50 tons de cinza e o mundo polarizado

Devo confessar que não li o livro e nem assisti ao filme, mas o título é tão bom, tão cheio de significado, que em um mundo político cada vez mais polarizado, é mais do que apropriado. Quem teve a oportunidade de assistir ao debate presidencial americano, no último 09 de outubro, pôde ver em primeira mão a polarização entre direita e esquerda que tomou conta do mundo — não pretendo fazer inferências do motivo, mas creio que há um certo esgotamento da população em relação aos moderados — o que facilita navegar em direção aos extremos.

Voltando ao UFC, digo debate, ao nos aproximarmos do final um dos integrantes da plateia — talvez cansado da pancadaria — pediu que os adversários falassem algo de bom um sobre o outro. Hillary elogiou os filhos de Trump, basicamente atestando que foram muito bem-criados e isto dizia muito a respeito do pai. Trump, por sua vez, elogiou a garra e resiliência da adversária afirmando que ela era uma guerreira e que nunca desistia.

Creio que é exatamente esta a razão pela qual a democrata não está 50 pontos à frente do republicano — o que, em condições normais de temperatura e pressão deveria estar acontecendo, dada a diferença de preparo entre os dois. Ser “guerreiro” — ao menos em alguns campos — significa desenhar uma linha bem sólida entre “certo” e “errado”; entre “pessoas que são oprimidas” e “pessoas que são opressoras”; entre “nós” e “eles”.

Verdade seja dita, o mesmo serve para o seu oponente. E isto ajuda a mostrar ainda mais a falta que um moderado faz. Para ficar apenas dentro da América do Norte, creio que vale a comparação com o atual ocupante da presidência e usar como indicador de medição um dos temas mais apimentados da atualidade, imigração. Creio ser desnecessário repetir o pensamento do candidato republicano sobre o tema. Hillary Clinton, por sua vez, em um discurso no final de 2015, sugeriu que construir muros, mentais ou físicos, ou fechar a porta aos outros era um sinal de mau-caratismo. “Se conectar com todas as grandes lutas que avançam a dignidade e os direitos humanos, as lutas para defender os direitos dos trabalhadores, acabar com a pobreza, reduzir a desigualdade social (…) se resumem a mesma pergunta fundamental: qual humanidade devemos reconhecer como aceitável? ” A resposta certa, completou: “todas”.

Quando Obama fez um discurso sobre o tema em 2014, ele primeiro falou a respeito das fronteiras americanas e como ele as havia tornado mais seguras e como havia reduzido a imigração ilegal à metade. Quando se referiu aos que se opunham às suas políticas, disse entendê-los e completou: “milhões de nós, e me incluo nisto, podemos rastrear nossos antepassados por diversas gerações neste país, antepassados que trabalharam arduamente para se tornarem cidadãos americanos. Entendo ser difícil aceitar que se dê passe livre à cidadania americana (…) mas acredito ser importante termos este debate sem contestarmos o caráter uns dos outros”.

É claro que deve-se considerar os estilos pessoais nos discursos políticos, mas o conteúdo deles também demostra a diferença de pensamento. Enquanto o ocupante atual prefere reconciliar e atrair as pessoas ao minimizar as diferenças, os dois adversários da disputa se entrincheiram em suas “verdades”. No caso da democrata, o discurso de que os EUA são uma nação que deveria receber todos, de todos os lugares soa abstrato. É mais uma ideia ou posição moral do que um lugar físico. Além disto, contrasta de maneira gritante com a posição adversária. Ao fechar a disputa entre uma América xenófoba e outra utópica, sem espaço para o meio termo — ou para os 50 tons — os eleitores que se preocupam com a questão das raízes e da homogeneidade como pré-requisito para cidadania acabam achando a “América grande novamente” xenófoba mais atraente do que a abstração cosmopolita — apesar de ter sido a busca por esta, e não por aquela, que transformou uma colônia agrária em superpotência mundial.

Esse é um exemplo que devemos observar com muito cuidado, porque é fácil demais aceitar a situação de dois lados opostos como natural e culpar a própria democracia pela falta de opções.