O racismo à esquerda

A hegemonia branca nos espaços de militância é histórica — e não há a menor intenção no sentido de mudar isso

O racismo, parte fundamental na constituição da identidade brasileira, nos violenta de várias formas: direta e imediatamente, em ações explícitas, xingamentos, agressões e apontamentos; ou de forma velada e sistemática, seja nas chances que nos são negadas ou nas violências econômica e policial que contra nós são cometidas. Tais diferenças, no entanto, pouco importam: tudo isso é estrutural - logo, morremos em todas elas.

E para boa parte da esquerda, nossa luta é secundária; nossas dores, relativizadas; nossa ancestralidade, fetichizada. A esquerda branca trata como exotismo desde nossa religião (lembram da “Mãe Prix", branca fantasiada de mãe-de-santo num carnaval do Rio anos atrás?) até nossa música, o funk e o rap que o digam - e sim, o tom jocoso com que sambas-enredo clássicos e pagodes "noventistas" são cantados também entram nessa equação, na condição de gêneros oriundos de camadas populares elevados à condição de "cult" por quem frequenta espaços de classe média/alta.

Além disso, a esquerda não tem como prática ouvir o que pessoas pretas e pobres têm a dizer, pois não fala nossa língua, não tem ideia de nossos passos nem reconhece nossos traumas e tragédias. De que adiantam atos que fecham ruas esporadicamente, se no dia-a-dia não tem ninguém construindo junto? Como entender, ou ser entendido, com toda essa distância? Como angariar votos a cada dois anos se as pontes necessárias a esse diálogo não conseguem ser mantidas por mais de dois meses?

Como classificar como positiva uma esquerda que é capaz de puxar uma tal “greve geral de mulheres” (seja lá o que isso signifique), ou convocar para um ato #foratemer (pior, #foratodos), ou ainda chamar para um debate interminável sobre turbantes, se essa mesma esquerda não é capaz de abordar de maneira firme, por exemplo, a morte de João Victor, 13 anos, após ser juntado por seguranças de uma unidade do Habib’s em São Paulo?

Como a esquerda está se organizando depois da morte de Maria Eduarda, 13, que levou três tiros dentro de uma escola em Acari? Que coletivos de esquerda deram visibilidade ao caso de Hosana de Oliveira, também de Acari , também aos 13 anos e também baleada e morta, apenas cinco dias depois que Maria?

E Rafael Braga?

Rafael foi preso em 2013 por portar um frasco de desinfetante numa manifestação no centro do Rio da qual sequer participava. Em dezembro de 2015, passou a cumprir prisão domiciliar, mas esta durou pouco mais de um mês porque, em janeiro de 2016, após um flagrante forjado por policiais militares, Rafael voltou ao regime fechado, onde está até hoje. Uma tragédia absurda.

Desde que foi preso, Rafael volta à pauta de organizações de esquerda apenas quando nenhuma outra está sendo tocada. Crianças, jovens, adultos e idosos morrem baleados em favelas e não há, nos partidos e coletivos de esquerda, nenhuma mobilização sólida e permanente por suas famílias ou pela comunidade que tenha sofrido essa violência. Moradores de favelas têm suas casas invadidas pela polícia e pela Justiça via "mandado de busca coletivo" (ou nem isso) e tudo o que se vê é a manifestação de um ou outro militante que, isoladamente, tenta puxar algo em grupo - em vão.

É foda dar esse papo, mas essas são crianças mortas a tiros e pessoas pretas massacradas e presas que a direita celebra, e a esquerda, de modo geral, não percebe. A invisibilidade racial transcende qualquer posicionamento político. São duas faces de uma mesma moeda.

A sociedade buscou, durante décadas, isolar a favela do resto da cidade. A Academia, historicamente isolada de tudo, e trincheira secular da esquerda branca, tem ainda mais dificuldade de entender o cotidiano de quem mora do túnel pra cá da cidade — aqui na Baixada, então, nem se fala.

Resumindo: grande parte da esquerda nos ignora.

E ignorar também é racismo.