Corrupção nos olhos dos outros é refresco
Ela era um típica mulher de bem e patriota, foi às ruas protestar contra a corrupção, era microempresária e dizia que só Deus sabia o quanto lutava para continuar crescendo e empregando mesmo em tempos de crise.
Aquela era uma quarta-feira fora do comum, ela tinha acabado de dispensar uma das colaboradoras de sua clínica de estética pois não estava contente com ela, achava que ela não interagia muito com os clientes ou conversava com eles. Como não havia dado tempo de contratar alguém ainda para o lugar, a microempresária estava realizando os atendimentos da ex-funcionária.
O próximo cliente era um rapaz, que adora a antiga funcionária, pois diferente do típico ambiente de clínicas estéticas, ele odiava falar e ouvir mal da vida alheia e reclamação, na verdade ele queria só colocar seus fones e relaxar enquanto recebia o tratamento contratado.
- Desculpa meu atraso, peguei um pouco de trânsito por conta da manifestação de hoje. O ruim de trabalhar na Avenida Paulista é isso. — Se desculpou o jovem cliente.
- Nossa, o país está uma loucura com essas manifestações, né? — Emendou a empresária tentando criar um assunto.
- Está, né? — Disse o rapaz querendo cortar logo, pois odiava debater política ainda mais na estética.
- Eu rezo todo dia, pois não sei onde vai parar assim. Uma loucura.
- É, né?
- Mas é! Não sei se você já teve oportunidade de viajar para fora do país, mas todas férias eu pego o marido e os filhos e vamos para algum lugar, esse ano fomos a Europa, você precisa conhecer a Europa, vou te contar como é só para te deixar com água na boca.
- Não precisa de verdade, eu estudei lá, conheço muito bem.
- Jura? E não te dá um sentimento ruim vendo o país jogado às baratas como está?
- Na verdade eu acho que ele está melhor do que quando fui estudar.
- Pára! Este país está um vexame, você olha a TV só roubalheira, corrupção, um querendo tirar vantagem, não é possível. Só tem gente desonesta nesse país.
- Compreendo! — Disse o rapaz na esperança de acabar o assunto e curtir sua música em paz.
- Não tem como ficar aqui, você trabalha serio, honestamente e sempre tem alguém querendo tirar vantagem de você, nem empregado mais tá se salvando, antigamente pelo menos isso salvava.
- Como assim? — Perguntou o jovem pela primeira vez interessado no assunto.
- Por exemplo, hoje tive que dispensar uma pessoa, não dava mais, os clientes até que gostavam dela, mas ela não gosta de trabalhar, pedia para ela fazer trabalho de banco ela não gostava, precisava ficar mais ela nunca podia.
- Poxa, que burra. Deixou de ganhar uma boa grana com hora extra. Afinal vocês pagam quando o funcionário fica mais, né?
- Hum. — Diz ela toda sem-graça — não, mas com a crise funcionário não pode se dar o luxo de dizer não ao patrão.
- Moça, sério toma cuidado, se sindicato baixa aqui imagina o que dá, a moça contratada como esteticista fazendo trabalho do boy, trabalhando extra sem receber, imagina a confusão.
- Que sindicato! Nesse país nada é serio, você paga um por fora e tudo resolvido. Péssimo isso, né? Mas infelizmente nesse país todo mundo é corrupto, até o sindicato, que só fiscaliza para ferrar o empresário, quer tudo arrancar dinheiro, ganhar em cima de quem tá se matando para fazer o país crescer.
A funcionária da recepção bate na porta.
- Dona Valesca, posso falar com a senhora?
- Pode falar! Não vou conseguir parar aqui, esqueceu que mandei a infeliz embora? — Falou de forma super grossa com a funcionária.
- Então, sabe os produtos que temos que mandar para aquela cliente?
- Para a Paula? — Responde meio alterada — Já falei que ou ela paga o boy ou vem buscar aqui, não vou mandar. Explica para ela que trabalhamos com uma margem super apertada, em especial nos tratamentos como o dela, e não podemos assumir o custo do boy.
- Por curiosidade: Qual tratamento ela fez? — Interrompe o cliente.
- Ela fez Crio, o mesmo que você antes das massagens, sabe?
- Sei! — Neste momento o jovem rapaz pensa na cara de pau da empresária de tentar a convencer a cliente que um tratamento de mais de 2 mil reais, o lucro seria tão baixo que pagar R$ 20 em um boy o faria dar prejuízo, mas preferiu não problematizar.
- Eu falei a ela, Dona Valesca. Mas ela disse que você prometeu, inclusive encaminhou este e-mail onde a senhora realmente promete.
- Silvana, fala que as coisas dela estão aqui que se ela quiser vir buscar, fique a vontade, se quiser mandar um boy também, e que no máximo posso mandar o meu boy e ela acerta com ele na hora mas que mais que isso não tem como.
A funcionária sai e a empresária continua o tratamento no rapaz.
- Viu o que te falei sobre este paizinho? É um querendo tirar vantagem em cima do outro. — Enquanto escuta a reclamação o jovem pensa “Mas você não prometeu? O combinado não sai caro”
Nisso a funcionária volta: Dona Valesca, a Paula está mandando um boy hoje a tarde, mas pediu para enviarmos agora mesmo uma nota fiscal em seu CPF para seu e-mail?
- Como assim nota fiscal? Não vou mandar, se emitir nota tem imposto, ela não sabe? Que biscate essa cliente — Faz o seguinte, faz um recibo de compra com os dados dela no computador e manda. — Passam-se alguns minutos e a empresaria finalmente fica quieta, o que o rapaz celebra, apesar de sentir a massagem um pouco mais pesada neste momento.
- Senhora, a cliente está reclamando, disse que isso não é uma nota fiscal, e perguntou se quer que ela te ensine a emitir uma. — O jovem dá uma risada disfarçada e pensa “Quero ser amigo dessa cliente”
- Ela tá querendo tirar vantagem. Não posso com isso, você trabalha honestamente e sempre tem um querendo ganhar em cima de você, sempre! Faz assim: Se ela ligar fala que não estou e que não tem autonomia para resolver isto e bloqueia o endereço de e-mail dela na nossa caixa de correio.
Já no finzinho da sessão, o silêncio dominava a sala de tratamento, o rapaz horrorizado com a defensora da honestidade e o fim da corrupção, e a empresária sem muita paciência para conversar depois daquele evento, quando mais uma vez a recepcionista interrompe o tratamento.
- Dona Valesca?
- Fala Silvana, fala Silvana. — Diz sem paciência alguma.
- A Solange da franquia ligou. A cliente ligou lá reclamando e ameaçou ir ao PROCON e uma coluna de defesa do consumidor do jornal se até o fim do dia não receber a nota fiscal.
- Não acredito! Vadia! Silvana emite logo a droga da nota pelo amor de Deus, não me amola mais com este assunto.
E assim acabou a sessão, a empresária ao finalizar o tratamento olhou para o cliente, crente que ele era solidário a ela e disse: Você entende agora porque nada funciona neste país? É todo mundo querendo pisar em quem está ganhando a vida honestamente, e aí você olha para o governo, é só sujeira, roubalheira, corrupção. Por isso, que domingo estarei na Paulista com a camisa do Brasil protestando, quero um país melhor para meus filhos.