito, dias de chuva e de sol, mas, já que temos que vivê-la todos os dias, que o façamos escolhendo o que pensar sobre as coisas. Quem sabe não era o taxista que estava no caminho do ciclista?
Baud e Bebéto cruzam olhares, os dois têm um sorriso discreto no rosto, de quem aprecia a luz da vida nos olhos da nova geração. Bebéto responde:
- Sabe, garoto, essa vida as vezes arrasta mesmo, ainda mais aqui na cidade, onde as vezes a natureza de dentro é difícil de ver aí fora. Só que no todo dia, é que eu olho pra um lado e pro outro e, sempre que eu vejo uma luz, fico só sorriso. Pego esse encanto da natureza e saio, feito menino, feliz da vida por aí.
-É isso! — Interrompe Baud, já um pouco elevado de virtudes e cerveja gelada. — É isso mesmo! Se você deixar, a vida acontece com você, não você com a vida. O que sempre persiste precisa sempre ser combatido. Se a gravidade do mundo e dos fatos verga seus ombros pro chão, você não pode deixar, em momento sequer, de levantar a cabeça e colocar a coluna no lugar. Se ficar difícil de deixar a vida mais leve, faz igual a mim, bebe um pouco de vinho. O que me encanta, garoto, é que você já encontrou teu vinho. Como você mesmo disse, está em todos os lugares, a todo momento e em todos os dias. Você pode se embriagar disso que acontece quando, todos os dias, você escolhe diferente e, de maneira bem sutil, as vezes sublime, o mundo fica mais colorido.
Que tarde. O sol caia por trás de algumas árvores, uma bossa tocava no fundo do boteco, a cerveja, gelada. Olhei pro meu avô que me sorriu e apontou o dedo para os demais em um gesto que dizia: “esses são os caras”.
Como Da Vinci falou “a simplicidade é a máxima sofisticação”.
Como não sou, nem de perto, Dadá, Baud ou Bebéto, minha conclusão sai menos simples — o que só mostra o quanto ainda tenho pra aprender, que delícia.
Acho mesmo que, o que vai me fazer feliz vai ser a poesia que surge nos momentos de humanidade. No reverberar dessas minhas escolhas mais especiais. É isso que vai, de alguma forma, me embriagar. É isso que vai me fazer despertar e não sentir minhas costas vergarem no fardo do tempo.
