Febre de juventude

[Guns N’ Roses — Use Your Illusion I & II]

Texto original publicado em @1991music

O Guns N’ Roses era um fenômeno no mundo inteiro no início dos anos 1990, e aqui no Brasil a paixão pela banda lembrava o movimento, de três décadas antes, conhecido com invasão britânica (quando chegaram nos Estados Unidos os grupos ingleses sessentistas, a começar pelos Beatles).

Não havia sala de aula onde não houvesse uma ou mais classes rasuradas (reprovável, é claro) com a sigla GNR ou com o desenho de armas e rosas. Paredes e muros não eram poupados e até em camisetas e mochilas se pintava artesanalmente os símbolos da banda.

Esse entusiasmo aumentou no período próximo ao Rock In Rio II, realizado em janeiro de 1991. Foram duas apresentações inesquecíveis, tanto para o público como para os músicos, pois sentiram ali a adoração dos brasileiros por eles.

Quando se falava em Guns naqueles dias, sempre aparecia alguém, com ar de superior, dizendo-se fã da banda bem antes de todo mundo ou que não gostava mais do grupo por ter se tornado comercial. Para quem curtia hard rock, Axl Rose e companhia realmente não poderiam ser chamados de “novidade”. E mesmo a gurizada mais ligada em outros estilos já incluía algumas canções do GNR como as preferidas. Se não fosse assim, o Maracanã não teria lotado nas duas noites, né?

Desde 1989, as músicas do Guns N’ Roses já estavam entre as mais tocadas nas rádios comerciais. Hoje, é estranho pensar em “Sweet Child O’ Mine” dividindo espaço nos Top 10 com singles do Technotronic e New Kids On The Block ou até mesmo Kaoma (Chorando se foi…). Aliás, “Sweet Child O’ Mine” estava no álbum internacional da novela o Sexo dos Anjos, veiculada pela TV Globo em 1989. “Patience” também fazia parte de trilha de outra novela da Globo, da mesma época: “Que Rei sou Eu?”. O cinema era mais uma mídia que já apresentava a banda ao público brasileiro, com “Knockin’ On Heaven’s Door” fazendo parte da trilha do filme Dias de Trovão, de 1990, estrelado por Tom Cruise.

E assim funcionava: tendo principalmente “Patience” e “Sweet Child O’ Mine” como âncoras, as pesquisas pelas demais canções presentes nos álbuns Appetite for Destruction e GN’R Lies cresciam muito. “Used To Love Her” foi outra ouvida em todo o canto, a qualquer momento.

Então, veio setembro de 1991 e, com ele, o lançamento oficial — muito esperado pelo planeta inteiro — não de um, mas de dois discos do Guns N’ Roses: Use Your Illusion I e Use Your Illusion II, que traziam um total de 30 músicas. O álbum duplo gerou uma grande correria às lojas para adquiri-lo, sendo vendidas, somando-se o I e o II, cerca de 1 milhão de cópias ainda no primeiro dia.

As gravações começaram em 1990 e, após a sua finalização, a banda saiu em turnê divulgando o novo álbum em shows, como aperitivo aos fãs. Era uma surpresa um número tão grande de canções, mudança significativa em relação aos trabalhos anteriores. Chegou-se a comparar, exageradamente, o Use Your Illusion I e II com o Álbum Branco, dos Beatles, e além da quantidade de músicas, o Guns promoveu algumas experimentações para além do hard rock e exploraram estilos diversos. Foi um período de muita criatividade, ao mesmo tempo em que ocorriam problemas nos bastidores, como as brigas e o excesso no consumo de drogas, levando, por exemplo, à substituição do baterista Steven Adler por Matt Sorum, ex-integrante do The Cult (das clássicas “She Sells Sanctuary” e “Love Removal Machine”. Se não conhece, ouça).

Em Use Your Illusion I e II são encontrados novos elementos, como gaita de boca, piano, efeitos sonoros (não tão novos) e até coral e orquestra. “November Rain” é um grande exemplo dessa novidade. As letras continuaram, em boa parte, carregadas de temas como drogas, sexo e machismo (infeliz e ultrapassado), mas também com histórias mais românticas e letras de protesto, como em “Civil War”.

Use Your Illusion I: a chuva de novembro

A primeira música Use Your Illusion I, “Right Next Door To Hell”, é um hard rock de primeira, bem ao estilo Guns, com Axl entrando com tudo num vocal imponente. A partir de 2:00, a guitarra toma conta. Depois, vem uma das minhas preferidas, “Dust N’ Bones”, com vocal de Izzy Stradlin e trazendo um blues estradeiro e um refrão que pega: “Sometimes these things they are so easy. Sometimes these things they are so cold”. A terceira, “Live And Let Die”, é a releitura da clássica de Paul McCartney, faixa também inserida na programação das rádios comerciais.

A quarta do álbum é a bela e famosíssima “Don´t Cry”, uma balada romântica que ganhou a atenção do público não muito adepto ao som pesado das guitarras, assim como “Patience” já havia conseguido. O videoclipe virou referência e ainda contou com a participação do vocalista Shannon Hoon, do Blind Melon. “Don´t Cry” aparecia muito na TV, só sendo superado por “November Rain”. A inspiração para o roteiro do vídeo, assim como os das canções “November Rain” e “Estranged” (do II) veio do conto “Without You”, do escritor norte-americano, Del James. Inclusive, o autor se inspirou no relacionamento de Axl com sua ex-mulher, Erin Everly, para escrever o texto.

Na seguinte, “Perfect Crime”, o Guns volta ao hard rock tradicional. Energia interrompida logo após pelo blues “You Ain’t The First”, outra cantada por Izzy Stradlin. Ainda nesse clima começa “Bad Obsession”, com uma gaita de boca, lembrando algo como Aerosmith e Rolling Stones e confirmando, ali, algumas das diferenças de estilo propostas no novo trabalho.

A próxima faixa, “Back Off Bitch”, assemelha-se a “You Could Be Mine”, mas sem a mesma qualidade. E a letra é um pouco fora da casinha. Na sequência, rola bateria a toda em “Double Talkin’ Jive”, mais uma com Izzy no vocal. Atenção ao solo de guitarra em 01:22.

Aí vem a balada que talvez tenha gerado mais “suspiros” na geração rock anos 1990. “November Rain”, pensada por Axl desde a década anterior, surgiu para confirmar a maturidade do Guns. A diversidade musical presente vai desde o piano a la Elton John, passando pelo coral e pela inserção de elementos de orquestra. Tudo isso conectado ao videoclipe arrasa quarteirão, de deixar Michael Jackson com inveja. Era incrível o quanto se falava sobre o vídeo. Lançada em 1992, “November Rain” está entre as mais ouvidas até hoje.

A seguir, Alice Cooper é o convidado a cantar com a banda a música “The Garden”. Após, com um vocal acelerado, começa “Garden Of Eden”, outra das canções do Use Your Illusion I e II que ganhou videoclipe. “Don’t Damn Me” continua com o hard rock para os puristas. Loucura a guitarra a partir de 03:34.

O peso continua com “Bad Apples”, muda com o som acústico do início na faixa “Dead Horse”. A última do Use Your Illusion I é a longa “Coma”, apresentando algumas variações melódicas e muitos efeitos sonoros.

Use Your Illusion II: o que temos aqui é uma falha de comunicação

Tenho dúvidas de qual é a minha música preferida do Gun N’ Roses, mas estou certo de que “Civil War” está entre as três melhores, talvez ao lado de “Sweet Child O’ Mine” e “You Could Be Mine”. Lembro de quando escutei pela primeira vez e achei muito legal aquela entrada com uma voz falando “What we’ve got here is a failure to communicate…”. Imaginava que era o próprio Axl falando, mais tarde fui corrigido por textos da época e por uma apresentação do Oscar, que mostrou a interpretação do ator Strother Martin, no filme Rebeldia Indomável (de 1967), estrelado por Paul Newman. “Civil War” tem uma letra bem interessante, um manifesto contra a violência promovida pelas guerras.

Na sequência, Izzy canta “14 Years”, um rock mais suave, similar a “Dust N’ Bones”. Essa calmaria continua com o hit “Yesterdays”, antecipando a quarta faixa: “Knockin’ On Heaven’s Door”, cover da antiga obra de Bob Dylan.

Divulgada bem antes do lançamento de Use Your Illusion II, conheci essa música assistindo ao Rock In Rio e pelo trailer do filme Dias de Trovão.

A próxima, “Get in the Ring”, é um discurso em tom de ameaça de Axl contra alguns profissionais da crítica especializada. É mais uma das ocasiões nada exemplares do músico. Há muitas, é bem verdade. Não é porque nós gostamos da obra artística dos caras que precisamos aceitar tudo, certo? A música seguinte, “Shotgun Blues”, parece ser uma continuação dessa de fúria de celebridade. Então, “Breakdown” chega para acalmar um pouco os ânimos, voltando àquela ideia do rock n’ roll mais suave.

A oitava, “Pretty Tied Up”, começa com uma cítara, mas logo volta ao peso tradicional do Guns. Logo após vem a ótima Locomotive, com uma mudança interessante de ritmo em 06:30. Ela antecipa os hits “So Fine”, cantado por Duff McKagan, e “Estranged”. Ambas seguem aquele modelo mais pop, sem muito peso e com uma ar de balada romântica. “Estranged” é uma canção bem fácil de escutar e gostar, especialmente seu final.

A faixa de número 12 é um dos momentos mais brilhantes de Use Your Illusion I e II. “You Could Be Mine” foi lançada em junho de 1991 na divulgação do filme Exterminador do Futuro II, de James Cameron, um sucesso de bilheteria contando com Arnold Schwarzenegger no papel principal. Essa convergência resultou em um apoio mútuo: o Exterminador ajudava a potencializar comercialmente a música e o futuro álbum, que por sua vez faziam o mesmo com o filme. Recordo-me do dia da divulgação do single, com as rádios tocando-o a toda hora, porque além de toda a apelação midiática era uma música muito boa mesmo. “You Could Be Mine” já havia sido apresentada em shows ao vivo da banda, também no Rock In Rio, mas sua versão em estúdio não deixou dúvidas de sua qualidade.

Depois dessa obra-prima, repete-se o single “Don’t Cry”, mas com uma letra diferente. No final do disco, uma experimentação: “My World”, inspirada no rap, mas sem o talento de quem sabe criar nesse gênero.

Isto é rock n’ roll

Uma coisa é certa: a performance do Guns N’ Roses naqueles anos fez com que o metal se tornasse popular entre os brasileiros. A banda serviu de base para muita gente começar a gostar de rock, buscar referências do estilo no passado e preparar os ouvidos da gurizada às novidades, como os grupos de Seattle.

Embora eu considere que Use Your Illusion II tenha duas das melhores músicas da trajetória do GNR — “Civil War” e “You Could Be Mine” –, acho o conjunto da obra do Use Your Illusion I mais sólido. De qualquer forma, os dois estão entre os grandes álbuns da história do rock. Infelizmente, depois deles, o Guns N’ Roses se perdeu e não conseguiu mais produzir algo tão criativo como no período entre Appetite for Destruction e o duplo de 1991. “Cause nothin’ lasts forever”.

Marcelo Kenne Vicente, jornalista

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