O Ataque Ao Bolsonaro e suas Implicações
Caros, reuni no texto abaixo minha posição sobre o Atentado ao Bolsonaro e suas implicações sob o ponto de vista do sentido da violência, das falsas simetrias que estão sendo usadas no debate e da consideração da Moral cristã que subjaz boa parte da discussão.
No episódio do ataque ao Bolsonaro em Juiz de Fora (06/09/2018), pouco importa o que é fato ou ficção no próprio ataque. Há pessoas condenando as usuais Teorias da Conspiração e suspeitas sobre a veracidade do ocorrido, insistindo que não há nada que não seja verdadeiro ali. No Mapa de Interações publicado agora à noite pelo DAPP da FGV, fica clara a dimensão que tomou a a suspeita nas últimas 24 horas desde o ataque.

Contudo, como o Artur Rodrigues (que eu não conheço) ironizou,
"Difícil explicar pra alguém que não é brasileiro que na corrida para a presidência do Brasil um candidato está preso, um foi esfaqueado e outro subiu num monte pra jejuar.”
Não só é típico como se acentuou no cenário político brasileiro dos últimos anos a percepção de que o enredo do real faz frente e ganha de goleada do universo das séries como House Of Cards e outras produções ficcionais cuja característica mais marcante é o Plot Twist e as surpresas narrativas que mantém cativa e atenta a audiência. Nesse contexto, e sendo o brasileiro um dos maiores públicos de empresas de Streaming Digital Audiovisual como a Netflix, a Amazon Prime Video, o Mubi, o Free Form, o próprio NOW da NET e outros serviços semelhantes, não é de se estranhar que nós, para quem são familiares a estrutura e os diversos truques ficcionais, encaremos prontamente como suspeito os diversos detalhes desse episódio na realidade. Se há algo que eu teria para ensinar, como estudioso da História da Arte, da Cultura e da Política há quase 30 anos, é que desconsiderar ou menosprezar as diversas formas de imbricação do Real e do Ficcional um no outro é perder boa parte da carne e dos ossos daquilo que nos constitui hoje como Sujeitos do contemporâneo.
Uma simples observação da sequência de notícias sobre o caso que saiu na imprensa nacional, isto é, as matérias sobre o atentado que foram publicadas pelos grandes jornais do país por profissionais que estão ali sendo pagos para realizar o trabalho de transmitir informações fidedignas, por oposição aos incontáveis anônimos e desconhecidos que criam suas próprias postagens nas redes sociais, mostra que a membrana entre o Real e a Ficção é bastante permeável. Nesse sentido, como é que se pode esperar que as redes sociais não fervam com suas próprias teorias se quem é responsável por checar as informações está promovendo barrigada atrás de barrigada? Quando a imprensa estiver cumprindo o papel ao qual ela deveria estar destinada, poderemos começar a estranhar a especulação coletiva nas redes sociais. Alguém ainda se lembra de quando a internet não existia, muito menos as redes sociais, e todos nós já fazíamos exatamente o que fazemos hoje nas redes, só que nas rodinhas nas cantinas e depois nos bares noite afora? Aquilo eram as redes sociais antes das redes sociais. Estranhar que o bate papo hoje não siga certos protocolos é coisa de gente estúpida, não é mesmo? Mas as questões relativas ao ataque ao Bolsonaro são mais complexas e mais sérias do que isso.
SOBRE O USO DO FAKE
Se teve facada mesmo, se ele estava de colete, se o agressor estava há 3 metros da vítima quando aconteceu o ataque, se vazou sangue ou não, se a equipe do Hospital forjou toda a operação e os laudos (como se fosse impossível acontecer isso. Na prática não é. Só que você só vai saber décadas depois. Há inúmeros casos envolvendo farsas e hospitais na história da política, do Tancredo Neves ao Bobby Kennedy). O que interessa é como esse episódio vai ser usado politicamente. Quando o incêndio do Museu Nacional foi usado politicamente, muitos de nós protestamos. Aí, justo quando ainda estávamos protestando, vem e acontece o atentado ao Bolsonaro. Pouco importa, mais uma vez, a relação causal entre o nosso protesto, o Museu, a série de antecedentes envolvendo o Bolsonaro nos últimos 3 dias (sabiam que ele teve uma reunião secreta com os donos das Organizações Globo?) e o episódio do ataque a ele. O que importa é o quadro que vai sair daí. Porque, politicamente, juridicamente, ninguém tem forças para contestar a veracidade do ataque. Então pouco importa se é fake ou não. O fato é que o USO que será feito do ataque SERÁ EM GRANDE MEDIDA FAKE. Ou seja, vai rolar hipérbole reativa, vai rolar repressão, vai rolar colagem de outros pedaços de narrativa casuais — não causais — não para dizer que é Fake o ataque, mas para provar para a população que vivemos num regime de insegurança — que foi impulsionado justamente por quem está dando essa prova, isto é, a mídia, o judiciário, o executivo, o legislativo, aí incluído o STF, fora o empresariado vulgo mercado — e que diante disso só o "Mito" é capaz de nos salvar e pacificar a nação.
Sabe quando algo muito parecido aconteceu? Em 1933, ocorreu o incêndio criminoso no Reischstag. Até hoje pairam dúvidas sobre os reais autores do incêndio. Hitler havia obtido o título de chanceler apenas 4 semanas antes e o episódio do incêndio foi usado por ele como justificativa para soltar um Decreto de Emergência para a Proteção do Povo e do Estado… contra os comunistas, que haviam sido acusados por Hitler de serem os autores do incêndio. Não preciso lembrar a vocês que o incêndio no Museu Nacional está caindo nas costas do PSOL, da Esquerda e da Universidade Pública. Não se trata de embarcarmos acriticamente na Teoria da Conspiração. Se trata de entender que há um processo em curso. E esse processo não é, ao contrário do que os ingênuos acreditam, um processo democrático. Entre o Delírio e a Paranóia da Teoria da Conspiração e a ingenuidade, existe a cautela, a observação fria do desenrolar dos fatos, e a compreensão de que o atual cenário não é novo, nem a hipótese de que o caldo vai engrossar algo inverossímil ou improvável.
Há muitos elementos semelhantes com o passado. Já houve no passado Farsas políticas em torno de atentados que mudaram o curso da história. Em vez de citar o caso caricato do Serra e suas bolinhas de papel, cito o caso do Bobby Kennedy, que foi assassinado no momento em que a convenção democrata definia que ele havia ganho a corrida do partido para concorrer às eleições presidenciais num momento de idêntica polarização da sociedade nos EUA, sendo o Bob o candidato dos negros, dos pobres e do Fim da Guerra do Vietnã. Há um ótimo Doc na Netflix que conta a história. Chama-se Bobby Kennedy. Sobre a pessoa que está presa até hoje como autora do assassinato, pairam inúmeras dúvidas. No calor dos acontecimentos, a onda de desespero, a manipulação política consciente e a corrupção que envolve um monte de gente apagam muitas pegadas, e só muito tempo depois é que os personagens da história podem ter condições de tentar investigar o que realmente aconteceu. Até hoje as pessoas próximas do Bob, que são pessoas equilibradas, além de muitos jornalistas e personalidades que conviveram com ele suspeitam de que a história não foi bem contada.
No entanto, O Reischtag de fato foi queimado e o Bobby Kennedy de fato foi assassinado, e isso promoveu uma fortíssima guinada à direita na política mundial, seja com a ascensão definitiva do Nazismo na Alemanha, seja com a introdução do Neoliberalismo nos anos 70 via EUA e Inglaterra. Nos EUA, quando Nixon renunciou por conta de Watergate, que não por acaso foi fruto de outro atentado fracassado contra a firma que guardava os documentos secretos das conversas da Casa Branca, o caminho para o Neoliberalismo já estava em curso. Há livros sérios publicados sobre os paralelos com o passado. Até quando vamos ignorar essas possibilidades como sendo fruto de mentes desequilibradas que não sabem o que estão dizendo? Até quando vamos continuar a não nos prepararmos para o que, se não está de fato vindo, há um nível de probabilidade muito forte apontando nessa direção? Uma coisa é dizer que já está tudo definido. Outra, é dizer que tudo isso é pura insanidade ou loucura de quem cultiva teoria da conspiração. Entre uma coisa e outra, há a história, que é aberta, mas que é feita de gargalos também. Nesse momento histórico, nós estamos atravessando um desses gargalos, lembrando, por fim, que Golpe só tem sentido histórico se compreendido como processo de média a longa duração, mesmo que por longa signifique uma experiência tão brutal que nós nunca poderemos nos esquecer dela, seja porque ela também opera sob a lógica da semente — maligna, mas semente -, seja porque ela muda totalmente os parâmetros com os quais costumamos avaliar certas questões universais, como a da necessidade da violência para dar conta de uma violência brutalmente maior, ainda que cronologicamente essa experiência tenha durado apenas aproximadamente 2 décadas. Um bom historiador vê não apenas raízes onde a maioria só vê sombra, mas consegue enxergar acima da copa das árvores, se isso significa a única possibilidade que ele tem de ver as estrelas.
A FALSA PREMISSA DA NÃO-VIOLÊNCIA
O Samir Oliveira, que eu também não conheço, postou no dia 06 de Setembro no facebook um interessante texto que chamou a atenção de muita gente, onde ele diz:
"Quando Marielle Franco foi brutalmente executada, Bolsonaro silenciou. Seus apoiadores espalharam as mais absurdas mentiras. Quando a caravana do PT foi atingida por tiros, Bolsonaro disse que foi uma armação do próprio partido. Ana Amélia exaltou os gaúchos a darem de relho em petistas. Há poucos dias um apoiador do Bolsonaro ameaçou com uma arma uma voluntária da campanha do Boulos. A vereadora Talíria Petrone, do PSOL, teve uma arma apontada em sua cara no primeiro dia de campanha por um policial completamente despreparado em uma embarcação pública. Muitos festejaram.
E agora um lunático — ao que tudo indica, um perfeito imbecil com declarações de fanatismo religioso em seu perfil no Facebook — resolveu esfaquear o candidato que fala em metralhar adversários e que se vangloria de ter ensinado crianças a atirar. Os próximos dias serão imprevisíveis. A reação furiosa dos apoiadores do Bolsonaro já expôs nas redes sociais o endereço da mãe do sujeito que esfaqueou seu “mito”. O presidente de seu partido declarou guerra. A escalada de violência política no Brasil ultrapassou qualquer limite democrático e civilizatório há muito tempo. Repito: há muito tempo. Mas só agora muitos perceberam que adotar a violência como forma de fazer política é uma via de mão dupla.
O que estamos vivendo não é polarização. É destruição mútua."
Eu acho lindo esse texto, gostaria muito de subscrevê-lo integralmente, só que a conclusão a que ele chega parte da velha e falsa premissa de simetria entre os dois lados da polarização. Isso é uma falácia, um erro de raciocínio lógico que acaba piorando a situação geral pois a partir dessa falácia as pessoas costumam adotar posturas concretas, e a postura concreta que as pessoas adotam com essa premissa falsa é a de não fazer nada, não reagir. Copio para vocês a posição mais justa da Djamila Ribeiro, para depois mais abaixo desenvolver um pouco mais as consequências necessárias de percebermos que não há simetria no uso da violência. A Djamila disse ontem no Facebook o seguinte:
“Gosto quando Angela Davis, ao responder a um repórter que dizia que o grupo Panteras Negras era violento, disse: “defina violência”.
Séculos de opressão contra os povos negros e indígenas, estupros sistemáticos de mulheres negras, chibatas, banzo, corpos ao mar. Lei de terras de 1850 que priorizou latifundiários, lei da vadiagem de 1941 para prender negros. Favelas, precarização de vidas, esgoto a céu aberto. Jovens negros sendo assassinados a cada 23 minutos, criminalização do aborto matando milhares de mulheres ao ano. Filas longas no SUS, hospitais sem médicos, pessoas morrendo na fila. Aprovada a PEC que congela em 20 anos investimentos em Saúde e Educação. Marielle Franco brutalmente assassinada, algozes comemoram. Mulheres assassinadas a cada duas horas. Torturadores sendo homenageados, ratos na vagina de mulheres presas na ditadura, vala de Perus, famílias que sequer puderam enterrar seus entes queridos, ossadas em caixas sem identificação.
É preciso parar com falsa simetria, não se pode comparar situações radicalmente diferentes. É ignorar que há opressões que impedem humanidade, é julgar que estamos no mesmo ponto de partida. O sistema apoiado pelo inominável mata todos os dias. O inominável prega discurso de ódio, que também é ação. Defina violência? Quem pariu Mateus, que o balance.
Fico passada com a moral cristã no fazer político, vale tudo pra ganhar eleições? Essa pretensa superioridade moral é lamentável. A gente sequer pode dar a outra face, quando o Estado mata nossos corpos. Dar a outra face é privilégio de quem foi construído pra vida importar. Perdoa 70×7 vezes porque está vivo pra isso. Já disse Marcelino Freire, “a paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida.”
No mais, só posso temer o que está por vir após essa humanização toda de quem carrega sangue nas mãos e incrivelmente nem após uma facada sangra.”

Em resumo: A violência que vem de lá para cá é sistemática, e é referendada e atualizada pelo Judiciário, pelo Sistema Policial, pelo Executivo e o Legislativo. Assim, conta-se, se colocarmos a violência policial na roda, uma proporção de milhares de casos para um ou outro caso. Está claro isso para todo mundo? A violência que vai de cá para lá é assistemática, fruto de casos totalmente fora da curva, como o presente atentado contra o Bolsonaro, realizado por um sujeito cuja saúde mental está claramente comprometida. O mesmo autor do crime fez curso de tiro no mesmo estabelecimento que praticam os filhos do Bolsonaro. Só não realizou o atentado com uma arma de fogo porque o Estatuto do Desarmamento o impediu de obter o porte de arma. O mesmo Estatuto do Desarmamento que o Bolsonaro condena salvou a sua vida. Atacado e em vias de morrer, o Bolsonaro foi salvo pelo atendimento do SUS em Juiz de Fora, para depois ser transferido para São Paulo no Albert Einstein. O mesmo SUS que o Bolsonaro condena salvou sua vida. Não bastasse isso, da cama do Hospital em São Paulo, se recuperando, ele faz hoje o mesmo gesto de pistola com as mãos que fazia antes de ser atacado, sem conseguir entender que foram exatamente esses gestos e todo o seu interminável clamor por violência que levaram o seu próprio algoz a atacá-lo.
A questão não é se vamos aumentar os casos fora da curva do lado de cá. Eu repudio também a violência gratuita em qualquer circunstância. Dada a Falsa Simetria do uso da Violência, o que resta a compreender é o que fazer para diminuir os casos totalmente assimétricos que nos assassinam. A resposta para isso, quem admira o texto do Samir acima geralmente não tem. Ou recorre-se à resposta genérica e abstrata de que temos que melhorar a Educação da população, sem mostrar como realizar isso na prática, dentro de um sistema que já é assimétrico, inclusive na própria Educação. Ou seja, fica-se sem resposta, esperando que ela caia do céu, de modo automático, dependendo da intervenção da Providência divina ou do Estado, este, que não resolveu o abismo educacional que faz do povo brasileiro um dos mais ignorantes do mundo em relação à própria realidade.
Superado o problema da Falsa Simetria, a questão do uso da violência ainda precisa enfrentar dois desafios, um intimamente atrelado ao outro, para que possa ser adequadamente compreendido: de um lado, muitos que são vítimas ou potenciais vítimas dessa assimetria associam automaticamente a violência ao mal absoluto e universal, isto é, compreendendo a violência independentemente dos contextos e situações (tempo, espaço e meio) em que ela é exercida; de outro lado, porque é automático associarmos essa questão da violência a uma resposta moral em um país como o Brasil cuja população continua se definindo majoritariamente (90%) como cristã, ou seja, a resposta moral à violência se define na prática como a resposta da moral cristã, e isso não apenas hoje ou no Brasil, mas historicamente, a moral cristã é o que impede a compreensão da verdadeira natureza da violência.
Em relação ao primeiro desafio, é útil considerarmos como a Regra Civilizatória básica a não tolerância da intolerância que ameaça a tolerância. Parece confuso? Não é não! É bem simples de entender, bastando para isso conviver com um filho da puta uma vez na vida. Todo mundo conhece um na família, no trabalho, na escola, na História, nos livros e/ou no cinema. O exemplo dado pelo filósofo Karl Popper, usando o contexto do Nazismo, explica bem isso, e qualquer discussão sobre o uso da violência que não considere a experiência do Nazismo corre o risco de ser inócua, especialmente em relação aos sinais que eu apresentei acima.

O ponto central, para usar o mesmo exemplo da experiência do Holocausto que o Popper, reside mais uma vez na falsa simetria entre a violência Nazista e a violência dos Aliados para por fim ao avanço dos Nazistas. São violências em escalas muito diversas e de naturezas muito diferentes. Uma visa a destruição pura e simples da vida, outra visa impedir a destruição desta vida. São violências com finalidades opostas que se utilizam de meios em escalas e dimensões muito diversas. O grande problema desta discussão é que as pessoas em geral apenas avaliam os Meios, ou seja, as Ações, situando-as fora do espaço e do tempo, isto é, considerando as ações dissociadas dos seus contextos e das suas consequências, como se pudéssemos julgar as ações humanas fora da experiência histórica da qual fazem parte e de onde ganham seu sentido.
É por isso que esse primeiro desafio da compreensão da violência como fenômeno contextual está intimamente atrelado ao segundo desafio, que é a Moral Cristã. A grande maioria das pessoas que se definem como cristãs pouco ou quase nada compreendem as implicações e as premissas dessa Moral A Moral Cristã se assenta sobre uma Ética que por sua vez se assenta sobre uma Metafísica. E não se pode compreender uma coisa sem compreendermos as implicações das demais. A Ética Cristã avalia o mundo sub-lunar, isto é, terreno, dos seres humanos, em termos transcendentes, ou seja, para esta Ética, as ações humanas só podem ser avaliadas segundo a perspectiva do Além-Mundo, que é também o Pós-Mortem ou o Trans-Histórico. Nesse cenário, ao ser humano apenas caberia avaliar as próprias ações segundo as regras da VIDA APÓS A MORTE, ou seja, segundo os parâmetros triádicos do Paraíso, Inferno e Purgatório que, como sabemos, são construções históricas e não a estrutura revelada da transcendência, tal como quer a Igreja. Como cristão, me interessa remover a camada mitológica de tudo isso e recuperar o sentido da experiência original de Jesus como ser humano dotado de uma visão significativa sobre as relações humanas centrada na experiência da comunhão e do Amor. E nessa experiência, o próprio Jesus faz uso tópico da violência quando foi necessário, ou seja, se quisermos ser rigorosos com a visão cristã, precisamos incluir o sentido da violência dentro da própria história de Jesus. Meu objetivo ao tocar neste ponto é criar um canal de abertura com todos aqueles que se definem como cristãos, como eu, mas não conseguem se desembaraçar de uma confusão em relação aos princípios que norteiam essa experiência. Para os que não são cristãos, são ateus ou agnósticos, fica ainda mais fácil compreender o que estou dizendo.
Meu ponto aqui diz respeito ao fato de que aquela resposta moral da não violência a qual as pessoas que se definem como cristãs aludem nem legitimamente cristã é, já que se o Evangelho é marcado pela Mensagem do Amor de Jesus, a história de Cristo não desconhece a experiência da violência em momentos pontuais, ou seja, se a violência é assimétrica, ela é também na própria história de Jesus, com a experiência sistemática de sofrimento e sacrifício de Jesus/Deus de um lado, e de outro o pontual e assistemático episódio da Expulsão dos Vendilhões do Templo (para citar só um exemplo mais conhecido do próprio Evangelho), que é um caso claro de violência do próprio Jesus contra os hereges em vista de um fim maior. Por que a maioria das pessoas não é capaz de considerar essa passagem como um elemento importante dentro da narrativa geral do Evangelho e retirar dessa experiência a lição que ela traz para nós?
Aqui há duas coisas importantes:
1) A história de Jesus é uma história marcada pelo uso assimétrico da violência também;
2) Ela nos mostra que em certas condições especiais a violência pode ser justificada em termos cristãos ou, para ser mais preciso, em termos ético/morais, bastando para isso considerar o próprio exemplo de Jesus;
A questão aqui é fazer entender que, diante de certas condições, é ético considerar a violência como possibilidade de redução da própria violência. Isso não justifica, obviamente, um holocausto no lugar de outro, nem muito menos o uso gratuito da violência. A grande dificuldade das pessoas, nessas situações, é que elas esperam incansável e desesperadamente algum critério universal com o qual poderão dar a volta ao mundo como se ele fosse uma boia inabalável e segura a qual se agarrar, por todo o sempre e em todos os lugares. E a verdade é que não existe esse critério universal, pois o que eu tenho tentado apontar é que a ação precisa ser avaliada eticamente em função de suas consequências, e as consequências só podem ser humanamente avaliadas em função de uma consideração dos contextos e situações nas quais a violência está inserida, de modo que, em resumo, os fins precisam justificar os meios. E o que quase ninguém percebe é que a ótica de repudiar universalmente a violência é o contrário disso, significa que os meios justificam os fins. Acontece que a atitude de não praticar nunca a violência justifica qualquer coisa que seja consequência disso, pois se para estes os meios justificam os fins, isso só faz sentido porque em última medida a avaliação que se fará desses meios é postergada para o Além-Túmulo de modo que se evita a consideração de suas implicações em vida e em função dos vivos. E essa postura é idêntica em termos da Relação Meios e Fins ao seu inverso, que é considerar que praticar a violência sempre justifica os fins, que é exatamente a postura adotada pelo Estado e por sujeitos como o Bosta Nazi, isto é, a manter o controle da violência praticada de modo sistemático. Em resumo: meios inversos mantém a mesma proposição. E aí não saímos do lugar, mantendo a assimetria fundamental e o assassinato diário da população mais vulnerável, porque recusamos enfrentar as consequências das nossas ações, sejam elas fruto da violência sistemática ou da nossa inação.