Cacarecos Perdidos

O suor escorre na testa, respiro fundo para não entrar em pânico. Sentado no batente de uma calçada qualquer, debaixo do sol quente, tento me lembrar do caminho que leva ao Calçadão, onde vou nos fins de semana pra conversar com velhos amigos, jogar buraco, tomar uma cervejinha. Eu percorro esse trajeto há mais de trinta anos, e agora esqueci completamente como chegar ao destino, não sei se viro à direita ou à esquerda. Estou perdido por causa do temido e até, no meu caso, esperado Alzheimer.

Meu pai morreu com Alzheimer, assim como o pai dele. Lembro-me bem da evolução da doença do meu velho. Começou esquecendo caminhos familiares, como o do trabalho e da igreja. Logo estava esquecido da última refeição que havia feito. Em seguida, não se lembrava do meu rosto nem do rosto dos meus irmãos. Houve a fase em que estava preso a velhos hábitos de sua infância e adolescência, de quando precisava acordar cedo para arar o roçado, e tínhamos que convencê-lo de que ele não morava mais num sítio. Ele não nos dava crédito porque já não nos conhecia e ficava paralisado no quintal de casa, vendo o movimento dos carros, sem entender em que lugar estava. Era de cortar o coração ver seus olhos azuis se encherem de lágrimas, olhando para a rua estranha, para todas as pessoas desconhecidas que o rodeavam, sentindo-se tão só.

Então deixou de tomar os cuidados pessoais básicos, voltou a ser um bebê. Dávamos comida na sua boca, trocávamos suas fraldas, banhávamos seu corpo. Não demorou para que ele perdesse os movimentos e tivesse de ser alimentado por uma sonda, abrindo os olhos raramente, sem esboçar reações ou sentimentos. Ali já não havia mais vestígios de meu pai, tenho pra mim que foi o momento em que ele esteve vivo, porém morto. Porque somos o que lembramos e aprendemos. Cada um de nós tem uma mala com vários cacarecos guardados que encontramos durante a vida e juntamos porque os consideramos importantes ou não conseguimos nos livrar deles. Somos, portanto, o conjunto de cacarecos, não a mala. Se perdi todos os cacarecos que guardei, se não me lembro do que fiz, quem sou, de quem amo, do que gosto ou detesto, esse não sou mais eu, restou apenas a mala vazia. Eu deixei de existir e virei um corpo sem passado, sem presente, sem sentido.

Esta foi a primeira crise que tive e não preciso que um médico me dê diagnóstico. Algumas vezes a hereditariedade atua como uma maldição, o mal agouro que hibernava dentro de mim acaba de acordar e colocar a cabeça pra fora da toca. Tenho que planejar o que farei comigo enquanto eu ainda sou eu, enquanto ainda há tempo. Tenho que dizer a Armínia, minha esposa, que ela foi a mulher mais foda que já passou pelos meus braços. Porque dizer a uma mulher que ela foi a mais foda de todas é o melhor elogio que se pode dar, e, no caso de Armínia, é verdade. Tenho que beijar a cara de Bruno e Augusto, meus filhos, todos os dias, do jeito que faço com minha filha Patrícia. Que distância física mais besta essa dos homens da família, isso tem que mudar hoje, vou beijar a cara dos dois, mesmo que eles me empurrem e reclamem.

Tenho tantas mudanças a fazer, sei que meu tempo é curto, devo começar logo. Mas primeiro preciso lembrar o caminho de volta pra casa.


O texto acima pertence ao Projeto Sementes e é resultado de um exercício de criatividade. Pedi que Anahi De Castro Barbosa me sugerisse um tema ou uma cena e, com base na sugestão, escrevi o conto.

Anahi enviou a seguinte colaboração: “Mesmo que o mundo fique de cabeça para baixo, você vai transformar as coisas em algo bonito se você quiser viver poesia”

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