Crítica Musical #2 — “Ode aos Ratos”, de Chico Buarque

Ao tratarmos de Chico Buarque, logo nos vem à cabeça o ritmo ameno da bossa nova ou, quando mais familiarizado, suas composições mais inventivas, recheadas de orquestrações, dissonâncias (harmonias que soam “incômodas” aos ouvidos) e ritmos que vão da marcha à valsa. De qualquer forma, tanto “Sabiá” quanto “Deus Lhe Pague” ajudaram a conformar a Música Popular Brasileira e, por isso, compartilham de sonoridades muito características deste movimento que marcou permanentemente a cultura nacional. Um brasileiro que não conhece Chico Buarque provavelmente (palpite arriscado) conseguiria, ao ouvi-lo pela primeira vez, situar alguma de suas músicas no amplo espectro da MPB.

O compositor, que conta com uma discografia de aproximadamente oitenta discos (entre discos solo, em parceria com outros músicos e compactos), teve seu primeiro álbum divulgado em 1966 e, surpreendentemente, se encontra em plena atividade. Dentre os discos lançados no vigésimo primeiro século está “Carioca” (2006), álbum com doze faixas que reúne onze canções ao melhor estilo samba-bossa já tradicional de Chico Buarque. Faltou uma? Ah sim, pois bem. A ovelha negra da vez é “Ode aos Ratos”, música que, não por coincidência, foi associada pelos colegas a Chico Buarque mais pelo seu timbre de voz marcante do que por seu arranjo.

Chico Buarque em show no HSBC Brasil

A composição se inicia com o que parece ser duas ou mais rabecas executando melodias em contraponto (simultaneamente, estabelecendo uma harmonia) ao ritmo do pandeiro, do baixo e do udu (instrumento percussivo nigeriano que se assemelha a uma jarra com um buraco em um dos lados). Os dois últimos estabelecem um ostinato (ritmo que se repetirá durante grande parte da composição) típico do baião que, aliado à melodia eminentemente modal (ou seja, que gira em torno de uma nota específica, sem se preocupar com uma ordem ou estrutura dos acordes) dá à composição uma sonoridade característica de músicas do sertão nordestino. O uso do udu e do baixo elétrico tornam a introdução mais próxima da world music do que da MPB.

Após algumas repetições, Chico começa a cantar. Acompanhado de flautas, percussão e do baixo (que continua repetindo a mesma nota), entoa uma melodia que termina, na maior parte do tempo, na mesma nota. As flautas criam uma base harmônica que, apesar de diferente daquela criada pelas rabecas, mantém a mesma sonoridade, ou ‘ideia’ musical. O triângulo entra no terceiro verso para conformar, de vez, a identidade da canção. A letra, que trata da extensa presença dos ratos ‘do shopping center ao léu’, roendo ‘roupa’, ‘carro’ e até os próprios ‘ratos’, ressalta a resiliência desses animais ao viverem em sociedade humana: é como se os roedores vivessem constantemente em um sertão árido e penoso, sobrevivendo diariamente ‘à chacina e à lei do cão’.


Em um breve interlúdio entre um conjunto de versos e outro, uma guitarra com som distorcido introduz, ao fundo, uma linha de maracatu executada por uma caixa (tambor de som mais agudo e “estalado”, que se situa no meio das pernas do baterista, por exemplo). A introdução gradual dos elementos musicais torna a composição rica e interessante, captando a atenção do ouvinte.

Após o segundo conjunto de versos, rabecas executam uma melodia que se valem de uma “nota pedal” (nota que se repete constantemente, geralmente mais grave do que as notas da melodia), ampliando ainda mais o conjunto de sonoridades tipicamente nordestinas que a composição nos elenca. Um conjunto de versos, cantados de uma forma que se assemelha a um repente, serão repetidos até o fim da música. A composição chega ao fim com um cluster sonoro (vários sons dissonantes tocados simultaneamente) crescente executado pelas rabecas que dão a ideia, segundo sugestão de um(a) colega da turma, de vários ratos passando por alguém de forma ligeira. Quando a tensão chega ao ápice, há uma quebra de expectativa: todos os sons cessam e dão lugar à execução simultânea de uma mesma frase musical (conhecida como ‘convenção’, recurso típico do jazz) pelos instrumentos melódicos, culminando com um acorde de resolução que soa, também, “jazzístico”.

“Ode aos Ratos” é um agradável sopro de novidade em um álbum dominado pelo tradicionalismo “chico-buarquiano” das samba-bossas. Aqueles que gostam tanto “Sabiá” quanto “Deus Lhe Pague” certamente apreciarão a música, visto que já estão afeitos às variações musicais próprias de Chico Buarque.

Confira a canção abaixo:

https://youtu.be/RkTfRC-bU2Q