Sobre bulbos, bolhas e bits

Uma das analogias mais comuns para o Bitcoin, atualmente, é a da Mania das Tulipas, um evento que se deu na Holanda no século XVII e teve consequências devastadoras no cenário econômico do país.

Pra não dizer que não falei dos bulbos

Estima-se que o cultivo de tulipas nos países baixos começou no fim do século XVI, mais precisamente no ano de 1593, quando um botânico desenvolveu mudas da planta capazes de resistir ao rigoroso clima holandês. Em pouco tempo, as tulipas conquistaram o país e tornaram-se artigos de decoração e coleção cada vez mais cobiçados, além de passarem a ser considerados indicadores de status na sociedade. Criando, assim, incentivos de mercado para que cada vez mais pessoas se dedicassem ao cultivo e desenvolvimento de espécies mais raras e mais belas.

O comércio de tulipas se consolidou como uma atividade altamente lucrativa na segunda década do século XVII e pessoas trocavam, até mesmo, terras e residências por bulbos. No ano de 1636, os bulbos passaram a ser negociados em bolsas de valores holandesas, no mercado de futuros, sem que qualquer margem tivesse de ser depositada, o que abriu espaço para a especulação em cima de contratos de bulbos que sequer tinham sido plantados. Os preços desses bulbos raros começaram a subir, mas o que mais chama a atenção, quando analisamos a mania, é o que houve com o preço do Witte Croonen, um bulbo extremamente comum, que no início de 1637 experimentou um aumento de 26 vezes. Os sinais não foram bem interpretados, à época, e uma semana depois os preços despencavam. Sob o caos causado pelo colapso dos preços dos bulbos de tulipas, o governo neerlandês cancelou todos os contratos, impondo a maior parte do prejuízo sobre os cultivadores, que não encontravam outros compradores e tampouco conseguiam cobrar os contratos cancelados.

High on flowers

Mas então… Foi só um monte de holandês comprando umas plantas e do nada a planta valia uma casa e depois valia nada? Bem, quando um grupo pequeno de indivíduos faz algo que parece estúpido é razoavelmente provável que eles sejam apenas estúpidos, mas quando uma parcela significativa da população de um país segue por um caminho, digamos, tortuoso é porque talvez haja algum incentivo, alguma informação sendo enviada e influenciando a tomada de decisões.

No início do século XVII, os holandeses eram a força motora por trás do comércio europeu. As moedas utilizadas em Amsterdã eram basicamente as moedas dos países vizinhos. Era comum que os indivíduos retivessem as moedas recém cunhadas (portanto com os teores corretos de metais preciosos em suas ligas), utilizando-as, posteriormente, para fundir em barras e entesourá-las ou enviá-las para o exterior, enquanto que a moeda gasta e danificada era mantida em circulação. Precisamente como preconiza a Lei de Gresham: a moeda ruim acaba por tirar a moeda boa de circulação.

O curioso é que o governo não expandiu a oferta monetária por meio de um sistema de reservas fracionárias, que é o método mais comum hoje em dia. Os holandeses tinham uma política monetária baseada em 100% de lastro. Por ser um sólido centro financeiro e ter grande entrada de moedas e barras de metais preciosos, Amsterdã acabava atraindo mais moedas e mais barras (muito do ouro e prata encontrados no novo mundo iam para a Holanda), num ciclo que se retroalimentava. Como os bancos tinham a obrigação de converter a maior parte, senão todo, dos metais preciosos recebidos em moedas, a consequência foi um aumento na oferta monetária, na década de 1630, acima do que o mercado demandava.

Então o preço das tulipas não foi só uma maluquice inventada por uns caras com bigodes exóticos, tampouco foi a causa do desastre, mas sim um dos sintomas da verdadeira causa. O rali do preço dos bulbos foi propiciado por uma política governamental que permitiu um expressivo aumento na quantidade de dinheiro na economia, criando um ambiente propício para o mau investimento.

Dissecando as Bolhas

Enquanto escrevo estas linhas o preço do Bitcoin está circundando seu máximo histórico, na casa dos 8 mil dólares, e, lógico, há muita gente alertando (alguns até torcendo, eu diria) sobre o “risco desta bolha estourar a qualquer momento”. Um pouco de calma nesta hora convém tanto aos entusiastas (grupo no qual me incluo) quanto aos detratores (tipo o Samy Dana e até algumas pessoas sérias).

É impossível fazer uma análise fundamentalista do Bitcoin para termos uma fotografia nos moldes mais tradicionais do mercado financeiro, pois não há fluxo de caixa. Até maio de 2010, o Bitcoin não possuía sequer um preço. Em 2010, chegou aos 30 dólares para, em seguida, despencar a 9. Em 2013, chegou a valer 1100 dólares caindo, vertiginosamente, para os 100, em seguida. Daí até meados de 2015, o preço da moeda foi se apreciando de maneira mais moderada e, desde então, toda vez que o Warren Buffet diz que é uma bolha o valor sobe. Em 2017, estamos vivenciando um momento ímpar na história da criptomoeda, começou o ano próximo aos 1000 dólares e hoje experimenta os 8000.

Mas há fatores que expliquem esta subida quase que vertical? O grande problema das bolhas é que é virtualmente impossível sabermos as duas únicas coisas que precisam ser sabidas sobre elas: qual o limite e quando vai estourar.

Assim, podemos observar alguns aspectos (válidos para praticamente qualquer ativo) que nos ajudem a olhar para uma fotografia mais ampla. Elencarei aqui 5 deles, como sugerido pelo professor Vikram Mansharamani em seu livro “Boombustology: Spotting Financial Bubbles Before They Burst”.

O Aspecto Microeconômico: Em geral a relação entre preço e demanda é inversa, ou seja, quando o preço de um ativo sobe, a demanda por ele tende a diminuir. Quando esta relação não é observada é preciso buscar fatores adicionais ao histórico do ativo — uma notícia, uma funcionalidade nova, um aprimoramento, maior divulgação, etc, coisas que podem ser observadas na evolução do Bitcoin — , mas em geral é uma luz amarela para os investidores. Então nesse aspecto, pode haver um enquadramento (fraco) do Bitcoin no risco de bolha. 1x0.

O Aspecto Macroeconômico: Negociações alavancadas geram um grande risco sistêmico. No mercado do Bitcoin ainda é irrelevante o volume de trades feitos com alavancagem, onde o indivíduo pode negociar 5, 100, 500 vezes ou mais Bitcoins para cada um que ele tiver disponível em conta, gerando assim, um risco de margem enorme. Mas, o principal fator macroeconômico que tem ajudado o Bitcoin a se valorizar é a ação dos bancos centrais, os “guardiões das moedas”, mundo afora. O FED até 2015 fez várias rodadas de quantitative easing, o BCE, o BoJ e outros têm igualmente depreciado as moedas de seus respectivos países e a deterioração do valor das moedas fiat ante um ativo cuja oferta é inelástica irá, naturalmente, fazer com que o segundo se valorize. Então por este aspecto não há bolha. 1x1.

O Aspecto Psicológico: O caráter disruptivo e inovador do Bitcoin inspira muito daquele sentimento de “desta vez é diferente”, o que é, sim, um risco. Muitos incautos serão atraídos e comprarão a criptomoeda influenciados por esse viés. Aqui há, portanto, um sinal de bolha. 2x1.

O Aspecto Político: Políticas públicas orientadas a estimular um setor em especial tendem a gerar distorções no setor, bem como fomentar a especulação. No caso do Bitcoin o que vemos é praticamente o oposto, os governos têm tentado dificultar a utilização de moedas digitais, países como a Bolívia até criminalizaram o Bitcoin. Outro ponto importante na análise desse aspecto, é o chamado Risco Moral, ou seja, quando os agentes envolvidos em um setor podem contar com garantias de resgate por parte de órgãos estatais, como ocoreu com os bancos que foram resgatados pelo FED após a crise 2008. No mercado de Bitcoin não há uma entidade que vá salvar investidores que tiverem perdas, vide o caso da MtGox, isso certamente ajuda a afastar muitos investidores temerosos. No bubble here. 2x2.

O Aspecto Epidemiológico: Quando há uma parcela muito alta da população, incluindo pessoas que normalmente não investem, investindo em um ativo em especial (em bulbos digamos…), é possível que o cenário seja de bolha. Esse aspecto, por vezes está ligado ao macroeconômico, pois é nesse ponto em que pessoas começam hipotecar suas casas e a pegar empréstimos para investir, fazendo com que o risco de mercado seja muito mais alto. Embora nos últimos meses o interesse por Bitcoin tenha crescido bastante, gerando inclusive matérias fora da mídia especializada em finanças e alcançando leitores menos familiarizados com o mundo dos investimentos, ainda assim, o mercado de Bitcoin é muito pequeno. Seja por market share, seja por valor de mercado ou pela quantidade em circulação, o mercado de criptos representa uma fração muito pequena do total de dinheiro transacionado no mundo. Por esta ótica é possível dizer então que não há bolha. 2x3.

Sob esses parâmetros podemos dizer que o Bitcoin não está num momento de bolha, o que não significa que no futuro ele continuará não estando. E, se fizermos a mesma análise para a mania das tulipas, é possível identificar seu enquadramento em, pelo menos, quatro dos cinco aspectos abordados aqui.

Bem, este artigo não tem a pretensão de ser a batida do martelo sobre ser bolha ou não (E MUITO MENOS UMA RECOMENDAÇÃO DE INVESTIMENTO), mas sim, buscar algumas ferramentas que nos ajudem a ter uma visão mais clara e metódica deste mercado apaixonante que está ainda dando seus primeiros passos. Eu, particularmente, não acho que o preço do Bitcoin tenha toda a importância que lhe é dada no momento, uma vez que se o leitor se aprofundar na tecnologia por trás dele e vislumbrar suas possibilidades, o preço passa a ser apenas um bônus. Talvez o preço esteja caro agora e possa ser corrigido em breve, mas isso por si só não caracteriza uma bolha, ou talvez esteja muito barato em relação ao seu potencial para o futuro.

Um único risco é muito arriscado

Aos que procuram bolhas talvez valha a pena observar também outros mercados, como os imobiliários de Londres, Austrália e Hong Kong, onde as relações entre empréstimos e renda estão muito acima da média histórica ou mesmo para o mercado financeiro tradicional, nos setores que foram extremamente beneficiados pelo aumento de liquidez proporcionado por inúmeros QE’s, achatando yields e fazendo bolsas experimentarem aumentos extraordinários de valor, porém com o faturamento das empresas ficando essencialmente igual. Nunca aposte em um único Cisne Negro ;).

Public domain.

Like what you read? Give Marcelo Alves a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.