Reprodução: detalhe do cartaz de “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla

Narrativa paralela: o papel do som em “O Bandido da Luz Vermelha”

O caos da sonoplastia reforça a ideia de “terceiro mundismo”, possibilitando a criação de uma “segunda narrativa”

Marcelo Bolzan Lana
Feb 8, 2018 · 6 min read

Criado numa época em que o Cinema Marginal despontou como uma nova proposta cinematográfica no Brasil (nas décadas de 60 e 70), o filme O Bandido da Luz Vermelha é uma obra-prima do diretor Rogério Sganzerla. O mérito desse clássico não fica restrito somente à ousadia do roteiro ou às polêmicas que o filme aborda, mas sobretudo, aos interessantes elementos utilizados pelo diretor para reforçar a violência e o “terceiro mundismo” da trama. Ou ainda, pelo recurso do áudio, que possibilitou ao longa uma “segunda narrativa”, não sendo o som apenas um acompanhamento simétrico das imagens, mas um elemento a mais dentro da obra.

O filme, do ano de 1968, traz consigo as características do Cinema Marginal: angulações impróprias, baixo orçamento, narrativa dinâmica (diferente do modelo hollywoodiano disseminado) e fotografia ousada (completamente fora da beleza estética que o cinema convencional se utiliza). A tentativa era representar uma realidade caótica e, ainda, servir como uma forma de protesto e expressão artística. Grandes cineastas surgiram nessa época, entre eles, Glauber Rocha, Neville D’Almeida e Ivan Cândido.

O Bandido da Luz Vermelha conta a história do famoso mascarado que atacava casas e mulheres da classe média-alta de São Paulo. Os crimes da vida noturna, a prostituição em massa, os gangsters, a violência da periferia da Boca do Lixo de São Paulo e a corrupção dos políticos são representados no filme pela visão de Rogério Sganzerla e pelas possibilidades do Cinema Marginal. Um verdadeiro retrato do caos de uma época, reforçado pela montagem que quebra a linearidade da narrativa.

Reprodução: cena de O Bandido da Luz Vermelha

O papel dos efeitos (e defeitos) sonoros

É interessante observar que a narrativa “atípica” de O Bandido da Luz Vermelha também é possível graças à importância dada ao áudio durante a montagem do filme. Assim como as imagens, que são inseridas de ordem aleatória, o som “quebra” a narrativa e dá ao áudio um novo papel dentro do cinema de Rogério Sganzerla.

Os filmes feitos na época eram dublados posteriormente. O resultado disso são cenas em que as falas não estão sincronizadas com os movimentos dos atores. Rogério Sganzerla, provavelmente, ficou satisfeito com essa falta de sincronia. O problema do som não condizer com a imagem, apesar de sugerir uma falha técnica, pode ser interpretado como um elemento simbólico do filme, tanto para o público, quanto para o diretor.

No início do longa, a frase “Quem sou eu?”, uma fala em off dita pela personagem Jorge (Paulo Villaça), o Bandido da Luz Vermelha, é repetida outras vezes no desenrolar da história. A frase resume a ideia de que o bandido Luz seja uma vítima do seu mundo suburbano e violento. As falas em off , em alguns trechos de O Bandido da Luz Vermelha, são os fluxos de consciência do Bandido Mascarado e de outras personagens, como Janete Jane (Helena Ignês), o delegado Cabeção (Luiz Linhares) ou o político corrupto J.B. da Silva (Pagano Sobrinho).

“O som tem a ambivalência de produzir ordem e desordem, vida e morte (o ruído é destruidor, invasivo, terrível, ameaçador e dele se extraem harmonias balsâmicas, exaltantes, extáticas).” | José Miguel Wisnik

Reprodução: cena de O Bandido da Luz Vermelha

Vozes do terceiro-mundo

Várias mídias são representadas em O Bandido da Luz Vermelha. O jornal impresso, os cartazes e os letreiros luminosos com as principais manchetes intercalam as aventuras do Bandido Luz com outros fatos da época. O que mais se destaca é o rádio. Dois locutores anunciam manchetes, traçam o perfil psicológico do protagonista e descrevem, com sarcasmo, o retrato de um terceiro mundo perto de “explodir”. Os narradores são uma sátira aos programas policiais da imprensa sensacionalista.

Hélio de Aguiar e Mara Duval são os narradores do filme. O texto que eles narram é pontuado e dividido de uma maneira curiosa. Às vezes, a voz masculina faz uma grande passagem, enquanto a voz feminina diz apenas uma palavra para enfatizar a tal citação do locutor. Tal efeito dá ritmo ao filme, ao mesmo tempo em que credita um aspecto cafona à narrativa, o que se encaixa com a proposta do Cinema Marginal de “empobrecer” e poluir os elementos das histórias.

Os narradores, apresentadores de um programa sensacionalista de rádio, informam notícias chocantes de uma época que “exalava odores” do terceiro mundo. Noticiavam os crimes e a marginalidade da Boca do Lixo, a desordem geral espalhada pelo país e, até mesmo, misteriosos objetos voadores que sobrevoavam as cidades, assustando a todos com as luzes avermelhadas. A mesma cor da luz da lanterna usada pelo bandido Luz ao cometer, de maneira premeditada e requintadas, seus crimes na noite paulista.

Orson Welles: ruídos e sensacionalismo para “noticiar” a invasão alienígena de “A Guerra dos Mundos” em 1938 (foto via The Wand’ Rin’ Star)

Orson Welles da Boca do Lixo

O sensacionalismo das notícias narradas transformam os repórteres de rádio de O Bandido da Luz Vermelha em espécies de “Orson Welles da Boca do Lixo”. A adaptação da ficção científica A Guerra dos Mundos, do escritor H.G. Wells, para a rádio Columbia Broadcasting Pictures mexeu com a população americana em outubro de 1938. Welles representou no rádio uma invasão de marcianos ao planeta Terra e conseguiu provar, através de sons e ruídos, a capacidade e o poder deste meio de comunicação. A notícia da invasão de alienígenas virou manchete no mundo todo.

O que aproxima os narradores de O Bandido da Luz Vermelha com o caso de Orson Welles não é apenas o fato de as duas histórias relatarem a (falsa) aproximação de extraterrestres ao planeta Terra, mas a relação que o som consegue com os receptores. O recurso do áudio é de grande importância para ler toda a complexidade e toda desordem estética intencionada pelo diretor Rogério Sganzerla.

O Som “É” o Sentido

A proposta do filme O Bandido da Luz Vermelha era passar o caos, a desordem. Traduzir esse ideal em imagens é produzir ângulos ousados, fotografia distorcida, com pouco iluminação e uma montagem que “retalha” as sequências. Essa estética “poluída” pode ser comparada àquilo que o ruído representa para o som.

Ao fazer uma metáfora da fotografia e da edição do filme de Rogério Sganzerla com o ruído, reforça-se ainda mais a importância que o áudio tem em O Bandido da Luz Vermelha. Esse ruído pode ser lido como um aspecto que compõe e desconstrói a narrativa em questão. No capítulo “Antropologia do Ruído”, do livro O Som e o sentido, José Miguel Wisnik explica a relação do som e do ruído como um fator que serve para emitir novas mensagens.

“Essa definição de ruído como desordenação interferente ganha um caráter mais complexo em se tratando de arte, em que se torna um elemento virtualmente criativo, desorganizador de mensagens/códigos cristalizados e provocador de novas mensagens”. (Wisnik, 1999, p.33)

Reprodução: cena de O Bandido da Luz Vermelha (via blog “Cineclube Glauber Rocha)

Rogério Sganzerla não se utilizou dos ruídos em si, ou seja, de sons “ilegíveis”. Mas ao entender o ruído descrito por Wisnik como resultado de vários sons padrões interferindo sobre o outro, entende-se que a edição do áudio em O Bandido da Luz Vermelha é tão“suja” quanto as imagens.

Às vezes, o som se torna inaudível (áudio muito baixo) ou há fusão de vários sons (como, por exemplo, quando os narradores sensacionalistas “berram” as manchetes ao mesmo tempo), além da falta de sincronia entre a fala e a atuação dos atores. Há ainda a cena final, onde vários sons são fundidos: os narradores, as vozes de alguns personagens, uma música de candomblé, explosões e sons do disco voador que o jornal sensacionalista anunciava. Uma miscelânea de vozes e barulhos que se transformam no ruído.

O ruído é o som que completa a assimetria da fotografia e da montagem de O Bandido da Luz Vermelha, refletindo o caos da Boca do Lixo e de seus personagens: bandidos, traficantes, corruptos, gangsters, prostitutas, estupradores e marginais. Personagens que transitam na atmosfera “preto&branco com ruídos” da obra de Rogério Sganzerla. Na voz do locutor: “eles não pertencem ao mundo, mas ao terceiro mundo!”.

Reprodução: poster do filme de Rogério Sganzerla

Marcelo Bolzan Lana

Written by

“Distraídos venceremos”. Jornalista, mineiro e pai da Alice. bolzan.marcelo@gmail.com

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade