Em videoclipe de animação, Jay-Z faz crítica aos cartoons racistas do século passado

Faz algumas semanas que 4:44, o novo álbum do rapper e produtor Jay-Z (agora com hífen), é um dos mais vendidos dos Estados Unidos, posicionado em primeiro lugar no Ranking BillBoard 200.

O lançamento conta com 10 composições que abordam assuntos sociais, em especial o preconceito racial, e também questões pessoais de Jay-Z. A faixa-título, por exemplo, revela fatos sobre sua relação com a mulher, Beyoncé. Coisa de celebridades…

Sobre o repertório, a Revista Rolling Stone fez um guia faixa a faixa, trazendo detalhes de cada canção. Veja aqui

Umas das frentes de divulgação do álbum é o videoclipe da música The Story of O.J., que já tem desde 5 de julho, quando foi postado, 21 milhões de visualizações. E é no clipe que quero centralizar este texto.

A canção apresenta um Jay-Z preocupado com os efeitos do racismo na história dos EUA, o que pode também ser um bom comparativo com o Brasil.

No vídeo, existem várias referências a fatos históricos e revoltantes, como enforcamento, segregação no transporte público e a Ku Klux Klan. E também a personagens importantes na luta pelos direitos dos negros, como a cantora Nina Simone e o cofundador do movimento Panteras Negras Huey P. Newton.

Há um texto postado no site Café Criativo, que é uma tradução de outro produzido pela Revista Dazed, descrevendo todas as referências usadas pelos diretores (o próprio rapper em parceria com Mark Romanek) para ilustrar o clipe. Veja aqui

Refrão da música The Story of O.J.:

Light nigga*, dark nigga, faux nigga, real nigga.

Rich nigga, poor nigga, house nigga, field nigga.

Still nigga, still nigga.

(Tradução: Negro claro, negro escuro, negro artificial, negro de verdade. Negro rico, negro pobre, negro doméstico, negro do campo. Ainda negro, Ainda negro) .

Mas o mais interessante de The Story of O.J. é seu formato. Trata-se de uma animação em estilo retrô, em preto e branco, que, além de ser uma tendência — os recentes clipes do Moby confirmam isso –, se mostra como elemento central da narrativa.

Os traços dos desenhos por si são críticos à sociedade racista, pois são inspirados nos cartoons produzidos por grandes estúdios na primeira metade do século XX. Essas animações apresentavam vários discursos discriminatórios em suas imagens e enredos.

Não vou repetir todas as inspirações. O texto referenciado acima explica bem. Mas muitas delas são conhecidas para quem viveu sua infância nos anos 1980 e 1990, quando alguns desses mesmos cartoons ainda passavam em programas infantis da época. Entre as referências estão a cena de um menino comendo melancia, outra mostrando pessoas negras preguiçosas, além de esteriótipos bem conhecidos, como o do Uncle Tom, que é um personagem originado do livro Uncle Tom’s Cabin, publicado em 1852. A figura de Tom ficou marcada por representar um escravo doméstico submisso aos patrões. Outro esteriótipo é o da Mammy, uma senhora vestida como empregada doméstica e esfregando roupas. Lembram dos personagens Tio Barnabé e Tia Anastácia do Sítio do Picapau Amarelo?

Videoclipe é um gênero audiovisual híbrido e funciona como uma tradução, em imagens, da música. Também serve como peça promocional para o trabalho do artista. Mas The Story of O.J. traz um significado maior em sua construção, enriquecendo com informações visuais — a partir de uma animação inspirada em outras animações pontuadas no tempo — o assunto tratado pela música.

A escolha não é gratuita e nem presunçosa. É parte do que Jay-Z quer expor. Ponto para o músico.

Animação que exemplifica o modelo que inspirou o videoclipe de Jay-Z:

*Nigga é um termo considerado historicamente ofensivo para se referir a afrodescendentes. Porém tem sido utilizado entre rappers, como é o exemplo desta música).

Marcelo Kenne Vicente

Written by

Sou Jornalista e neste perfil escrevo sobre cinema, música, literatura e cultura em geral. Também abordo outros assuntos. Esse é um espaço para experimentação.

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