Imagem de arco-íris registrado no Parque Cesamar (Foto: Alberico Sousa Rocha)

Arco Íris

O arco íris é um fenômeno da natureza que transborda a si mesmo, sendo percebido e interagido pelas civilizações ao longo de relações imemoriais. Segundo tradição xintoísta, as cores no céu é imaginado como uma ponte ou um caminho por onde os mortos podem atingir o Além; seguindo a mesma linha transmigratória, na mitologia nórdica, o arco celeste é conhecido pelo nome de Bifrost, que pode ser traduzido como caminho cintilante e seu guardião é a divindade Heimdall, que possui dentes de ouro e foi parido por nove mães. Para os antigos árabes, o arco íris é a representação do deus Quzah, força das tempestades que manuseava o arco para lançar suas flechas de granizo em seu combate contra outras divindades. Ainda na antiguidade, só que na Grécia arcaica, onde os mitos tinham vigor e dimensionavam uma relação proximal entre divindades e humanos, o arco íris é mais que a personificação da deusa mensageira Íris, o que se vê cintilante no céu são filetes do traje maravilhoso da amiga dos humanos. Saindo dessa região mediterrânea, agora no plano da Eurásia alguns povos nessa imensidão territorial viam o fenômeno como uma serpente bissexuada, um ativo sexual, criativo e vital. No extremo da Ásia, em particular na China antiga esse símbolo multifacetado representava a união entre Yin e Yang, conceitos que fundamentam o taoismo na exposição da dualidade de tudo que existe no universo, são as forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas. Na tradição bíblica o arco íris também tem presença marcante, tanto que ele é o sinal da aliança que o deus dos hebreus colocou no firmamento após o dilúvio, essa narrativa está no livro de Gênesis, 9, 12–16. O livro do profeta Ezequiel 1, 28 e também o Apocalipse 4, 3 relatam o arco cintilante como pertencente ao trono do soberano dos mundos e se configura enquanto penhor da graça e da misericórdia divina, é indicação da glória maior. São Basílio, o Grande, interpretou as sete cores do arco íris como dádivas do Espírito Santo e as três cores básicas como o símbolo da Trindade.

Em Palmas no Tocantins, em julho de 2018, a prefeitura enviou um projeto de lei para a Câmara de Vereadores pautando a criação de seis novas creches para atender a população da cidade. Conforme a Secretaria Municipal de Educação, o nome da creche Arco íris fora escolhido pela própria comunidade da Arse 102 (antiga 1.006 Sul). No entanto, a unidade teve o nome alterado a pedido do vereador Filipe Martins (PSC) por em sua visão “o grupo LGBTI tem usado bastante a bandeira do Arco íris. Eles usam como símbolo deles. Então para não ter uma bandeira fizemos a substituição, que é de direito do vereador. Já que essa bandeira tem apologia do homossexualismo e estaria dentro de um centro infantil, fizemos a alteração.”

Existe uma premissa política que diz que aqueles a quem é confiado uma representação devem mandar, obedecendo. Numa democracia quem manda é o povo. No caso em pauta, o vereador surge na cena como um destruidor do consenso firmado pela comunidade. Ao arrogar para si, poder maior que a deliberação cidadã, o parlamentar religioso surge como força desestabilizadora do processo participativo, arbitrariedade que rompe o pacto comunitário em nome de sua fé. Longe de ser um político no sentido estrito do termo, o vereador se protagoniza como um líder de grupo que tem como pauta a moral e os costumes alheios, não há grandeza no caminho, o que existe é cálculo para exclusão, esta, nasce do ódio. No fundo, a intenção do vereador é apagar referências de pessoas e comunidades que têm um modo de vida contra-majoritário. A linha de ação desses profissionais do púlpito/palanque é minar e combater a existência social e física de pessoas que nutrem uma sexualidade própria. São as bases do patriarcalismo, da política personalista e da ação antidemocrática. Em meu senso, enquanto opinião pública, identifico um abuso de autoridade política pelo vereador, uma vez que dissipa a decisão comunitária, nesse conflito; o que se esperaria numa democracia de fato seria a ponderação política da prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB) uma vez que se instalou um choque de interesses. Infelizmente, os atores políticos não agem em favor da cidade enquanto espaço de convivência plural e de interesses diversos. Unidos pela fé, Executiva e partes do Legislativo não enfrentam as raízes estruturais do preconceito e da exclusão social por questão de gênero. O mesmo patriarcalismo encenado pelo vereador do Partido Social Cristão é o lugar que coabita a força destruidora dos feminicídios que tem assolado as diversas formas de famílias.

Marcelo de Souza Cleto

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