O Segredo do Segredo de Joe Gould

Joe Gould, o famoso boêmio do Village dos anos 40, que convenceu o Joseph Mitchell de que ele teria escrito uma História Oral “de nossos tempos” — que era maior do que a Suma Teológica, ganhou uma biografia há menos de um ano. Jill Lepore, colunista do New York Times e historiadora, resolveu ir além do “segredo” do mais famoso biografado de Mitchell. No passado de Gould, ela descobriu que ele esteve envolvido em casos de assédio sexual e racismo.
 
 Joe Gould’s Teeth narra toda a trajetória do boêmio do Bowery antes do encontro com Joseph — desde sua descendência, oriundo de uma família rica da Nova Inglaterra, até seu ingresso em Harvard. Porém, quando o repórter da New Yorker travou conhecimento com ele, Joe não passava de um mero pedinte, transitando pelas ruas e bares do Village, mendigando desde pontas de cigarro até uma mísera refeição — em geral, um salgado empestado de vidros de ketchup.
 
 O que o diferenciava Gould dos demais milhares de mendigos de Manhattan é que ele era um ex-estudante de Harvard, um intelectual que estava interessando em escrever uma obra-prima, a História Oral. Foi justamente essa lenda por trás dele que atraiu Mitchell a fim de procurá-lo para um perfil para a revista. 
 
 O primeiro texto de Joseph, “O Professor Gaivota” (1942), consolidou a reputação do biografado. O segundo e derradeiro, “O segredo de Joe Gould” (1965), conta a história por trás da produção da matéria e o que aconteceu entre ambos a partir de então. 
 
 Ali, o jornalista revela que, um dia, conseguiu contato com um editor para publicar a tal História Oral (que Joe dizia ter escrito e deixado esboços com vários amigos. O editor insistiu que o ajudaria a recuperar todos os originais. Contudo, ele usou de uma surpreendente desculpa esfarrapada de que queria deixar o manuscrito “para ser publicado após sua morte”. 
 
 Aí Mitchell enfureceu-se. quando ficaram a sós, o repórter insinuou que ele, na verdade, não tinha escrito coisa alguma, só alguns ensaios subliterários sobre o “efeito do tomate nos americanos”, sobre índios do Dakota do Norte e coisas sobre seus pais. Para Joseph, o mais frustrante foi notar pelo menos duas coisas: ou Joe tinha ambição e não tinha talento, e sabia disso, ou tinha talento mas era um preguiçoso. “Não sou preguiçoso”, respondeu o notório boêmio. 
 
 O perplexo Gould não disse nada sobre a alada acusação, nem confirmou nem negou. Mitchell, que foi o seu avalista, logo depois sentiu remorso por ter acusado sua fonte. Com o tempo, procurou demonstrar que não se importava com o segredo (a inexistência da História Oral) que, para ele, ora diabos, seria bem para a máscara de Joe a fim de granjear sempre alguma recompensa da parte de seus amigos e entre as pessoas que passaram a admirá-lo e cortejá-lo a parir da repercussão do texto entre os leitores da revista.

Gould morreu gagá em 57 e Mitchell só contou o ‘segredo’ numa matéria antológica, também para a Yorker, mais de vinte anos depois da publicação da primeira matéria, que havia entronizado Gould, como o maior escritor subterrâneo das ruas do Village que jamais existiu e lenda viva do Bowery. O segredo era que, infelizmente, na verdade, ele não passava de uma farsa, embora ele, Joseph, tenha se identificado um pouco com o perfil procastinador de sua intrépida fonte de talvez ter, ele também, procastinado a sua obra-prima, já que ele, Mitchell, quando era jovem, também queria escrever ter a sua respectiva glória literária contado a história de um Ulisses de Manhattan, que nunca escreveu, e relegou sua obra-prima aos sonhos partidos da juventude.
 
 Jill Lepore vai além do mito criado ao redor dele, e além da própria mitologia consolidada pelos textos da New Yorker. Primeiro: ela sustenta que, depois de “O segredo”, muitos leitores alegaram que Joe teria realmente deixado material referente ao que seria a História Oral, além dos ensaios que Mitchell conheceu.
 
Segundo: Joe não era nenhum nefilibata. Ele chegou a trabalhar como jornalista e pesquisador quando jovem. Autista mal diagnosticado, depois de internado após desmaiar na rua, passou por eletrochoques e sofreu lobotomia em 1949. No começo dos anos 20, ele fez estudos sobre Darwinismo Social para o Laboratório Cold Spring Harbor. Para Jill, seu contato com os índios do meio oeste veio desse trabalho que, segundo ela, Joseph tratou apenas como se fosse uma passagem excêntrica na vida de Gould que, para ela, foi tocado pelo eugenismo típico da época, e que isso influenciou profundamente sua visão racial.
 
 Isso não o impediu de nutrir uma relação com a famosa escultora Augusta Savage. De acordo com Lepore, Joe a assediava de tal forma que ela foi obrigada a deixar Nova Iorque. Ela liga a relação maníaca de Joe com Mitchell que, depois da repercussão do perfil, não conseguiu livrar-se de sua fonte (até que o jornalista o desmascarasse, embora não publicamente). Ela também entende que enquanto seus amigos o idealizavam como um homem que sofria pela sua arte, na verdade, ele não passava de uma pessoa atormentada pela sua fúria e frustração. “Para mim, seu sofrimento não era nada romântico e seu ódio não era nada inofensivo”, diz. 
 
 No fim, de sua folclórica figura de bufão do perfil de 1942, ele decaiu para a farsa literária de “O Segredo” e, agora, para o quasímodo de Jill Lepore. Ela nota que muito do que serviu para a entronização de Gould nos meios literários da época foi o apoio e a amizade que ele travou com gente como Malcolm Crowley, e.e cummings e até mesmo Ezra Pound. 
 
 Jill entende que a forma de entender essa “lenda” reside no fato de que eles (e muitos outros) queriam ajudar aquele pobre diabo a sair de uma situação de irreversível invulnerabilidade social (de certa forma, quando Joseph arranjou um editor para a sua História Oral, não estava querendo nada mais do que isso: que Joe encarasse o livro como um desafio e uma forma de poder pelo menos viver de uma possível renda proveniente dos direitos autorais, salvando-o de acabar em ‘flophouses’).
 
 Por outro lado, ela também entende esse movimento como uma “conspiração literária” a fim de, na verdade, esconder a personalidade instável, selvagem e agressiva de Mr. Hyde-Gould em uma pessoa socialmente integrada e de ilibada reputação. No entanto, se a autora destrói o mito da personalidade do lendário boêmio do Village, ela faz o caminho inverso ao de Mitchell ao tentar provar que, mesmo não tendo algum manuscrito que comprove isso, ele realmente escreveu um livro. 
 
 Lepore explica que, após a publicação de “O Segredo”, muitos leitores enviaram cartas à redação da New Yorker, afirmando que possuíam esboços da História Oral. O próprio repórter, à época, respondeu dizendo que, se tivesse o material em mãos, iria finalmente fazer a retificação e comer o próprio chapéu. 
 
 No entanto, a história ficou como estava. A questão hoje, porém, é que não importa a qualidade ou a excelência do que restou nesses cadernos; mas, mais do que isso, o fato de que existe um legado escrito — mesmo que, se, no fim das contas, fossem pastas e mais pastas de laudas escritas à mão com as mesmas repetidas e reescritas digressões sobre índios e tomates que Mitchell encontrou (e a “história oral” que Joe relatou em séries de entrevistas em mesas de bar para provar que, sim, havia um texto, mesmo que apenas flanando na sua cabeça, e que ele revelava, depois de doses e mais doses de martinis duplos com cerveja). 
 
 Enfim, o que vale seria uma edição crítica do “algo” que corresponde à totalidade de seus manuscritos, para que a posteridade possa conhecer exatamente o que ele deixou quem sabe mesmo não como escritor, mas, como grafomaníaco. Afinal, Joseph mesmo relatou que havia sim manuscritos, mas quanto mais ele lia, mais descobria que o bufão do Village trafegava numa temática circular, versando sempre sobre aqueles mesmos temas (Gould defendia-se, alegando que era a parte “ensaística” da História. Porém, de tão enfastiado das supostas mentiras de sua fonte, ele resolveu dar cabo do perfil antes que desistisse dela em favor de outra pauta).

Mesmo assim, é provável que seja algo como querer um livro de Neal Cassady: mesmo que o guru dos beatniks tenha legado um único e escasso livro (O Terceiro Terço), ele imortalizou-se na verdade como personagem de outro escritor, Jack Kerouac. Assim como o Dean Moriarty de On the Road valha mais do que qualquer página de Cassady, a definitiva história oral de Gould não supera a prosa de Joseph Mitchell.

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