Quem não tem nada, tem ao vento

Esboço de um caminho através da escrita

The Beguiling of Merlin, de Edward Burne Jones

Um delírio consciente. Eu quero chamar assim. O Sol esquentou minha caneta de tinta vermelha enquanto eu caminhava pela cidade depois de um temporal. Galhos caídos, clínicas e universidades fechadas. Escrever sobre isso requer eu me conecte com você. Normalmente solitário, ou achando que está, como se guardasse um segredo. Assim estou aqui, agora. Foi o seguinte:

No caminho parei meu caminho, depois de não ter aonde ir, para querer voltar e tentar contato com uma moça que eu já vira na rua, dormindo ou enrolada em trapos. Parei na praça, como as vezes paro: “Será que tudo me interessa? […] “Letras demais, tudo mentindo”[1]. Isso é demais! Ou isso é o de menos. Ela estava escrevendo e sacolas faziam barricadas ao seu redor, em um canto no Centro da cidade. Eu passei e só depois parei. Parei para pensar nesse meu lugar de capturas de experiências: preocupado com meu lugar de captura de experiências. Estaria eu pedindo - sob a imposição do estereótipo cigano à ela, que as vezes recai em mim - uma palavra sobre o destino? Se ela estava escrevendo, estava de encontro consigo mesma. Escrevendo consigo mesma.

Ela escrevia sobre as mesmas palavras. Pude ver quando estava de pé, enfim, ao seu lado, esperando notar o meu “Oi, tudo bem? Precisa de alguma coisa?” E meu olhar clínico e observador, que agora dói, escaneava suas coisas: sacos com latas, a pele lisa e uma deliberada e aparente mínima atenção no que eu propunha. Não insisti, pensando até que não me ouvia, em surdez ou desconhecimento da língua. Ela escrevia, destacando o que tinha escrito em uma tipografia artística. E eu, quando vi, tinha aberto a bolsa e apanhado uma caneta, também na ânsia de fazer o mesmo ou, inclusive, de ameçar com as mesmas armas. Mas procurei um papel, a fim de dar o endereço de onde eu estaria no próximo dia. Só vislumbrei o caderno onde escrevo agora, tão meu para arancar-lhe pedaços! Também não adiantaria: eu não sabia o endereço. O que escreveria? Meu nome que nada importa, que não sou daqui e poucos conhecem? Ou “Psicologia”, como um cartão caridoso supondo ser isso o que ela precisava?

Foi então que ela disse: “Não preciso de nada. Estou bem. Não se preocupe”. Me olhou e o discurso parecia ensaiado. Das outras vezes que o disse, ou de ter prestado atenção no que eu perguntara; Ou só para me fazer sair dali. “Estou procurando meu namorado”, ela disse. Então deixei, como se em relações amorosas houvesse sempre uma redoma de vidro, impenetrável de tão frágil, mas que todos nós tentamos atravessar curiosos só para ver o que guarda. Informei o local e o momento em que eu estaria, incrédulo que não quisesse nada. Sempre queremos “tudo” e “agora”! Mas quem não tem nada, tem ao vento e, depois de uma tempestade, só quer paz. Vendo a cidade bagunçada e as pessoas de cabelo em pé, quer falar de amor para quem quer que seja e ter, mesmo que seja, o direito de dizer: “Não”.

[1] Música: O Nome da Cidade. Artista: Maria Bethânia. Álbum: A Beira e o Mar (2006)

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