O Cidadão Ilustre: uma jornada difícil, mas cômica, à cidade natal

Divulgação Cineart

O cinema argentino sempre gera boas expectativas para nós, brasileiros, pois nos acostumamos a admirar os ótimos filmes produzidos no país vizinho, como A História Oficial, O Segredo dos Seus Olhos, O Filho da Noiva e por aí vai. Esse por si só já é um atrativo para que a recente produção hispano-argentina O Cidadão Ilustre, dirigida por Gastón Duprat e Mariano Cohn (O Homem ao Lado, de 2009) ganhe espaço nas salas de cinema de todo o Brasil. De início, pode-se dizer que o filme, lançado em 2016, representante de seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano e vencedor do Goya de melhor produção ibero-americana, é de menor em qualidade se comparado a alguns de seus antecessores, embora não deixe de ser interessante.

Dividido em capítulos, como um livro, O Cidadão Ilustre começa com o escritor argentino Daniel Mantovani, vivido pelo ator Oscar Martínez, recebendo sem entusiasmo o prêmio Nobel de Literatura. No seu discurso, durante a cerimônia de premiação, ele já demonstra sua autenticidade e autossuficiência aos fazer pouco caso da homenagem, afirmando que um artista deve questionar e sacudir a sociedade, o que não combina com ganhar um prêmio glamoroso como o Nobel.

Mantovani é reconhecido mundialmente pelo seu trabalho e vive uma vida confortável e sofisticada em Barcelona, na Espanha. E entre os muitos convites para eventos dos mais diversos, ele recebe uma carta enviada pelo prefeito da cidade de Salas, no interior da Argentina, povoado onde nasceu e viveu sua infância. Na carta, é convidado a visitar a cidadezinha a fim de ser homenageado como cidadão ilustre do município. Após um desdém inicial, ele toma a decisão de voltar após décadas à Salas, que aliás sempre serviu de inspiração para seus livros. É como diz Tolstói,”Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

O protagonista é um profissional bem-sucedido que é homenageado e volta às suas origens, buscando algo que parece faltar em sua vida. Um argumento que faz lembrar Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, e o nem tão clássico Desconstruindo Harry, de Woody Allen.

Ao chegar na cidade, Mantovani é bem recebido. Porém, após um concurso de pintura em que é jurado e faz escolhas não aceitas por um dos artistas locais, inicia-se um conflito entre ele e os habitantes de Salas, potencializado pela diferença entre o provincialismo da população e o cosmopolitismo do escritor. A disputa fica ainda maior quando os moradores — a maioria não conhece os livros de Mantovani — descobrem que o artista usa de modo negativo Salas e seus cidadãos como inspiração.

Escrito por Andrés Duprat, irmão do diretor Gastón, O Cidadão Ilustre tem como mérito o roteiro inteligente e o bom humor empregado na maior parte das cenas. As imagens da cidade, com pouca luz, casas antigas, fachadas com pinturas desgastadas, ruas esburacadas e gramados mal cuidados fortalecem as características interioranas e desconectadas de Salas com o restante do mundo, ou pelo menos o mundo com o qual Mantovani se acostumou a viver. Como adicional, a utilização da câmera em movimento oferece um caráter documental à narrativa, como se uma produtora audiovisual estivesse acompanhando o escritor na sua volta ao passado.

Oscar Martínez interpreta muito bem o protagonista, revezando momentos de simpatia e admiração com outros de arrogância e insensibilidade. E no meio do bang-bang entre Mantovani e seus conterrâneos, em diferentes momentos da história o escritor dá discursos ressaltando sua paixão pela arte verdadeira e pela cultura. Esse parêntese ficou bem costurado dentro da narrativa.

A expectativa gerada por O Cidadão Ilustre ser uma produção argentina reconhecida em festivais de cinema não é frustrada, já que o filme é agradável e desperta nossa curiosidade durante a difícil, mas cômica, jornada do escritor em sua cidade natal.

O Cidadão Ilustre

Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn
Roteiro: Andrés Duprat
Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio, Belén Chavanne, Julián Larquier Tellarini
Ano: 2016
Duração: 118 min 
Nacionalidade: Argentina e Espanha

Assista ao trailer:

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