“O maior nome da música popular brasileira”

Imagem Wikipedia Creative Commons

O título escolhido para este texto é uma brincadeira que Belchior gostava de fazer consigo e com os fãs, devido ao seu extenso e polposo nome: Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Este artista, orgulhoso de ser “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes…”, nos deixou no último final de semana aos 70 anos de idade, após um longo período no qual preferiu se distanciar do show business.

Depois dos anos de sucesso, com canções como Medo de Avião, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, resolveu se afastar dos holofotes, sem explicar por qual motivo (problemas de família, dívidas ou cansaço mesmo). Há pouco tempo, seu nome voltou à tona não porque compôs algo novo, mas justamente pelo mistério que vinha entorno de seu distanciamento da mídia. Em seus últimos dias de vida, morou em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, depois de ter andado por vários municípios gaúchos em busca de não se sabe bem o quê. Talvez somente da paz de espírito tanto enfatizada em suas letras.

Ao longo de sua carreira, Belchior criou belas músicas repletas de palavras sensíveis, que expunham a personalidade singular do artista. De origem humilde, “…vindo do interior”, ele se tornou um pensador urbano com um toque de erudição, trazendo em cada verso pensamentos de liberdade e desapego às coisas materiais.

Há quem não goste da voz de Belchior. Eu mesmo prefiro algumas de suas canções interpretadas por outras pessoas, mas isso está longe de diminuir sua relevância na música brasileira.

Comecei a tomar conhecimento de sua obra lá pelos 15 anos de idade ao ouvir Como Nossos Pais, interpretada por Elis Regina. Um conjunto de versos tocantes, como estes:

“Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais.”

Numa mesma canção há um turbilhão de ideias libertárias e reflexões sobre nossa postura em relação às mudanças que cada época impõe, elementos reforçados na música Velha Roupa Colorida:

“Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer.”

Belchior saiu de cena na última semana, mas sua obra está aí disponível para todos nós apreciarmos. Não é o maior, mas é um dos grandes, e não há nada de antigo em suas composições, pois liberdade e paz de espírito são assuntos atemporais.

Assista ao vídeo com uma entrevista de Belchior no programa Ensaio, da TV Cultura, em 1992: