QUE HORAS ELA VOLTA?

Até ver o filme esta noite, acreditava que “Que Horas Ela Volta?” se tratasse de uma daquelas unanimidades que nos fazem crer que estamos diante de uma nova obra-prima do cinema nacional, dessas que têm surgido numa quantidade que nos faz repensar os conceitos de obra-prima. Os incontáveis elogios em redes sociais, a incontestável escolha para representar o Brasil no Oscar e a maneira como o marketing inteligentemente explora e amplifica a repercussão dos prêmios e elogios da crítica internacional de alguma forma procuram condicionar o espectador a gostar do filme. E não há muitas razões para que ele não o faça.

“Que Horas Ela Volta?” não tem nenhuma ousadia formal que impeça sua apreciação por um público mais amplo. Mesmo aqueles que enchem os cinemas apenas para prestigiar a mera reprodução de caricaturas e estereótipos do mais raso humor televisivo não sairão de seu porto seguro, ancorados na interpretação naturalista e bem humorada que Regina Casé faz de um elemento enraizado na sociedade brasileira: a empregada doméstica clássica, aquela que é “praticamente da família” e não se sente escravizada, embora o olhar crítico externo assim a perceba.

A diretora e roteirista Anna Muylaert certamente conviveu ou convive com muitas Vals, a personagem de Casé. O diretor chileno Sebastian Silva também: em 2009 ele dirigiu “A Criada” (lançado no Brasil em 2013), inspirado em suas próprias memórias em casa de classe média alta. No filme chileno, o que está em pauta não é a representação dos conceitos de vilania e vitimização dentro da relação profissional estabelecida, mas sim o que a presença daquele ser tão próximo e ao mesmo tempo tão distante da vida da família significa tanto para a empregada quanto para os patrões.

O filme de Muylaert vai pelo mesmo caminho, com menos sutileza no desenho da personagem da patroa, que aos poucos vai assumindo o papel da “perua malvada da elite brasileira”. Se no filme chileno é a chegada de outras empregadas para servirem de assistentes para a criada do título que criam uma ruptura em sua rotina, aqui esse agente é a própria filha de Val, vinda do interior do país para fazer o vestibular para arquitetura em São Paulo. E aí o filme passa a ganhar uma leitura política e social mais ampla, que poderia significar uma tremenda armadilha panfletária, da qual ele felizmente escapa.

A insinuação de que a nova geração de nordestinos possa concorrer de igual para igual com a elite paulistana por uma disputada vaga na USP não está atrelada ao sistema de cotas ou a algum benefício assistencialista, e sim à meritocracia. Enquanto o filho dos patrões fuma maconha o dia inteiro, a filha da empregada estuda e, por isso, obtém notas melhores. É implícita, embora nem tão sutil, a sugestão de que o jovem que até então era obrigado a seguir o caminho dos pais pobres largando os estudos para se aventurar em subempregos agora pode percorrer um caminho seguro até a faculdade, mesmo com as reconhecidas deficiências no ensino médio e fundamental.

Se o filme poderia ganhar uma leitura com mais camadas de reflexão, seria no aprofundamento das relações entre os patrões. O desespero do patrão para fugir da letargia que lhe causa a mais profunda infelicidade, a despeito de todo o conforto material, não encontra correspondência à altura nos personagens de sua mulher e filho, um tanto esquemáticos. É como se nada pudesse servir de obstáculo ao brilho de Regina Casé, que domina a cena e oferece ao menos um momento sublime: seu andar sobre as águas de uma piscina semi-vazia é o correspondente ao que faz Chauncey, o jardineiro alienado vivido por Peter Sellers, no final poético de “Muito Além do Jardim”.

“Que Horas Ela Volta?” poderia ter acabado ali naquela cena, porque é o tipo de filme que não se encerra em sua estrutura de início-meio-fim. Mas seu maior mérito é mesmo o de estender a discussão para o além-sessão, mostrando que há um caminho alternativo ao entretenimento idiotizante.

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