Ei, vamos tirar uma selfie?

(Fonte das imagens: Reprodução/PhotoBlog NBCNews, edição própria)

Antigamente, tirar uma foto chegava a ser algo ritualístico. Primeiro, era preciso verificar a quantidade de filme na máquina, que por si só já delimitava a quantidade de fotos que iriam ser tiradas. Em seguida, as pessoas posavam felizes para tirar a fotografia, que só poderia ser vista após a revelação; caso quisessem ver a foto outras vezes, bastava folhear os álbuns em que eram guardadas. Com o advento da fotografia digital (que elimina a limitação imposta pela fotografia analógica), ainda existia uma certa tradição: reunir familiares ou amigos diante uma tela, seja de computador ou televisão, para mostrar as fotografias de festas, viagens ou eventos importantes.

Porém, o novo paradigma da sociedade promoveu uma alteração nessa tradição que, aos olhos do sociólogo Bauman, pode ser vista como a transformação de algo sólido (um ritual, uma tradição) em algo líquido (fluído, momentâneo). Não é mais necessário revelar, tão pouco reunir os amigos ou folhear álbuns em uma reunião de família, para ver uma fotografia. Com o surgimento das mídias sociais e novas plataformas de comunicação instantânea, bastam apenas likes e retweets para que a foto alcance pessoas de diversas regiões do mundo. Por um lado, essa disseminação rápida e abrangente de conteúdos é eficaz, pois encurta as distâncias físicas e permite compartilhar experiências independente do lugar onde se esteja. Ao mesmo tempo que as distâncias se encurtaram, paradoxalmente essa nova realidade também nos distancia, principalmente em um grau emocional e afetivo. Os momentos em que a família se reunia com um álbum no colo e fotos para contar histórias passaram a ser raros.

Tudo é rápido, mutável e fluido.

Onde ainda havia uma tradição ritualística de relevar a foto, montar um álbum e reunir pessoas queridas para apreciar o conteúdo exposto na fotografia, agora dá vazão para algo mais efêmero, vazio. Passamos a medir a experiência por visualizações e likes ao invés do que ela de fato representa. Antigamente, uma fotografia de um grupo de amigos era motivo para reunir pessoas queridas, desencadeando em um encontro que poderia render boas histórias e provocando uma sensação compartilhada de nostalgia entre os envolvidos.

Hoje, em grande parte dos casos, a imagem serve como mero instrumento de autoafirmação, promovendo uma exposição exagerada que nos faz questionar até que ponto a quantidade likes pode influenciar no comportamento de um indivíduo perante a sociedade em que vive.

A linguagem do Instagram como um reforço a necessidade de exposição

Tratando-se da relação entre fotografia e sociedade, o Instagram é a rede social que melhor serve para analisarmos essa nova realidade. Essa mídia social, que possui um todo de 400 milhões de usuários (dentre os quais 29 milhões são brasileiros), consiste exclusivamente na publicação de fotografias em um perfil próprio e os demais usuários da rede podem (caso a pessoa torne seu perfil público), curtir e comentar as imagens. Em conjunto com a criação de um álbum próprio, é possível enviar suas fotos para álbuns mais amplos e mundiais, utilizando as famigeradas hashtags (#).

O intuito dessa rede, conforme o próprio Instagram aponta, é “tornar-se a casa de storytelling visual para todos, desde celebridades, redações e marcas, até adolescentes, músicos e qualquer pessoa com uma paixão criativa.” (Tradução livre direto do site oficial do app) Essa proposta tem como intenção dar aos entusiastas e amantes da fotografia um lar para expor sua paixão por essa arte. Porém, diferente do que se espera, os termos utilizados nessa rede social nos induzem a crer que esse compartilhamento de fotografias desvia um pouquinho do sentido puro da expressão artística, da arte pela arte.

É comum ver expressões como “SDV” (Sigo de Volta), “troco likes”, “10 likes pra curtir minha última foto” e até mesmo um pedido explícito de “me sigam, por favor! Sigo de volta”. Ou seja, diferente do que é proposto pelo Instagram, as pessoas valorizam ter mais likes e seguidores do que, de fato, apenas compartilhar sua paixão e expressão artística. Afinal de contas, se o propósito dessa mídia social é apenas ser um espaço para expor e compartilhar seu amor pela arte da fotografia, qual a necessidade de tentar conquistar alguma forma de fama implorando para ser curtido e seguido?

(Fonte da imagem: http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2015/10/idosa-chama-atencao-ao-nao-usar-celular-em-evento-com-johnny-depp.html )

O paradoxo dos Millennials: a valorização da experiência não tão vivida

A nova geração, definida pelo termo Millennials, é fortemente marcada pelas transformações causadas com o surgimento das redes sociais. São imediatistas, efêmeros, multi focados e possuem uma sede pela vida incontrolável. Quanto mais experiências, melhor. Apesar de possuírem essa necessidade gritante de viver cada vez mais novas experiências, é possível questionar-se até que ponto realmente essa geração vive uma experiência.

A foto acima nos induz a essa reflexão: em 2005, na Praça São Pedro (Vaticano), para acompanhar o funeral do Papa João Paulo II, percebemos que os fiéis não tem celulares e tablets em mãos, de fato, vivenciam a experiência. Entregam-se ao sentimento de luto e vivem o momento em toda sua plenitude. E como comparação, em 2013, na mesma praça e no mesmo lugar, vivendo uma experiência de celebração, os fiéis, diferentemente de 2005, vivem tal experiência compartilhada com uma segunda tela.

O filósofo grego Aristóteles aponta a existência da cartase como uma das mais puras manifestações de sentimento humano. A virtude cartática, por definição, é o momento em que o indivíduo é consumido pela máxima de uma emoção (positiva ou negativa) de forma que esta venha a manifestar-se por toda sua alma. Ou seja, momentos de extrema felicidade, tristeza, paixões e medos.

Vale o questionamento: em qual dos momentos as pessoas viveram a experiência em sua plenitude? Em 2005, onde os fiéis exerciam atenção única e exclusiva para o momento de fé extrema, ou em 2013, quando os fiéis, em paralelo a experiência religioso, também estavam mais preocupados em captar imagens em seus tablets e smartphones?

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