E se Neymar fosse de esquerda?
O menino que poderia ser menino, cuidando de outros meninos
O menino driblador do esporte que imita a vida, jogando no time dos franzinos, num país que passa fome, característica das secas, da barriga de verme, um rosto fino, pela parda, negro, talvez indígena, de Santos, do time de Pelé. O maior de todos. Que fez o milésimo gol pedindo pelas criancinhas. Pedindo por Neymar. Pedindo pelos meninos que andam por aí sem camisa e com latinha de refrigerante com cola dentro. Pedindo pelo futuro de um país. Fez até canção pra toda criança ler e escrever.
Neymar encara o profissionalismo desde menino, nas garras de empresários e empreiteiros, aproveitadores e amigos de infância, é a bola da vez, o salvador da casa, do bairro, da vila, do clube. Seu desafio é o esporte que desafia a vida. Por aqui todos querem ser jogadores de futebol, pra salvar a família, pra fugir do crime, fugir da fome, fugir da mortalidade infantil, fugir de levar um tiro na cara, fugir de ser confundido com traficante, fugir da mãe chorando que não tem mais leite. Fugir não, driblar, fintar, gingar, como todo menino sabe. Muitos especialistas atribuem a falta de criatividade do futebol atual com o fim do futebol de rua, meninos de condomínio não tem essa habilidade. Não são acostumados a driblar a fome, aos 15 estão estudando, podem até pensar em ser outra coisa, médico ou advogado, fazer técnico em administração ou enfermagem, fato raro nas gerações passadas, onde o único meio de sair de uma vida de Brasil real, é ser jogador de futebol ou músico. É disso que depende toda uma geração.
O funil é estreito, e os meninos correm, se protegem como podem. Agilidade, velocidade, pontaria, gostar ou não de futebol não é uma opção, muitas vezes é pegar o sonho do pai, o sonho do avô. Cair e levantar do chão de barro que é o Brasil.
Quando um garoto chega lá. Ele nunca está sozinho. Representa sua família, sua geração. Representa um país que passa fome. É cobrado postura, é cobrado educação, é cobrado ser decisivo. Coisa que nunca foi dada. Cobram educação financeira. “olha lá, vai comprar carro, mansão” é cobrado posições.
Neymar chegou lá. Talvez tenha chegado cedo. Pegou a caminhada no caminho, caminho de muitos, são meninos ainda, que só querem jogar futebol pra esquecer os problemas, só querem comprar um vídeo-game e ter o direito de fazer pirraça. Não querem ter obrigação de dar certo. Vai ver queriam ser criança. Jogar futebol é pra ter o que comer. E são quantos Neymars que jogam por 50 reais por jogo?
Neymar é simpático com meninos. Brinca com eles. Poderia fazer canções como fez o Rei Pelé. Dirão que não sabe o que diz. Que calado é um poeta. Neymar não pode chutar errado. Mas é humano errar, chutar pra fora e jogar errado. E ele chuta, como muitos meninos, com bem menos câmeras. Pra fora.
Dentro de campo ele encanta. Joga pela esquerda. É o típico brasileiro. Dribla o poder da força e do sistema rígido. Fora de campo não sabe o que fazer. Não quer fazer mais nada. Azar nosso.
Aquele menino que teve chance de estudar fora, aquele classe média com algum acesso, aquele menino do condomínio que já não sente fome, uma geração que foi beneficiada por algumas políticas de esquerda, que fez Prouni, pegou um Ciências sem Fronteiras, poderia ser doutor, joga bola e estuda, teve uma presidenta. Neymar é fruto da geração com internet, danone, aeroporto virando rodoviária. Não enfrentou ditadores. Não driblou censores. Pegou uma estrada já pavimentada nesse sentido.
Os tempos tomam outros rumos. Parece que estão dando só o futebol para os meninos novamente. O país da educação nunca foi, só pode ser o país do futebol. Que sangra.
Muita gente não está mais conseguindo driblar, já cansou, vocês sabem, carreira de jogador é curta. Os meninos estão se aposentando e nem todos moram no condomínio de Neymar, nem todos vão ter o que fazer, vão ser parados pelo futebol. E não vão ter outra opção. Vão virar entregadores de aplicativos precários ou sei lá. E se existe essa coisa de talento, existe responsabilidade, essa ideia americana individual não combina com o Brasil, aqui é o país do puxadinho, da cerveja de garrafa, do futebol de rua, essa rancor é coisa deles. E a gente só cobra quem tem potencial. Ele poderia ser o melhor do mundo, poderia ser o melhor do país, poderia ser contra o fascismo, poderia levantar a bandeira de todos os outros Neys, poderia dar ainda mais alegria para seu povo.

