Sobre a autonomia nas redes sociais

Ou como embalar na harmonia do caos

Autonomia em redes distribuídas é sinal de interdependência.
Autonomia em redes descentralizadas é sinal de poder.

Ao contrário do que se poderia pensar, autonomia não quer dizer que você não precisa do outro para resolver ou fazer qualquer coisa, e sim, que o outro está tão disponível (pelo nível de interatividade estabelecido) que possibilita que os fluxos não sejam interrompidos ou bloqueados.

Em modos de trabalho mais centralizados, autonomia e autossuficiência farão as pessoas se concentrarem em funções específicas — dentro do seu quadrado — e isolar o empreendimento de outros, os quais poderia cooperar. Se estabelece o padrão competitivo.

Se a rede é mais distribuída que centralizada, há uma interdependência onde o organismo da rede é capaz de gerir todos os processos de forma emergente. Isso não ocorre apenas em empreendimentos sintonizados que cooperam entre si, ocorre principalmente entre os autores de um mesmo empreendimento.

Porém, tudo isso é facilmente confundido como uma relação de dependência, pois nossa tendência é:

1) achar que, se qualquer parte de uma organização/topologia não centraliza nenhum processo, isso quer dizer que não há dependência, logo, posso tudo;

2) confundir os limites de seu conhecimento ou conhecimento técnico com falta de autonomia, e entender isso como uma relação de bloqueio de fluxos ou, novamente, dependência;

3) acreditar que a alta interação, disponibilidade ou conexão, que impede qualquer bloqueio de fluxos, obedece à uma percepção de tempo individual (tida como urgência ou necessidade) e não a do “tempo” do metabolismo da rede, fazendo você julgar como atraso ou forçando um fluxo a percorrer caminhos preconcebidos a partir de um flash individual.

Quando se fala em redes, autonomia deveria ser entendida muito mais como liberdade - incluindo a não subordinação ou condicionamento a poderes presentes em redes descentralizadas (hierárquicas), do que como independência ou autossuficiência, uma vez que estes não o são, por estarem inter-relacionados e interligados através do metabolismo dos fluxos. E isso nos leva também a lembrar que na rede tudo é interdependente, uma vez que a tida independência pode nos levar para algo ou alguém autossuficiente, o que seria uma contradição ao próprio conceito de rede.

Tudo isso revela uma utopia sobre as organizações em rede, de que se tudo está conectado e a interação é livre (portanto altíssima) não há nenhum tipo de bloqueio de fluxos, o que enterra a questão do tempo nas redes (redes é espaço-tempo para poder haver fluxo, e não apenas espaço, entendida como simples topologia) surgido pelo anseio do atendimento imediato de uma necessidade de qualquer coisa ou como o anseio daquilo que há de vir, uma vez que nesta “rede perfeita” tudo passa a ser contemporâneo, em tempo real.

É uma utopia porque isso caracterizaria uma rede uniforme sob um mesmo fluxo onipresente, onipotente e onisciente que, em outras palavras, significa a morte da rede, pois esta potência adensa o fluxo transformando-a em um monstro petrificado. É a morte da diversidade e do movimento que ela gera. Tal utopia só é possível ser imaginada sob o ponto de vista do indivíduo, que deseja aprisionar e dispor de todas as possibilidades convergindo para si mesmo, mas nunca da pessoa que, por ser o emaranhado que é, dança juntamente com os fluxos.

Uma rede, do ponto de vista do indivíduo, é sempre imperfeita, fugaz, incontrolável, contraditória à sua vontade e não irá satisfazê-lo em nenhum momento. A pessoa não possui nenhum problema com isso. Redes livres possuem um nível altíssimo de diversidade e diferenças, que nos impactam a todos instante com estes contratempos que tocam a nossa pessoa com o ritmo alucinante do metabolismo dos fluxos.

Como lidar com isso sob as pressões que recebemos de várias outras frentes de nossa pessoa que dialoga com padrões hierárquicos? Como podemos lidar com a força do indivíduo que busca sobreviver em meio ao caos que não controla nem consegue organizar? Como se relacionar com todos aqueles padrões criados e centrados no indivíduo, que envolvem ética, moral, caráter, entendidos como uma qualidade interna, e não como um padrão que se encontra ENTRE pessoas, e não em um ou outro?

Não tenho nenhuma destas respostas, mas no momento apenas sinto que a pessoa deve acompanhar os fluxos com graça e reciprocidade ao inesperado, como quem convida para almoçar o estranho que bate à sua porta, e quando não for possível permanecer acompanhando a música deste movimento — para que o tempo do organismo social se encontre novamente com sua pessoa revelando a mais simples de todas as soluções metabolizada pelo caos — caminhe em direção à ação como que por si próprio, mas na verdade, levado pelo sopro delicado que faz com que a roda da vida continue a girar.

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