Crítica Musical #1 — Arthur Rubinstein

Durante a primeira metade do século XX, era difícil encontrar um canto de paz na Europa. A Primeira Grande Guerra (1914–1918) dividiu o continente e criou tensões que culminaram na ascensão do nazifascismo e, após um breve intervalo de 21 anos, na eclosão da Segunda (1939–1945), o conflito mais mortal da história.

Adolf Hitler e Benito Mussolini transformaram o Estado em uma verdadeira máquina de perseguição cujos alvos eram, em sua maioria, cidadãos comuns (condenados por sua origem judia, suas visões políticas, etnia ou sexualidade): sapateiros, engenheiros, médicos, trabalhadores da indústria, advogados e… músicos. O filme “O Pianista” (2003), que retrata a história de Wladyslaw Szpilman, pianista de uma rádio de Varsóvia, Polônia, talvez seja uma das mais conhecidas dramatizações que relatam o sofrimento vivido por músicos e artistas da época.

Diversos grandes compositores e intérpretes, diante da perseguição, não tiveram escolha senão se exilar. Foi o que aconteceu com Arthur Rubinstein, considerado por muitos como o melhor intérprete de Chopin do século XX.

Arthur Rubinstein

Arthur nasceu no seio de uma família judia da cidade de Lodz, Polônia (que é, também, a terra natal de Chopin), no ano de 1887. Prodigioso, começou a tocar piano aos três anos de idade e seu primeiro concerto, aos sete anos, incluiu obras de Mozart, Schubert e Mendelssohn. Sua estreia como pianista ocorreu quatro anos depois, em Berlim, quando tocou junto à Berliner Phillharmoniker (Orquestra Filarmônica de Berlim). Em 1904, mudou-se para Paris e assinou um contrato com o empresário Gabriel Astruc, o que projetou a carreira do pianista internacionalmente.


Arthur fez diversas apresentações no continente americano durante a primeira metade do século XX, local no qual viria a se exilar, alguns anos depois, após perder a família devido à guerra. Em 1933, Rubinstein esteve no Brasil para um concerto em que interpretou obras de Chopin e Lizst.

Em um primeiro momento, o pianista interpretou estudos e prelúdios de Chopin, dentre os quais a Mazurka em Dó Sustenido Menor, ‘a mais polonesa de suas composições’, segundo Arthur. A introdução, uma peça melancólica que nos recobre com a chuva de notas característica das composições de Chopin, é uma breve demonstração do irrestrito virtuosismo de Rubinstein que, aliado à sua interpretação sentimental e expressiva, nos conduz tranquilamente ao próximo ato. O primeiro tema da Mazurka nos introduz a uma narrativa tipicamente polonesa. O ritmo ternário, característico das músicas populares europeias, rege os passos de uma melodia que gradualmente se localiza geograficamente por seus ornamentos (principalmente os trinado e mordentes) e pelo acompanhamento do baixo, sincopado, durante o tema principal. Ao introduzir o segundo tema, a composição ganha, por vezes uma sonoridade mais próxima à valsa francesa. Durante toda a execução, Rubinstein, que permanece imerso em sua própria homenagem ao mestre Chopin, balança levemente o corpo de um lado para o outro, como se ele mesmo estivesse dançando ao som da composição.


Na segunda parte, Rubinstein executou o Liebestraum nº 3, conhecido também como Notturno nº 3 — Rêve d’amour. Mário de Andrade, que esteve presente na plateia como crítico musical, afirmou que a inserção da composição no programa tornou-a “sem razão” e “boba”, creditando a inclusão da obra a uma intenção irônica do intérprete. Discordo veementemente, com todo respeito ao senhor Andrade. A peça, que se inicia muito doce e amável devido à ambiência delicada criada pelos ligeiros arpeggios na mão esquerda, modifica-se de forma rápida e intensa no momento em que o tema inicial se repete uma em outro tom: as notas nos arpeggios aumentam, a melodia se torna mais expressiva e a composição se tensiona, culminando com uma grande escala cromática que atravessa os registros do piano como uma flecha que gradualmente perde sua aceleração. O primeiro tema é retomado tão leve quanto sua primeira execução, sendo pontuado por acordes nos registros mais agudos. Rubinstein levanta um pouco mais os braços e se inclina para trás, tocando esses acordes da forma mais fluida e delicada possível. Durante toda a composição, o pianista parece estar, ele próprio, no “Sonho de Amor” proposto por Lizst.


O pianista finalizou seu recital com a Rapsódia nº 12, também de Lizst. A obra, que se inicia sóbria e exige grande controle e maestria do intérprete, introduz o ostinato, ou seja, um ritmo que se manterá durante quase toda a composição, inserido de diversas maneiras. A Rapsódia se torna gradualmente mais afetuosa e romântica, mas ainda relaxada, se utilizando de acordes com extensões. As escalas e ornamentos que se seguem dão à composição características regionais, provenientes da música tradicional húngara. A quebra total, que seria o terceiro momento da composição, demonstra todo o dinamismo de Rubinstein, corretamente assinalado por Mário de Andrade. Após um momento breve e tenso, um novo tema é introduzido, recheado de escalas aceleradas que nos conduzem ao tema romântico e afetuoso do momento anterior, desta vez com variações. O momento rapidamente ganha fôlego e nos conduz ao gran finale, a expressão máxima de todos os momentos vividos durante a audição. A impressão que se tem é que se está inserido em um grande festival de emoções, com extravagância musical e diversos momentos de alegria e angústia que integram uma narrativa composta com maestria por Lizst e incrivelmente executada por Arthur Rubinstein.

FONTES

Bibliografias de Arthur Rubinstein

http://culture.pl/en/artist/arthur-rubinstein

https://www.biography.com/people/art-rubinstein-9466260