Os limites da linguagem

Ou quando mundos sociais diversos se apropriam da semântica para creditarem a si mesmos

Estamos descobrindo coisas que devem ser realmente inéditas. Estamos explorando novas formas de pensar, de sentir e comportar onde a linguagem atual se mostra limitada para podermos expressar tudo isso. E justamente por isso atesto ineditismo, pois não encontro linguagem capaz de expressar, com exatidão, o que vem se descortinando no entre-nós.

Observo que a falta de uma linguagem apropriada (isso sem falar nos vícios de linguagem ou, ainda, na falta de compreensão do que realmente as palavras querem dizer — ou quando o significado socialmente aceito invade a semântica) nos faz ainda mais confundir as coisas. Achar que a expressão de uma ideia em uma palavra ou sentença seria por si só esclarecedora, quando na verdade só reforça a confusão.

Me lembra um sambinha composto pelo Tom Zé e Elton Medeiros, que dizia:

Eu tô te explicando pra te confundir, 
Eu tô te confundindo pra te esclarecer.

Mas sem a segunda parte, rs.

Há quase um ano atrás, eu e uns amigos que investigamos a nova ciência das redes, lançamos um programa de aprendizagem inédito, tanto no seu conteúdo quanto no formato. Chamava-se “O que você precisa saber sobre redes”. Exploramos 25 entendimentos errôneos sobre redes sociais que eram praticados em inúmeros e diversos nichos, consolidando verdadeiros mitos. A forma de esclarecer era apenas mostrar um caminho, e a própria interação das pessoas sobre o tema acabava por resolver o falso entendimento. Foi muito legal mesmo.

Por exemplo, com essa ideia de rede, é muito comum as pessoas deslizarem para o conceito de unidade, ou unitário, para expressar como tudo e todos estão interligados… Infelizmente junto com isso a ideia que fica é que somos todos uma coisa só, como se algo super ou sobre-humano nos envolvesse. É uma pena… Principalmente aquelas pessoas de alguma forma influenciadas por correntes espiritualistas que encontram na palavra “rede” o que também encontram na física quântica: uma ilusão para se entreterem.

As vezes ainda converso com um senhor, que foi um grande amigo meu, chamado dr Pugliese, já falecido. Certa vez me disse que a mente é dividida em duas partes. Uma que pensa, outra que prova que o que você está pensando está correto… Tem um pessoal que não gosta de se surpreender, de se deslumbrar, tudo que surge de novo só serve para provar o que já pensavam, rs.

Bom, ainda sobre a questão da linguagem, de tudo, o conceito que mais me apaixona é o de “pessoa”, pois com essa palavra em especial existem outras influências, que não apenas a semântica, para contribuir para a confusão.

Quando falamos pessoa, usamos uma palavra no singular, mas pessoa é algo plural.

Apesar de ser plural, ela não se refere a muitos independentes, mas a muitos fractalmente.

Pessoa nos remete a algo pessoal, que fortalece o sentimento do indivíduo ou de algo separado do restante, quando na verdade é um emaranhado ou um redemoinho na água do rio a correr.

Nos faz sentir mais egoístas, desperta o sentimento do que é meu, quando a pessoa não nos pertence, ela é fluxo.

Se associa com algo que tem origem no eu, ou nesta criação maligna do Eu, quando vem muito antes e continua por muito depois, no seio do que há mais comum.

Pessoa é usado como sinônimo de persona (personalidade) quando ela é uma metamorfose ambulante de infinitas personalidades, e não uma construção de uma nota só.

É usada para se relacionar com o caráter, quando na verdade na pessoa não há permanência, ela pode ser infiel a si mesma.

Achamos que entendemos a pessoa, que a podemos decifrar, seja sob os auspícios astrológicos, adivinhatórios ou mesmo nos psicológicos e psicanalíticos. A pessoa é indecifrável, não segue astros, a direção do vento, as borras do café, nem os impulsos neurais. A pessoa é um processo de possibilidades infinitas em tempo real.

Enfim, como resolver isso, me pergunto.

Haveremos de cocriar uma nova linguagem? Ou os entendimentos que trazemos serão transformados? Ou a linguagem falada e escrita começará a dar lugar a um novo tipo de expressão, consonante com estas novas formas de interagir? Ou ainda, nos adaptaremos a conviver no indefinido, no eterno por construir, no caminho cujo sentido não é o fim?


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