Lótus
São mágicos esses momentos — e tão raros — em que as palavras se manifestam por elas mesmas. Toda a consciência parece compreender mais do que apenas seus simples significados: há criação, movimento, existem motivos e propósitos. Sei que é da natureza da consciência construir os seus próprios entendimentos, mas a vida é deveras breve para que tanto pulsar seja impedido de florescer. Quero o entregar-me e o apropriar-me; encanto-me com a unidade dessa possibilidade — do eterno balanço entre o Ser e o não-Ser, da contração e da expansão do Universo que me habita. Vou me desfazendo e me fazendo, pois, lentamente, rapidamente. Deste momento, apenas sinto o branco infinito destilar-me com sua magia enquanto sigo indo (e me pergunto do lado de cá se as palavras também simplesmente brotam para o branco infinito e ele se permite Ser através de mim?!).
Dia desses observava a profundidade de olhos que me viam. Como são diferentes olhos assim, capazes de ver, você percebe? São tão vivos e profundos e íntimos e desconhecidos. Talvez sejam portais, tão raros como esses momentos em que as palavras nos tiram para dançar. Mas mais interessante do que isto é saber, mesmo assim, enquanto vou-me, que essas palavras não se tratam apenas de olhos que vêem. Geralmente os dizeres também se equilibram (como nós) entre dois mundos. Além de raras, estas palavras também parecem ser obstinadas, corajosas…
Sempre quis desvendar os dias e viver justamente daqui, a partir deste ponto interno. Sei agora que existem mil sensações que por tão intensas acabam não se concretizando em sentimentos — só há o sentir e essas palavras. É óbvio que estou entre eles, e talvez por isso sinta tanto esse pulsar… Mas é aqui onde desejo estar porque é aqui onde abundam-se essas palavras conscientes que simplesmente me levam.
Quando criança fantasiava que enxergava justamente essa vida que hoje vivo. Agora, diante de meus olhos sinto o ar revelar-me a inexistência da distância e da separação (só existe interligação e interdependência e unidade). No vento, eu e o passado somos Um. Os olhos que enxergam sabem disso. E parece que virão mesmo todos os sonhos à tona antes do eterno se manifestar! Pois que venham, estaremos inteiros a recebê-los, de olhos bem abertos. Pois que venham, o riso e a lágrima.
Sei agora que sempre trouxe a realidade de dentro para a realidade de fora, como se fosse do avesso! Ainda me é novo achar-me assim, tão aqui, inteiro (de dentro e do lado de dentro). Mas sei que vi os olhos novamente — e me vi neles, vejam só. Além de testemunhar essas palavras e de enxergar os olhos que enxergam, tenho outra função aqui, agora: abrir-me.
Talvez apenas o silêncio possa compreender e reconhecer a profundidade desse anseio. Desejo a fragrância que dessa abertura pode se expressar e a vida que reside madura dentro de mim. O mistério me cativa e me convida a ir além. Meu coração novamente pulsa à flor da pele. Que seja doce!
