Oscar 2020: Melhor Curta de Animação — Os indicados e o que achei deles

Marcelo Silva
Jan 22 · 7 min read

Foi-se o tempo em que as categorias de curtas no Oscar eram o momento pra ir no banheiro porque não fazíamos ideia de quem eram os indicados (salvo quando algum curta da Pixar que passava antes dos filmes nos cinemas entrava na disputa).

Imagem: Rotoscopers

A cada ano, fica mais fácil achar os curtas escolhidos no Oscar nos serviços de streaming afora. Na categoria de Curta de Animação por exemplo, todos os indicados estão disponíveis online e na corrida pra conseguir assistir todas as 53 produções indicadas até o dia da premiação (dia 9 de fevereiro, porque a Academia nos odeia) conferi os curtas animados essa semana. Vem comigo para uma rápida análise de cada um deles (e os links para assisti-los, porque eu sou uma boa pessoa):


Antes de falar sobre os curtas separadamente, uma coisa muito legal sobre Melhor Curta de Animação que faz valer a pena dar uma conferida nos indicados (e provavelmente é algo que vai se repetir nas outras duas categorias de curta) é que é uma categoria muito menos dependente de lobby e campanha política do que as grandes do Oscar. Sim, quase sempre a Disney e/ou algum outro estúdio grande está na disputa, mas como a votação aqui é restrita apenas a membros de um comitê especial que efetivamente precisa assistir os filmes, os resultados tendem a ser menos tendenciosos.

A casa do Mickey e a Pixar ganharam diversas vezes ao longo dos anos, mas sinceramente, não tinha como não premiar “Geri’s Game”, “For the Birds”, “Piper” ou “Paperman”, só pra citar alguns exemplos (se não sabe do que estou falando, procure esses curtas o quanto antes). Quem se aventura no mundo dos curtas, por via de regra, precisa contar uma história interessante e coesa em pouco tempo e com poucos recursos e para isso, criatividade no roteiro e direção e (principalmente com animações) na técnica utilizada são obrigações.

Não à toa, os trabalhos dessa categoria nunca são menos que ótimos e sem depender de bilheteria ou merchandising, possuem um imenso valor artístico. Os indicados de 2020 são uma prova disso: cada um dos 5 indicados tem uma estética totalmente diferente um da outro e os resultados são sempre impressionantes. Vamos começar por…

Dcera (Daughter): Feito como trabalho de conclusão de curso da diretora checa Daria Kashcheeva inteiramente com fantoches de madeira, “Dcera” mostra uma garota resgatando uma memória de infância e revivendo antigas mágoas com o pai quando este se encontra numa cama de hospital.

O trabalho de stop-motion é belíssimo e o design dos personagens chama atenção principalmente nos olhos de ambos. O olhar da filha é constantemente baixo e triste e o do pai transita entre o perdido e frustrado, como alguém que já falhou mais do que gostaria. Isso tudo com base em olhos pintados diretamente no rosto dos personagens (há apenas pequenos movimentos da “pupila”).

A beleza da animação compensa o problema com as escolhas visuais na direção. O conceito de filmar tudo com o efeito de câmera de mão é muito bom, por acentuar o afastamento e confusão no relacionamento entre pai e filha, a dificuldade dos dois se enxergarem de fato, mas na prática, gera vários momentos mais confusos do que (provavelmente) era planejado. Além disso, a história vai e volta entre passado, presente e fantasia com cortes desesperados e no final, é difícil entender exatamente o que de fato aconteceu (contrastando com isso, é admirável como o silêncio dramático é respeitado quando necessário). É uma história cheia de pequenas sutilezas e complexidades e contá-la sem diálogos foi uma decisão corajosa mas nesse caso, umas poucas linhas poderiam fazer muita diferença.

Hair Love: Dirigida por Matthew A. Cherry,, inspirada num livro infantil e produzida a partir de uma campanha do Kickstarter, “Hair Love” mostra uma garotinha tentando fazer um penteado especial e o seu pai tendo que encarar o desafio de ajudá-la. O curta na verdade vai um pouco além disso, mas aí seria estragar a belíssima experiência que é acompanhar essa história. “Hair Love” viralizou no ano passado pela sua mensagem de aceitação e amor próprio e claro, pela representatividade tanto na animação quanto nos bastidores (diretor, roteirista e animadores são negros).

O valor recorde levantado no Kickstarter permitiu um trabalho caprichado, com personagens cheios de expressividade e uma animação estilizada principalmente para um dos “protagonistas” da história, o cabelo. Issae Rae embala parte do curta com uma voz angelical e a forma como Cherry leva o espectador pela relação entre os personagens e as pequenas surpresas reservadas para o final garantem as lágrimas nessa história simples, mas cheia de coração.

Kitbull: Inspirado em… basicamente vídeos de gato fazendo fofuras (é sério), “Kitbull” faz parte do excelente projeto Pixar Sparkshots, que no ano passado gerou vários curtas divulgados online e feitos por funcionários do estúdio que tiveram seis meses e um orçamento limitado para trabalhar. A história acompanha um gatinho desconfiado que vê sua rotina tomar um rumo inesperado quando um pitbull vira seu vizinho involuntariamente.

Completamente desenhado a mão, o curta conquista pelo visual excessivamente cartunesco do protagonista e a simplicidade geral do traço da animação. Mas vale dizer que isso passa longe de ser um desleixo, pois é impressionante o cuidado que os animadores tiveram com o gatinho, cujas reações (preste atenção nos momentos em que ele se assusta ou se sente ameaçado), olhares e movimentação são fiéis a de um gato, ainda que seu visual não seja. Apesar de ter quase 10 minutos, tudo se resolve um pouco rápido demais, o que não chega a ser um grande defeito porque é consequência do cuidado que a diretora teve para desenvolver a relação entre os dois personagens. Apesar disso, os minutos finais trazem toda aquela carga emocional inesperada com muito pouco, algo que a Pixar se especializou ao longo dos anos.

Memoráble: Misturando stop-motion e computação gráfica, “Memoráble” é o único curta entre os indicados composto de diálogos (“Hair Love” tem Issae Rae apenas off-screen) e conta a história de um casal de idosos que precisa lidar com as mudanças inesperadas que começam a acontecer na vida de ambos (mais do que isso é spoiler hehe). Visualmente é a animação mais impressionante entre os indicados, com o stop-motion sendo usado de formas mais inventivas a cada cena e o diretor aproveitando o mar de possibilidades que a animação oferece para representar de forma brilhante algo um tanto desafiador de se expor no audiovisual.

A situação criada é envolvente e o personagem conquista pela sua simplicidade e inocência (além é claro, pelo que acontece com ele) e conforme a história se desenrola, fantasia e realidade se misturam, referências a Salvador Dalí e expressionismo alemão surgem e a conclusão é melancólica, emocionante e tanto em visual quanto em roteiro, absolutamente arrebatadora. No final fica o dilema entre querer ver um filme inteiro abordando essa história com mais tempo e preferir deixar as coisas como estão porque 12 minutos já foram eficientes o bastante para nos impactar. Um curta realmente poderoso (disponível apenas em francês, com legendas em inglês).

Sister: Outro trabalho de conclusão de curso que foi muito além do que a diretora poderia imaginar (nesse caso a chinesa Siqi Song), “Sister” traz as reflexões de um homem sobre sua infância e como ela poderia ter sido diferente. Os bonecos de feltro e lã usados na animação em stop-motion geram um visual simplista, mas eficiente, além do material possibilitar algumas cenas bem interessantes (como o momento em que o garoto “puxa o umbigo” da irmã).

O curta é uma reflexão bem direta sobre a política do filho único da China, que vigorou no país até 2015 e a forma como a questão é apresentada vem de forma inesperada e devastadora, ao menos quando se vê a história por esse contexto. Em outros países ou para pessoas desavisadas, “Sister” pode parecer uma propaganda anti-aborto encomendada pela atual ministra dos Direitos Humanos do Brasil (porém o aborto é legalizado há décadas na China), mas a realidade é que Siqi Song, que teve o privilégio de ser uma “segunda criança” e de criar laços com um irmão durante o período da lei do filho único do seu país, faz aqui uma reflexão triste, mas reveladora, em nome dos que não tiveram a mesma oportunidade.


A categoria está realmente ótima esse ano, com 5 indicados fortes, técnicas de animação criativas e histórias poderosas. Mas, respirando fundo, meu veredito final é:

Favorito: “Hair Love” é lindo e tem uma mensagem incrível, mas eu realmente não estava preparado para o impacto de “Memoráble”, o mais incrível dos 5.

Podia ser melhor: “Daughter” passa longe de ser ruim, mas na maior parte do tempo a forma como o curta é conduzido acaba atrapalhando mais do que causando as impressões que a diretora estava buscando.

Minhas apostas para o vencedor da categoria ficam para o post de apostas do Oscar 2020. Antes dele vem mais alguns posts especiais (eu espero). Até lá!

Marcelo Silva

Written by

Amante de Cinema, fanático por música e admirador de mais comidas do que cabe nessa biografia.

More From Medium

Also tagged Academy Awards

Top on Medium

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade