O futuro da educação

Não são poucos os que afirmam que “as perguntas são mais importantes que as respostas” — uma rápida pesquisa pelo Google aponta “aproximadamente” 18.700.000 resultados — somente para a frase em português. Seguindo essa premissa a Bright, publicação online baseada na plataforma Medium e que recebeu aporte financeiro de ninguém menos que o fundador da Microsoft (por meio da The Bill & Melinda Gates Foundation), fez a seguinte pergunta a alguns educadores participantes do TED-Ed Innovative Educators: “como a escola vai estar em 2050?”. Como para a maioria das pessoas, conscientemente ou não, a escola está diretamente ligada à educação, a pergunta pode ser entendida como uma previsão (ou “jogo de adivinhação”) a ser checada daqui a 34 anos a respeito do próprio futuro da educação.

Como de se esperar, as respostas variam de “não vai mudar muito” até “será completamente diferente” (quem quiser pode checar AQUI). O interessante, para mim, não são as respostas em si, mas o que se pode subentender por elas. Dos que responderam que alguma mudança virá, o fazem sob 3 premissas básicas: uso maciço da tecnologia, criatividade como habilidade profissional desejada e uso prático do conhecimento como forma de aprendizagem.

Scott Teplin, um dos colaboradores da Bright, captou bem as 3 premissas em algumas ilustrações que replico abaixo. A sala de aula pode se transformar no próprio colégio.

Pátio do recreio

Illustration by Scott Teplin

Cafeteria da escola

Illustration by Scott Teplin

Exercícios de “futurologia” à parte, o que liga estas 3 premissas (que na minha opinião são válidas) é a capacidade de se propor desafios para o aprendiz. Uma das formas de estimular desafios é utilizando os campos de conhecimento formadores do acrônimo em inglês STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Uma das razões do enfoque nestes campos é a eficiência deles em estimular a imaginação e o engajamento pela prática.

É claro que o simples fato de disponibilizar as disciplinas não irá gerar desafio algum por si só. O que faz diferença é a forma como as disciplinas são implementadas. A organização MESA USA (Mathematics, Engineering, Science Achievement), que desde 1970 advoga em favor das disciplinas STEM e já ajudou, através de seus programas, milhares de estudantes a se transformarem em cientistas, engenheiros e matemáticos, investiu mais de um ano de trabalho e de recursos financeiros desenvolvendo “desafios” para estimular o aprendizado em STEM e compartilhou 5 estratégias que podem ser aplicadas para quem quer construir os seus próprios desafios de aprendizado.

1) Faça algo pessoal: escolha temas que possam se relacionar pessoalmente com você (ou com os aprendizes). A MESA escolheu, por exemplo, o desenvolvimento de próteses de baixo custo, porque conecta a engenharia a uma questão relevante. Segundo David Coronado, presidente da organização, “vários estudantes veem de campo de refugiados ou de países com pouco acesso à serviço médico e medicamentos”. Como possuem histórias pessoais envolvendo o tema, percebem imediatamente o benefício que seu trabalho pode gerar, desta forma se conectam a ele com mais facilidade.

2) Procure conselhos e opiniões: a organização se consultou com especialistas quando estava desenvolvendo seus desafios para poder construí-los de maneira autêntica. Para o desafio das próteses, buscaram conselhos da associação de veteranos de guerra e de médicos que trabalham com amputados. Desta forma, puderam direcionar os estudantes a implementarem os mesmos testes que são implementados por profissionais que desenvolvem próteses.

3) Faça pequeno: quando se desenvolve projetos com objetivos educacionais, é preciso lidar com situações pouco comuns às instituições de ensino, como por exemplo, estocar os produtos criados. A solução encontrada pela MESA foi a construção de próteses em tamanhos reduzidos, mas que pudessem ser fabricadas em tamanho normal se fossem entrar em uma linha de produção de verdade.

4) Faça barato: definir um limite das despesas força quem desenvolve um “produto” a ser criativo para reutilizar e “reimaginar” materiais. No caso dos protótipos, os estudantes foram orientados a usar o lixo reciclável — metais, plásticos e vidros são a matéria-prima dos protótipos, não há motivo para desperdiçar o que outros não querem mais. Modelagem e protótipos são usados para comunicar o que o “inventor” está pensando, isto está relacionado à experimentação, à construção e a “brincar” com as ideias e não com o uso do “material certo”.

5) Pense “low-tech”: apesar de ser um dos componentes do STEM, a organização deliberadamente evitou soluções de tecnologia em seu desafio de próteses. “Nós não queremos passar seis meses ensinando robótica aos alunos “, afirmou Coronado. Em vez disso, a ênfase foi no processo de design thinking.

É preciso engenhosidade, vontade em construir, aceitação da falha e certeza de que implementar o conhecimento é tentar novamente. Estas atitudes estão intimamente ligadas ao sucesso de quem quer implementar a sua propriedade intelectual. Se conseguirmos estimulá-las via nosso sistema educacional, não importa como ele seja em 2050, vai ter cumprido o papel que se espera em uma sociedade baseada no conhecimento.

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