Escrever “textão” em tempos que só leem as chamadas é um ato de resistência

Os títulos são cada vez maiores e o conteúdo cada vez menor.

É visível, talvez irreversível, reflexo de tempos onde não se pode “perder tempo”, pressão por saber tudo, reduzindo as informações em títulos e subtítulos, quando precisam de acessos, faz-se um título misterioso, com conteúdo curtinho de preferência.

As modas estão aí, tendências, empresas de conteúdo e agências de propaganda se especializando nessa superficialidade, “especialistas” em fazer listas e posts engraçados. Tudo é entretenimento, piadas com assuntos sérios, memes são um sucesso (nada contra memes, mas é impossível viver só de uma linguagem) e os livros esquecidos.

Diálogos nivelados por baixo tornam pseudo intelectuais de internet em autoridades em assuntos relevantes. A necessidade de saber gira em torno dos mesmos assuntos. Nos acostumaram com o mesmo formato, fugir disso é perder audiência. Para propaganda é isso que importa. Os meios de informação e dialogo não podem virar só propaganda e entretenimento.

Textão é uma palavra relativa, não sou adepto dessa palavra, pois textão pra mim é no sentido de bom. Bonitão, fodão. Independente do tamanho. Existem grandes escritos com poucas palavras, porém são mais difíceis, exigem muito de escritor. Escrever curto com qualidade é difícil pra caralho. O que vejo sendo produzido são poucas palavras com quase nenhum sentido.

Lembro de ler romances de 400 páginas, textos antigos, contos com 10 páginas e matérias com 4 páginas. Hoje são raros, até pra quem gosta de leitura encarar um desses textões.

O mercado dita as regras de como comemos, nos vestimos e tudo mais, é muito triste ver como ele domina até o tamanho dos textos que escrevemos. Prevejo romances escritos com 20 páginas.

Por ora, escrever é um ato de resistência.