Mostra Internacional de Cinema de SP: O Farol, pesadelo, horror e espetáculo

Marcelo Silva
Nov 7 · 6 min read

A Mostra SP acabou e ainda falta falar de muita coisa aqui, mas não vai dar mais pra seguir uma ordem porque não consigo pensar em escrever sobre outra coisa que não seja o mais novo filme de Robert Eggers: o aguardadíssimo “O Farol”. Então vamos a ele (num texto SEM SPOILERS):


Em 2015 o americano Robert Eggers resgatou alguns elementos do terror que criaram clássicos do Cinema e indo na contramão de uma fórmula pronta do gênero que garantiu inúmeros sucessos de bilheteria nos últimos anos, lançou “A Bruxa”, o seu filme de estreia, onde criou uma das experiências mais perturbadoras que eu já tive no cinema. Afinal de contas, sustos são imediatos, mas quando se utiliza de forma inteligente tudo o que o audiovisual pode oferecer para criar o sentimento de terror, o medo fica com você por um bom tempo.

E se o diretor já havia ousado antes, em “O Farol” ele dá um passo além em todos os sentidos, com um filme que depende inteiramente do trabalho de dois atores para funcionar, filmado numa razão de aspecto fora dos padrões (1.19:1, o que deixa a imagem “quadrada”) e com fotografia preto e branco.

Uma combinação que nas mãos de muitos cineastas (sejam experientes ou novatos) poderia resultar numa obra com muita pretensão e nenhuma substância, mas no seu segundo filme Robert Eggers mostra que não apenas sabe o que faz como já tem pleno domínio da sua arte.

“O Farol” tem uma premissa aparentemente simples: dois homens (interpretados por Robert Pattinson e Willem Dafoe) são designados para cuidar de um (adivinha só) farol por quatro semanas. Dafoe é o Capitão que vai efetivamente tomar conta da luz enquanto Pattinson será seu ajudante no período. Um esquema fácil para duas pessoas que não se conhecem. Porém alguns imprevistos, além do próprio passado de ambos, se colocarão no caminho para tornar as coisas mais complicadas.

Todo filme depende muito do seu elenco para fazer a história ganhar vida e funcionar. Porém, por terem roteiros inusitados e histórias que saem do padrão hollywoodiano e apostam muito no bizarro, todas as produções do movimento que vem sendo chamado de “pós-horror” tendem a jogar a responsabilidade de fazer o público comprar a ideia do que vê na tela e embarcar na história em cima dos atores e atrizes.

Mas provavelmente nenhum até agora fez isso de forma tão desafiadora quanto “O Farol”. Porque aqui tudo depende exclusivamente de dois atores. Se um estivesse minimamente fora do tom, o outro também se perderia. Se a atuação de um não fosse tão boa quanto a do outro, o filme todo iria por água abaixo.

Felizmente, uma outra característica nos bons filmes do pós-horror é que exatamente por exigirem tanto do seu elenco, essas produções costumam contar com atuações espetaculares. E Pattinson e Dafoe entregam os melhores trabalhos de suas vidas aqui (ok, talvez seja um exagero afirmar isso do segundo que tem vários grandes trabalhos na carreira, mas é definitivamente o caso do primeiro), num duelo de atuações que hipnotiza o espectador desde o primeiro segundo em que aparecem.

Isso porque ambos fazem escolhas ousadas para compor seus personagens e conseguem acertar em cheio. O mais jovem passa boa parte do primeiro ato limitado a algumas poucas frases, apostando muito em olhares, maneirismos e pequenos gestos que fazem parte do ritmo de revelação da narrativa, entregando muito mas expondo pouco do personagem.

Enquanto o mais veterano precisa retratar uma pessoa que é exatamente o inverso: falador e constantemente exagerado, ele aposta num sotaque estereotipado de marujo experiente que poderia facilmente cair na caricatura, mas ator e diretor não só impedem isso como fazem tudo se tornar ainda mais natural.

Separados, ambos são excelentes (em especial Pattinson, que tem algumas cenas incríveis sozinho), mas é quando estão juntos… na verdade, quando estão juntos discutindo, é que o filme brilha. São cenas muito bem dirigidas em que a tensão vai se tornando cada vez mais insuportável. Principalmente nesses momentos Eggers mostra que a razão de aspecto citada anteriormente não é apenas um capricho técnico, cumprindo sua função narrativa e criando um mise-en-scène cada vez mais sufocante a cada minuto ao “enjaular” dois personagens em constante conflito.

Aliás, como falei no início do texto, Eggers prova já ter total domínio da sua arte graças a essas escolhas feitas para realizar a obra. Como um todo, “O Farol” passa a sensação de estarmos vendo um pesadelo representado no audiovisual, algo reforçado ainda pela fantástica trilha sonora de Mark Korven, pelos ensurdecedores efeitos sonoros que pontuam todo o filme e pela impecável fotografia de Jarin Blaschke, que pega carona no Expressionismo Alemão para criar momentos visualmente inesquecíveis, além de desafiar o espaço que possui no quadro com planos que ressaltam sempre a imponência do farol e como aquela pequena ilha se faz gigante diante daqueles dois homens.

Mas o maior feito de Eggers como diretor aqui é conseguir encontrar um equilíbrio entre esse aspecto de pesadelo e um realismo assustador, o que torna a experiência de assistir esse filme ainda mais incômoda do que em “A Bruxa”. É até difícil entender como em alguns momentos o cineasta remete a movimentos do Cinema caracterizados pelo exagero e em outros traz uma atmosfera quase documental.

Apesar disso, é importante ressaltar que apesar do incômodo e de várias imagens impactantes, é impossível tirar os olhos da tela. “O Farol” é um filme bonito de se ver e mesmo nos momentos mais parados, sente-se que o diretor está aproveitando ao máximo cada segundo.

E é aí que está seu grande trunfo: ao apostar em contrastes como o realismo e o sobrenatural, exagero e sobriedade, incômodo e arrebatador, imponência e opressão, Eggers nos faz entender, por meios puramente sensoriais e com um impacto que poucos conseguiram no Cinema até então (só consigo lembrar de “O Iluminado” de Stanley Kubrick e isso já diz muito sobre o nível de “O Farol”), como é perder a sanidade.

Mas não se engane: esse filme não é exatamente sobre isso. Ou talvez seja. Também pode ser sobre poder. Ou sobre masculinidade tóxica. Ou sobre o medo da solidão. Talvez seja sobre tudo isso. Ou sobre nenhuma dessas coisas e no fim é apenas o que estamos vendo na tela mesmo. Se “A Bruxa” recebeu críticas pelo final que para muitos era expositivo demais, “O Farol” nunca deixa explícita as intenções de Eggers ao contar essa história.

Eu lamento por quem for assistir o filme sozinho, porque vai sair espumando de vontade de debater cada frame que viu em tela. Surgirão muitas teorias (eu mesmo tenho as minhas, mas fica pra depois que o filme estrear em circuito comercial por aqui), análises e vídeos de “Final de O Farol explicado” nos próximos meses e julgamentos em relação a esses vídeos à parte, não há presente maior para um cineasta do que saber que seu filme não terminou quando as luzes se acenderam nas salas pelo mundo.

E é exatamente por deixar como única certeza para o espectador o fato de que ele vai ficar com esse filme na cabeça por um bom tempo é que Robert Eggers se consagra em “O Farol” como um dos melhores e mais promissores diretores da sua geração.


Notas:

mise-en-scène = a disposição dos elementos de uma cena (atores, iluminação, objetos em cena, etc)

razão de aspecto = é a proporção da tela, as dimensões de uma imagem. Atualmente, o padrão dos cinemas é 1.85:1 e 2.39:1

Marcelo Silva

Written by

Amante de Cinema, fanático por música e admirador mais comidas do que cabe nessa biografia.

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