O que as planilhas sobre o dia-a-dia nas agências e o caso de Bel Pesce podem nos ensinar sobre redes?

Como exercício meramente analítico e teórico, qual a diferença entre as lógicas comunicacionais tradicionais e digitais e as métricas utilizadas? E como este exercício teórico pode nos ajudar a compreender fenômenos direcionados por dados?

Há uma lógica tradicional da audiência que se chama broadcasting. Ela é medida principalmente pela circulação ou alcance totais — ex. televisores ligados ou assinatura e venda de um jornal. Essas métricas foram incorporadas à internet, por exemplo, pelos web analytics investigam quantidades de acesso ao site, tempo de permanência, links clicados, etc.

Há outras métricas, no entanto, que vêm de outra lógica. As estatísticas de análise de rede têm operação fundamentalmente diferente. Isso porque consideram a estrutura das conexões e o posicionamento dos atores em uma topologia centro/periferia. Nesse sentido, as chamadas análises relacionais tendem a oferecer compreensão sobre a natureza e a qualidade dos laços, mais do que o alcance total.

Fato é que no ambiente digital, essas duas abordagens se misturam o tempo todo. Analisa-se alcance, de um lado, e propagação via as conexões formadas em redes de viralização de mensagens, de outro.

Onde quero chegar com isso? Na análise de nichos.

Recentemente, o pequeno mundo da comunicação foi abalado pela divulgação de listas de autoria anônima nas quais profissionais do mercado davam depoimentos sobre como é a rotina de trabalho nas empresas jornalísticas e publicitárias. As pessoas falavam o nome do jornal ou da agência e soltavam o verbo. O episódio provocou relatos marcantes sobre o dia-a-dia corrido, prazos curtos, atraso de salários, assédios de todas as formas e muitos outros.

Dificilmente esse caso chegou ao chamado público geral, ou seja, certamente meu pai não deve nem ter ouvido falar da famigerada lista. No entanto, não houve ninguém entre meus amigos da área que não tenha entrado e comentado sobre o conteúdo. Alguns deles até chegaram a contribuir com suas declarações anônimas. Pela lógica tradicional, não poderíamos, portanto, falar que o caso bombou. Afinal, não estava nos TTs e não é de conhecimento geral.

Contudo, se pensarmos pela lógica de nicho e de redes não há nenhuma dúvida que o caso ativou conexões entre redes profissionais e acadêmicas da comunicação e chegou a grande quantidade de pessoas. Nesse caso, temos um exemplo de disseminação e de propagação de conteúdos via lógica de redes.

Ainda mais recentemente, outro caso me chamou a atenção. Há poucos dias, vi redes de empreendedores e profissionais do mercado comentarem o caso de Bel Pesce. Novamente, temos uma grande quantidade de pessoas se mobilizando em torno de um caso que não é de conhecimento geral. Temos como ponto de partida excelentes exemplos para pensarmos a lógica de redes e as câmaras de eco que se formam na internet e, além disso, compreender o novo papel desempenhado pelos meios tradicionais.

Coletei 12.032 tweets e montei a rede de menções e retuítes para demonstrar como os perfis se mobilizaram em torno do caso. É impressionante como a rede tem alto grau de homofilia e especialização, ou seja, há pouca discordância entre as pessoas e muitos são profissionais de mercado que acompanharam de perto o caso. Este foi um pequeno exercício para discutir um pouco de abordagens teóricas ancorada em dados digitais. Quem quiser checar o dataset, é só mandar um email.