Considere as margaridas do Campo — ou como jogar um bom jogo de cartas

Trecho extraído do livro: “Não Apresse o Rio”, de Barry Stevens.

Marcelo Justo
Jul 24, 2017 · 14 min read

O título dessa estória se é que é uma estória, poderia muito bem ser O Caminho do Zen, mas não é preciso dar a volta pelo oriente para chegar ao ocidente. Em todo caso, ela trata da Sra. Chumley — que voltou ao século vinte, anos setenta, para visitar sua neta Anne. Alguns dos amigos de Anne perguntaram à Sra. Chumley como ela havia aprendido aquilo que sabia sobre a vida. Havia tantas respostas, que a Sra. Chumley teve que sentir qual seria a mais aceitável aos seus atuais inquisidores. Isso não quer dizer que fosse inverdade, mas que era muita verdade. Se você acha que existe apenas um caminho para Roma, você não conhece Roma muito bem.

Com os amigos de Anne, a Sra. Chumley decidiu usar um jogo de cartas para explicar. Vocês podem tirar informações de como viver a partir de qualquer jogo, disse ela, mas eu vou usar paciência, para que vocês possam tentar sozinhos, sem precisarem recorrer a outra pessoa. Outra vantagem da paciência é que não se pode culpar ninguém pelo fato das coisas terem ou não terem dado certo, e tampouco dar crédito a ninguém. É tudo entre você e as suas cartas.

Ela embaralhou as cartas, primeiro do jeito conhecido como “científico”, e depois outra vez, do jeito amador. Essa lhe parecia a melhor maneira de misturá-las totalmente, embora às vezes se perguntasse se não poderia fazer com que voltassem à disposição inicial. Entretanto, isso nunca pareceu suceder, então não tinha que se preocupar muito — só o suficiente para saber que não estava excluindo nada.

Então começou a colocar as cartas na mesa, a partir de uma fila de oito cartas abertas. Depois colocou outra fila parcialmente em cima, sem ocultar as cartas da primeira fila, e prosseguiu dessa maneira até que as 52 cartas estivessem abertas — pelo menos em parte — sobre a mesa. Havia apenas quatro cartas na última fila, é claro.

Essa era uma das regras explicadas pela Sra. Chumley — a maneira de distribuir as cartas. Se ela não for seguida, não se estará jogando este jogo, e sim outro jogo qualquer. Não há muitas regras para um jogo. Neste, os ases, — quando se consegue alcançá-los — são colocados na parte superior, como na maioria dos jogos de paciência, e a partir deles vai-se colocando a sequencia conforme o naipe, como ocorre normalmente. Na parte inferior, imaginam-se quatro locais de passagem para as cartas. Qualquer uma das cartas, exposta, pode ocupar temporariamente um desses locais para desimpedir o caminho, até poder ser colocada em outro lugar.

O nariz da Sra. Chumley começou a ficar úmido, como às vezes acontecia quando ela e os germes antiquados do século vinte se juntavam. Seu lenço pulou fora da sua bolsa aberta, que estava do outro lado da sala, indo diretamente para sua mão. Ela o mandou imediatamente de volta, dizendo à neta: “Anne, você pode trazer o meu lenço? Me esqueci de quanto estou.”

A mesa aberta, prosseguiu ela, é o caos. O objetivo é pôr ordem no caos juntando as cartas em quatro montes na parte superior. Só se pode mover uma carta de cada vez, a menos que haja sequência: então é preciso mover toda a sequência, ou nenhuma das cartas — a não ser que se queira deixar as cartas nos locais de passagem por algum tempo, o que deve ser feito de uma em uma.

Vejam, não há realmente muitas regras, e estas são necessárias, porque sem regra nenhuma não há como sair do caos. Sem regra nenhuma — e essas regras são apenas limitações — não se poderia sequer reconhecer o caos. Se elas não existem, é preciso inventá-las. Elas não restringem — e sim, tornam o jogo possível.

Convenções são outra coisa. Pessoas que esperam descobrir o Caminho estabelecem convenções para tornarem possível jogar sem pensar, usando ainda outra série de regras. Aí a coisa torna-se trabalho, e não jogo. Este é o tipo errado de não-pensar, e chegarei ao tipo certo mais tarde. Convenções são probabilidades, e quando a gente se limita a elas, perde as possibilidades. É monótono. Além disso, num jogo com mais de um jogador, as convenções só funcionam se todo mundo se sujeita a elas. Quando até mesmo duas pessoas com convenções diferentes se juntam, pode haver literalmente um assassinato, embora uma regra possa ser a morte lenta. Isso não melhora as coisas em nada.

Quando um dos lados segue as convenções e outro não, o lado convencional perde. Certa vez, uma criança de seis anos me venceu num jogo de xadrez porque conhecia as regras do jogo, mas não as convenções. Ela moveu a rainha como se fosse um peão, o que me pegou desprevenida. porque estava acostumada a jogar com gente convencional. Perdi. Não pude me aborrecer com a criança, embora por um momento isso tenha ocorrido, porque naquela época eu estava jogando com os cavalos e sacrificaria qualquer coisa para salvá-los. Meus adversários ficavam furiosos comigo quando eles perdiam, porque para eles as convenções tinham se tornado regras, e ficavam num beco sem saída quando eu quebrava o que parecia ser uma regra, e mesmo assim não podiam me acusar, porque não era regra. Sabe — como um guarda que não pode levar você para a cadeia algo que julgava poder, porque você não violou a lei como ele pensava. Você apenas violou uma convenção. É claro que se você “pensa” como os guardas (foi possível ouvir a Sra. Chumley colocar a palavra entre aspas) você acaba se submetendo, vai para a cadeia, cumpre pena por algo que nunca fez, para expiar a culpa que não passa de fantasia.

Depois de ter jogado com os cavalos até me encher porque já não havia nada a aprender com eles, passei para os bispos, para as torres e, assim por diante. Cheguei ao ponto de realmente conseguir fazer a maior balbúrdia com os peões. Após ter jogado com todos eles, qualquer peça que fosse necessária passou a ser usada da forma mais apropriada. É por isso que já não jogo mais muito xadrez. Meus adversários me abandonam porque ficam loucos da vida, o que é bobagem. Vejam, eles continuam tentando me vencer de uma forma que julgam ser a deles, que é a forma de todo mundo, em vez de reagir à minha forma conforme a sua própria forma — e quando as pessoas fazem isso, o xadrez se torna muito interessante e excitante. O mesmo se dá com bridge ou tênis.

A pessoa que me ensinou este jogo de paciência, ensinou-me algumas convenções como se fossem regras. A pessoa que ensinou a ela as regras, ensinou as convenções ao mesmo tempo, e nenhuma delas fazia distinção entre as duas coisas. “Distribua as cartas em oito filas” e “Jamais preencha os quatro locais de passagem” foram ensinadas ao mesmo tempo, e colocadas na mesma categoria. Mas, enquanto a primeira é uma certeza, a última é apenas uma probabilidade. Às vezes as probabilidades não conseguem tirar você da enrascada em que se encontra, e então é preciso procurar as possibilidades — o que naturalmente você não poderá fazer se julgar que são impossíveis. Então você fica atolado. E julga que o mundo está contra você, o que de certa maneira é verdade, porém é apenas o mundo fictício das convenções que está contra você. Quando você tenta sair dele, as pessoas berram: “Você não pode fazer isso!” e você tem tanta certeza de que não pode, que provavelmente ficará com medo. Então você fica dentro. E isso prova a todo mundo que não há saída, porque ninguém tentou sair.

Quando alguém quebra uma convenção e se sai bem, as pessoas dizem que teve sorte. Mas ele estava sendo preciso — agindo de acordo com a realidade do momento. Agir em base a qualquer outra coisa é ilusão. Como posso jogar este jogo com base na disposição das cartas na última vez que joguei, ou como poderão estar no futuro? Passado e futuro não tem existência real porque o único tempo em que se pode agir é agora. Pode-se pensar no passado ou no futuro, mas isso não é viver porque se estará pensando sobre eles — não se pode fazer nada em nenhum dos dois.

A Sra. Chumley subitamente percebeu suas andanças no tempo e acrescentou: A menos que se esteja lá — mas então, é claro, se está aqui, o espaço equivalente ao tempo agora.

E aqui, disse ela olhando para as cartas na mesa, está o jogo. É o único que podemos jogar desta vez. Distintamente da maioria dos jogos de cartas, pode-se ver onde cada carta está. Isso é mais parecido com a vida. A gente sempre possui todas as informações relevantes para agir aqui-agora. Quando nos confundimos com futuro e passado e outros lugares, é que passamos a não saber o que fazer. Mas não precisamos nos preocupar com todos os outros tempos e lugares. E, de qualquer maneira, o passado passou, e o futuro sai do presente; então, se fizermos agora a jogada correta, o futuro também sai direito.

A Sra Chumley olhou novamente para as cartas e explicou: Se houver algum ás exposto, ele é colocado em cima, e a partir daí quaisquer cartas que possam ser colocadas sobre o ás, e assim por diante. Não é necessário fazer isto imediatamente, mas é como lavar os pratos: não há mal nenhum em fazer. Algumas cartas são tiradas do caminho, e o jogo fica limpo para o restante.

A seguir, se você vir alguma carta que possa ser colocada sobre outra, deixe para depois. Você ainda não examinou o campo todo. Isso é tentar resolver um problema sem incluir toda a informação relevante que temos à disposição. Provoca-se uma confusão.

Aliás, como este jogo em particular está lhes parecendo? perguntou ela a meia dúzia de pessoas que estavam ao seu redor.

“Sem esperanças”, disse um.

“Impossível”, disse outro.

Um terceiro foi mais cuidadoso: “Não me parece muito possível”.

A mim também não parece, disse a Sra. Chumley. Não é daqueles que parecem fáceis — não que todos que parecem fáceis realmente sejam. Mas se eu pensasse sobre, certamente recolheria as cartas e começaria outro jogo. Então, vou parar de pensar.

Um dos jovens afastou-se da mesa bufando. Um homem mais idoso fez o mesmo, sem bufar porque gostava da Sra Chumley, Uma moça também se afastou bufando, porque gostava do jovem.

Quando paro de pensar, prosseguiu a Sra. Chumley, não tenho qualquer opinião. Isso torna possível um monte de coisas. Quando não tenho opinião, não sinto a necessidade de fazer nada — nem de acabar com o jogo, nem de me debater nele. Simplesmente fico interessada em examiná-lo — sabem, como uma criança pequena que vê a gente pela primeira vez. Ela examina a gente, antes de decidir o que vai fazer. Outra palavra para isso é perscrutar.

Começo ao acaso, notando uma carta, por exemplo, este sete de espadas. Ele precisa cobrir um oito de espadas ou ser coberto por um seis de espadas. Então procuro e localizo o oito e o seis. Localizo — isso é tudo. Não procurem prender-se a eles, porque irão fazer o mesmo com todas as outras cartas, e a parte da mente que você usa para isso não é capaz de guardá-las todas. Então apenas localizo, e fica registrado em algum lugar no fundo da minha cabeça. Quando todas estiverem lá, esse lugar me dirá o que fazer.

“Ei”, disse o jovem que tinha se afastado, aproximando-se novamente da mesa, “Ela está se programando!” A moça voltou e ficou ao lado dele. Ele pensou na maravilha que ela era, sempre movendo-se de acordo com ele. O homem idoso ficou onde estava, com as costas voltadas para os outros; mas estava escutando.

A Sra. Chumley continuou localizando as cartas até ter descoberto quase todo o baralho, e as poucas que não tinha localizado diretamente, apareceram de maneira indireta. Agora, disse ela, tenho a mesa toda na minha cabeça mesmo que não saiba onde cada carta está, e então sei o que fazer embora não saiba nada a respeito. Nem sempre me fez sentido determinado movimento de cartas. Às vezes me sinto uma boba, e às vezes um desastre. Mas o impulso vem de maneira tão segura do computador interno que tenho que fazer. Apesar disso, sem ter a disciplina em primeiro lugar, o impulso vem de outra parte. Então, tudo pode parecer maravilhoso, e termina em confusão.

As cartas moviam-se tão depressa em suas mãos, que ninguém conseguia acompanhar as jogadas; mas nenhum dos presentes, que observavam atentamente, pôde surpreendê-la num erro. E subitamente toda a mesa estava obviamente clara e pronta para ser distribuída pelos quatro montes na parte superior.

“Mesmo que ela tivesse trapaceado, não poderia conseguir!” disse o jovem interessado em programação. “A senhora faria de novo?”

A Sra. Chumley embaralhou as cartas e as distribuiu novamente. Esta parte inicial é um pouco cansativa, disse ela, quando as cartas já estavam sobre a mesa. Quero dizer, até que a gente se acostume e seja capaz de fazê-la instantaneamente. Você quer fazer algo. Você está tão habituado a fazer algo que se sente culpado quando não está fazendo nada. Alguma coisa está errada. Você sente que precisa se mexer. Mas se você estiver realmente em contato consigo mesmo, saberá que não é verdade, o que você realmente teme é que se não se mexer, outra pessoa o fará. A maioria de nós receia o homem que não é cutucado e não faz nada. Isso pode provir das explicações mecanísticas da ciência — uma máquina não é algo auto-regulador e auto-perpetuador: tem que ser estimulada por forças externas, ou então cessará de funcionar. E quando as criaturas vivas são concebidas em padrões mecanicísticos, então nos sentimos obrigados a mantê-las funcionando, e elevar ao máximo a pressão para que funcionem, ou ligá-las novamente no caso de terem parado.

Não é preciso ter medo de parar. Os corações continuam batendo e os pulmões respirando. Ainda assim, quando vocês fazem aquilo que julgam ser uma parada, é tão diferente do que vocês faziam e que sentiam errado — como a menininha que havia sido comprimida por tanto tempo, que quando o médico a esticou ela se queixou: “Você me deixou torta!”

É claro que existe um fazer-nada errado, assim como existe um pensar-nada errado. É isso que torna as coisas tão confusas. Você pode obrigar-se a não fazer nada, pressionando a si mesmo, e isso é errado. Do jeito certo, vocÊ se retira de todas as pressões inclusive de suas próprias. Parece ser um recuo, mas na verdade é só uma redução de velocidade. Se você andar devagar numa rua em que os outros estão correndo, parecerá que está andando para trás — se estiver acostumado a correr.

Enquanto falava, a Sra. Chumley começara a pôr o dedo numa e noutra carta, indicando que as estava localizando com os olhos. Então começou a movê-las, às vezes de uma maneira que fazia sentido aos que observavam, outras vezes não. Então as cartas ficaram todas em ordem, seja nas quatro pilhas no topo, sobre os ases, ou em colunas sobre a mesa, prontas a serem colocadas sobre os ases.

“Nunca falha?” perguntou uma mulher que não havia dito nada até o momento.

Sim, falha, admitiu a Sra. Chumley, que não tinha dificuldade de admitir nada. Então, nunca tenho certeza se o jogo era impossível ou se me enganei — ou se me enganei para perder alguns jogos porque estava cansada de ganhar.

“Cansada de ganhar!” murmurou uma sombra de voz.

O jeito mais fácil de ganhar é não se preocupar, disse a Sra. Chumley. Cada um de vocês deve ter notado isso por experiência própria, uma ou outra vez. Você não se preocupa, diz o que pensa e as coisas saem do jeito que você não pensava que sairiam se dissesse o que pensa. Quando você diz o que pensa e se preocupa, isso pode ser bom, ou pelo menos melhor do que não dizer, mas não é a mesma coisa, ou então leva mais tempo para chegar ao mesmo lugar. O mesmo se dá com o fazer.

Existe também a sorte do principiante. Quando você sabe que não sabe nada, quando não tem uma reputação a manter, quando não está tentando impressionar ninguém, nem a si mesmo — você simplesmente joga, e pronto! Você consegue. Então você tenta repetir, e o tentar já torna as coisas diferentes. Da primeira vez, você não tinha na cabeça quadro nenhum do que iria acontecer. Simplesmente agia inteiro, e a coisa aconteceu e o surpreendeu. Da segunda vez, você tenta produzir o que aconteceu da primeira vez, tentando fazer o corpo agir da mesma maneira. Tudo isso se passa numa parte da sua cabeça que não é muito boa para isso. Se você trabalhar o suficiente, poderá ter exito, mas se desgastará, porque estará usando uma parte sua para forçar outra parte sua, em vez de deixar tudo acontecer através de você inteiro.

Quando você faz algo por simples atração, não se trata realmente de tentar. Você se mexe todo, inteiro, segundo seu próprio plano. Você não interfere consigo mesmo. Quando você tenta, está imaginando as coisas na sua cabeça, ou “fazendo força” para conseguir. Quando você é bem-sucedido agindo desta maneira, o êxito foi obtido apesar disso, e não por causa disso, e você se desgastou no processo. É como fazer funcionar uma máquina sem óleo. Você fica rijo e duro.

Acho que isso tem algo a ver com os nossos dois sistemas nervosos, disse ela. Ela não podia dizer que sabia, porque então teria que explicar o que sabia, e as palavras e conceitos que podiam ser usados para uma explicação adequada ainda estavam no futuro, aqui. Então teve que falar vagarosamente, sem precisão.

Os nossos dois sistemas nervosos na verdade são um só, disse ela, porque trabalham juntos. Tentar separá-los e como separar carne e sangue. Um deles faz o nosso coração bater e os nossos pulmões respirar, quer desejemos ou não. Ele age por si só, como o computador interno. Fritz usa “computador” para se referir à mente planejadora ou planificadora, da qual posso facilmente tomar consciência; é aquela mente do “pensar”, do eu-computador, aquela que eu posso usar. Esta é a outra, é aquela que age basicamente de acordo com as nossas intenções. Algumas pessoas a usam para pintar ou assar bolos ao acaso. Não percebem o absurdo de ser intencionalmente “espontâneo”. Absurdo? Isso é impossível. Da mesma forma como dizer “estou sendo espontâneo.”

Quando esta mente age demais ela interfere com a outra, em vez das duas funcionarem adequadamente de uma maneira que sabem e não sabem. Quando eu “me afasto disso” ou “não tenho desejos”, não o faço inteiramente. Ainda estou interessada. Mas não super-interessada. E eu inteira funciono da maneira que fui feita para funcionar. Então, um sistema me mantém em contato com o tempo e o consciente, e o outro com a ausência de tempo e o inconsciente, e eu estou no meu lugar — tudo de uma vez. Harmonia e precisão juntas. Fazer distinção entre negócios e arte é tolice, disse ela. Tudo depende de como se faz.

E então suspirou, o que não costuma fazer com frequência, mas aqueles dois jovens ao seu lado pensavam que sabiam o que é o amor, e estavam afundando nele, esquecendo-se do mundo e de tudo.

ESCUTEM! disse ela, tão bruscamente que assustou a todos, exceto Anne, que entendeu. Cada um, exceto Anne, trocou os sons que ouvia por algo que deveria ouvir, perdendo a sinfonia de som, de cantos de pássaros, motores, respiração, farfalhar, arranhar, murmurar, um ronco ou golpe ocasional — perdendo também o silêncio atrás de tudo isso. Mas o silêncio de Anne e da Sra. Chumley continuou, primeiro cercando os outros, então invadindo-os até que eles se tornaram sendo eles próprios. Eles eram e sabiam que eram simultaneamente os átomos giratórios com vasto espaço no meio, e pessoas que podiam ser tocadas, sentidas e percebidas. E então, a sinfonia se ouviu. Houve amor na sala, amor sem fronteiras ou dimensões ou limitações, cada pessoa inesperadamente e maravilhosamente ela mesma.

Os olhos do jovem estavam um pouco turvos ao dizer para a moça: “Eu pensei que sabia…”

E ela respondeu: “Eu sei… Eu também pensei que sabia.”

O homem idoso disse suavemente: “E um relógio parou… e soube o significado do tempo.”

STEVENS, Barry, 1902 — Não Apresse o Rio: ele corre sozinho. São Paulo: Summus, 1978 — 11 páginas (265–275).

    Marcelo Justo

    Written by

    marcelo@produtorainside.com | Pesquisador de CNV | Facilitador de Experiências de Autoconhecimento

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