Mormaço

Abro os olhos e sinto o mormaço da brutal realidade. Encho os pulmões, solto o ar devagar; minha mente se reorganiza e logo me lembro de quem sou, do que fiz, do que deixei de fazer. São memórias que trazem à alma um gosto rançoso, provocam-lhe espasmos de repugnância. Eu continuaria deitada na cama pelo resto do dia, não fosse a vontade irresistível de ir à cozinha e virar o uísque que sobrou na garrafa.

Venho tendo um sonho recorrente no qual entro em um salão branco, cheio de pessoas vestidas de preto, e observo um caixão fechado ao centro. Todas as pessoas me encaram em muda reprovação, lançam dardos acusatórios pelas pupilas; elas me odeiam, anunciam com suas faces rígidas que não sou bem vinda ali, porém sigo decidida em direção ao caixão. Aliso a madeira envernizada do tapume, seguro a alça, levanto a tampa, vejo. Com os dedos das mãos entrecruzados, a pele branca meio esverdeada, a boca roxa, Melissa está morta, de olhos abertos, olhando para mim.

Melissa me acorda, tenta me acalmar. Mostra, com o sorriso, todos os dentes pequeninos que até parecem dentes de leite. Conto sobre o pesadelo mórbido, ela afeta surpresa; em seguida, gargalha divertida, dizendo que está muito viva, está viva demais, será que eu não enxergo? Provoca-me, mordisca meu pescoço, meus seios, como uma menina travessa; começamos a nos beijar, lambo o seu corpo, a luz do sol irradia forte pela janela, é uma manhã limpa, feliz, erótica.

É nesse êxtase que desperto de fato. Lembro que Melissa está morta mesmo, que brigamos alguns dias antes de sua morte, que deixei de responder a suas mensagens e de atender a seus telefonemas para castigá-la, que eu costumava castigá-la desta forma para manter meu domínio sobre nossa relação, que esse meu comportamento era de uma canalhice sem tamanho. Eu a amava e não tem como voltar para consertar. Lembro-me do irmão de Melissa contando como ela havia se matado, do corpo branco esverdeado de Melissa, de sua boca roxa. Lembro-me do uísque na cozinha.

Antes de entornar a garrafa, ponho um comprimido de Diazepan na boca porque quero voltar a dormir. Quero ver Melissa morta novamente, quero imaginar ter acordado e ouvi-la dizer que está viva, que tudo não passou de um pesadelo terrível. Quero fazer amor com ela em sonhos, como se tudo estivesse bem.


O texto acima pertence ao Projeto Sementes e é resultado de um exercício de criatividade. Pedi que Amurabi Oliveira me sugerisse um tema ou uma cena e, com base na sugestão, escrevi o conto.

Amurabi enviou a seguinte colaboração: Acordar de um sonho e estar dentro de outro sonho

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