Mergulhando nas águas profundas de Twin Peaks

A sala vermelha, o maior símbolo do surrealismo da série (imagem Netflix)

Há uma frase do cineasta David Lynch, descrita no livro Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação, lançado por ele em 2008, afirmando que “Ideias são como peixes. Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Se quer um grande, terá que entrar em águas profundas.” Nela, Lynch está se referindo à criatividade para produzir coisas novas, mas esse é um mantra que pode muito bem ser usado por qualquer pessoa que assiste às suas obras. Seja o filme Eraserhead (de 1977), passando por Veludo Azul (de 1986) até o meu preferido Cidade dos Sonhos (de 2001), a boa recepção depende da disposição em “mergulhar nas águas profundas” criadas pelo diretor. É como ler um livro com uma escrita densa em que você precisa ter paciência nas primeiras páginas para poder entender a forma como o autor constrói a história.

Com Twin Peaks não foi diferente. Muito já se falou dessa inovadora série de Lynch, criada em parceria com Mark Frost, que conseguiu aliar um potencial enorme como produto comercial de TV com um universo repleto de elementos oníricos, surreais e bizarros, típicos dos trabalhos de diretor.

As duas temporadas veiculadas em 1990 e 1991 ajudaram a criar um fascínio do público pela mitologia em volta de Twin Peaks, alimentado também por outros produtos midiáticos. Há os livros O Diário Secreto de Laura Palmer, de 1991 (escrito pela filha de David, Jennifer Lynch), o livro Dale Cooper: Minha Vida, Minhas Gravações, também de 1991 (de autoria de Scott Frost, irmão de Mark), Twin Peaks: Arquivos e Memórias, de 2014 (escrito por Brad Dukes) e o recente A História Secreta de Twin Peaks (do própio Mark Frost). Além disso, tem o filme de 1992, Os Últimos Dias de Laura Palmer, dirigido por Lynch e que não conseguiu nem sucesso comercial nem de crítica.

Série, filme e livros se conectam como uma narrativa única, relatando acontecimentos que influenciam no enredo da temporada 3. O diário de Laura Palmer é um exemplo: páginas arrancadas do livro são encontradas na temporada atual.

Para quem não conhece a história

Laura Palmer diz no final da segunda temporada: “Vejo você novamente em 25 anos” (imagem Netflix)

(com spoiler)

Twin Peaks é uma cidade pequena do Estado de Washington, nos Estados Unidos, que se vê abalada pelo assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee), uma jovem bonita e popular. Todo mundo se conhece em Twin Peaks e, ao longo da história, percebemos que os personagens ou têm algum segredo pessoal, ou realizam uma atividade ilícita ou são estranhos por si só, como a Margaret — a senhora do tronco –, interpretada por Catherine Coulson, e a excêntrica Nadine, vivida por Wendy Robie.

O agente especial do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é deslocado para a cidade a fim de descobrir quem matou Laura. Cooper se diferencia por ter um modo diferente de trabalhar e é sacudido por um sonho muito estranho: ele se vê numa sala vermelha, que ficou conhecida como Black Lodge e é uma espécie de portal para outra dimensão. Ali, ele conversa com pessoas (até com Laura) que indicam caminhos nos quais poderá seguir para solucionar o caso.

Na segunda temporada é descoberto o assassino de Laura, mas os mistérios relacionados aos outros personagens e às forças ocultas continuam presentes em Twin Peaks e servem de gancho para o retorno da série em 2017. No último episódio de T2, Cooper sonha com Laura Palmer que diz a ele: “Vejo você novamente em 25 anos”.

Para quem quiser fazer uma retrospectiva (ou para quem ainda não conhece nada da série), o jornalista Rodrigo de Oliveira, da Rádio Unisinos FM, traz na edição de junho da revista digital Almanaque21, que é editada por ele, detalhes sobre a série. Há resenhas de cada um dos 30 episódios das temporadas 1 e 2, um resumo sobre os personagens e também uma crítica do filme de 1992. Clique aqui para acessar.

Twin Peaks: The Return

Mesmo após 25 anos, há questões mal resolvidas em Twin Peaks (imagem Netflix)

(sem spoiler)

Já estamos no episódio número 15, dos 18 previstos para a terceira temporada (ou Twin Peaks: The Return), lançada pelo canal norte-americano Showtime e disponível no Brasil pela Netflix, com atualização sempre às segundas-feiras. E o que já se via de onírico, bizarro e surrealista nas duas primeiras partes foi intensificado consideravelmente.

Após 25 anos, muitos dos antigos personagens permanecem na cidade, Black Lodge continua com força e Cooper agora tem um Doppelgänger (uma réplica do mal). Foram inseridos novos personagens, como Janey-E (Naomi Watts) e Diane (Laura Dern). Essa última tinha, nas temporadas anteriores, seu nome citado frequentemente nas gravações de áudio feitas por Cooper. Ela era um tipo de secretária dele.

Num primeiro momento tudo parece estranho demais em The Return, sendo necessário, como descrito anteriormente, paciência e entrega. É inegável a qualidade de Twin Peaks, com seus simbolismos e fotografia magnífica. Porém, no que diz respeito ao roteiro, alguns dos episódios e cenas parecem arrastados e pequenas tramas dão a impressão de que não evoluem.

A história não ocorre somente no núcleo de Twin Peaks, mas também no governo norte-americano, Las Vegas, Dakota do Sul e Nova Iorque. David Lynch está no papel do diretor do FBI, Gordon Cole, e seus diálogos com o agente Albert (Miguel Ferrer), durante a investigação sobre o desaparecimento de Cooper e a missão Rosa Azul (relacionada ao não natural), são um dos pontos altos e cômicos da trama.

Albert e Gordon Cole protagonizam momentos de humor na série (imagem Netflix)
Cena do 8º episódio (imagem Netflix)

Até agora, o 8° episódio foi o mais surreal de todos, sugerindo através de imagens e uma narrativa desconexa como teria nascido o universo de Twin Peaks (não é spoiler, é interpretação minha). A partir da segunda metade da temporada as pequenas tramas parecem começar a se relacionar, colocando o telespectador finalmente com os “pés no chão”, apesar da lentidão narrativa permanecer.

Esses ciclos que se fecham podem ser um fator tranquilizador, mas também geram uma sensação de frustração por saber que tudo será resolvido às pressas nos últimos episódios. Ou não serão resolvidos?

Novidades da T3 são as apresentações musicais dentro da história. Na imagem, a banda Chromatic (imagem Netflix)

A máxima “Só sei que nada sei”, de Sócrates, é bem apropriada para quem assiste a Twin Peaks. A receita é: senão quiser se esforçar para entender, melhor desistir. Caso consiga assimilar, ficará viciado.

Veja o trailer:

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Marcelo Kenne Vicente

Written by

Sou Jornalista e neste perfil escrevo sobre cinema, música, literatura e cultura em geral. Também abordo outros assuntos. Esse é um espaço para experimentação.

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