EastBroadway, uma tipografia vernacular em NYC.

A fonte Eastbroadway em seu ambiente natural, banner de pizzaria.

Em 2018, me mudei de São Paulo para Nova Iorque com o intuito de ficar um ano. Chegando lá, entre outras coisas, decidi fazer aulas de inglês, algo que nunca havia feito de verdade na vida. Acabei arrumando uma vaga para estudar em uma das Bibliotecas Públicas ao lado da estação de metrô East Broadway, na divisa dos bairros Lower East Side e Chinatown, bem perto de onde tinha morado 6 anos atrás. Duas vezes por semana, após as aulas, eu estava livre para andar pelo bairro procurando um lugar para almoçar — no caso dos americanos quase jantar— ou tomar uma cerveja ou café. Foi questão de tempo até dar de cara com um artefato tipográfico vernacular urbano. De repente, estava vendo essas letras recortadas manualmente em vinil adesivo povoando vitrines de todo tipo de comércio pelo bairro. A grosso modo, esse artefato mencionado pode ser uma letra, alfabeto ou lettering, feito por um artífice sem treinamento formal em design, publicidade e áreas afins. No artigo "Aprendendo com as Ruas: a tipografia e o vernacular", Prisicila Farias apresenta categorias de incorporação de artefatos vernaculares no design de tipos. Aquele com certeza era um artefato tipográfico urbano que eu iria incorporar na minha nova fonte. Sabia que tinha encontrado algo muito inspirador dentro do meu mundo no universo do design de tipos.

O projeto dessa nova fonte digital poderia ter começado em 2012, quando estive durante pouco mais de 3 meses em Nova Iorque pra fazer o curso Condensed de Type Design na Cooper Union. São 7 semanas intensas de treinamento na arte da tipografia e no final você tem que entregar um projeto de fonte digital. Na época, procurei inspiração para o meu projeto onde morava, na Rua Clinton, no Lower East Side. Segui a tática de caçar letras na ruas fotografando tudo que podia e logicamente acabei bombardeado pela Cooper Black, que está espalhada pela cidade toda. Por fim, o intenso conteúdo diário das aulas e visitas a bibliotecas acabaram me levando para outros caminhos de pesquisa e para o desenho de uma fonte serifada que não terminei até hoje.

Nos últimos anos, falei muito de tipografia vernacular no meu curso Tipografia Libre e também com colegas que trabalham na área. Fotografei muitos exemplos por aí, mas pela primeira vez estava em frente a um exemplo que parecia intrigante. Durante algum tempo, fui atrás de descobrir quem fazia aquele trabalho.

Não leve a mal, as letras caprichadas feitas pelos cartazistas de supermercado ou o festejado filetado portenho, patrimônio cultural de Buenos Aires, continuam sendo dos mais valiosos exemplos da tipografia vernacular, mas ao contrário das letras coladas na porta acima, são naturalmente convidativos a inspirar novos projetos de fontes. Não que a beleza seja algo do que se reclamar, mas em tempos de um novo Renascimento para as artes das letras, com uma profusão de novos e talentosos artistas do lettering, caligrafia e sign painting, dar de cara com uma letra estranha que parece ter vindo direto dos anos 90 pra assombrar vitrines de doughnut, ice cream & coffee shops foi bem legal.

Talvez aí esteja uma bela ironia desse projeto: as letras recortadas a laser em vinil, tecnologia usada a rodo depois da explosão do desktop publishing nos anos 90, sempre foram consideradas as grandes vilãs do sign painting e com razão. Em nome do progresso, elas substituíram sem dó uma infinidade de letras lindas feitas à mão por tipos Comic Sans, Impact e Arial. Com o tempo, estas descolariam de seus toldos, para então serem reimpressas e coladas novamente. Pois uma mutação dessa letra de vinil apareceu no Lower East Side dizendo: "estou aqui entre vocês, eu sempre estive e fui feita à mão".

Onde há mais espaço, ela é estendida; já a condensada aperta pra fazer caber o texto.

Por um tempo tentei descobrir quem teria feito essas letras — afinal de contas que trabalhão recortar isso tudo a mão e porque? Entrei em alguns bureaus de sinalização e impressão para perguntar e a resposta era geralmente a mesma: "que fonte horrível, não temos esta, talvez algo parecido, podemos fazer melhor". Não era esse o ponto. Ela parecia ter sido feita por um humano ou em uma hipótese maluca, por uma máquina velha, usando uma fonte desatualizada, exportando curvas postscript defeituosas pra uma cortadora a laser enferrujada. Segui a vida e comecei a desenhar minha nova fonte, de vez em quando comentando e perguntando a alguém da área e sentindo um mini desprezo por esta manifestação do design vernacular, nada novo, reação comum já documentada em livro e artigos por aí. "Abaixo as Regras" do Rick Poynor é dos meus favoritos.

Cigarro, cerveja e divórcio express . Serviços aparentemente imunes à gourmetização e gentrificação do L.E.S.

Podemos ver pelas fotos que os locais onde encontrei as letras em uso são estabelecimentos que estão há muito tempo no bairro, aparentam ser sempre gerenciados por imigrantes, grande parte da população do Lower East Side. São Pizzarias e Tabacarias daquelas que vendem um pouco de tudo, além de Alfaiates e Lavanderias, digamos serviços essenciais. Esses locais já sofrem o impacto da gentrificação que ocorre nesse bairro como em muitos outros da cidade. Entrei para perguntar algumas vezes a funcionários sobre a autoria dessas letras mas, de novo, parecia ser uma pergunta sem sentido algum. Eu recebia a resposta padrão: "ninguém sabe e ninguém viu". Várias vezes desconfiei que meu autêntico sotaque latino-americano pudesse estar prejudicando a pesquisa. Aconteceu muito comigo: se não entendem o que diz, tentam se livrar rapidamente de você. Quando acontece entre dois não nativos então a conversa se desfaz bem mais rápido.

Depois de um tempo parei de perguntar e aos poucos o desenho foi se desenrolando. Partiu de um projeto de fonte display com um peso Bold para uma família de 40 fontes e uma variável. Não resisti ao ver a destreza desse artista ao espremer e esticar formas em vinil e apliquei o seu método de estica e puxa à tipografia digital. Do peso Ultra Condensado ao Ultra Expandido. Parece desperdício, afinal é uma fonte display, muito provável que não seja utilizada em parágrafos extensos, mas não havia desculpa melhor pra que eu pudesse entrar finalmente em um projeto de fontes variáveis. Agora que lancei essa fonte, já consigo visualizar a versão bem comportada dela, a East Village, que segundo a wikipedia é um nome criado pra valorizar uma parte original da região do Lower East Side e se desvincular da fama de bairro da classe trabalhadora, esse papo fica pros locais decidirem se é verdade ou não. Acho que dá pra conseguir essa informação no imperdível passeio no Tenement Museum, que tem as melhores histórias e imagens do L.E.S e lojinha. De minha parte, sinto que com esse projeto guardei um pedaço da memória gráfica desse bairro, através de um artefato vernacular tipográfico, que em uma cápsula digital deve durar muito tempo, ao contrário das letras originais recortadas em vinil.

Se você não faz ideia do que são fontes variáveis ou tipografia vernacular e chegou até aqui, obrigado. Se ficou curioso, dê uma olhada no projeto ilustrado que fiz para a tipografia EastBroadway no behance. https://www.behance.net/gallery/100315885/EastBroadway

Poucos dias antes de voltar pro Brasil, fui a uma exposição de fotografias no Soho, bairro vizinho ao L.E.S. Perto da galeria, vi um pequeno bureau de impressão e decidi entrar e perguntar das tais letras para alguém. Mostrei as fotos e para minha surpresa recebi a resposta: "ah sim, sei quem faz essas coisas, é o John, na verdade ele não chama John, esse é seu nome americano, ele é chinês e vem aqui pegar as sobras de vinil pra recortar essas letras aí, fazemos bem melhor na laser". Dois dias depois, eu estava de volta ao Brasil, John não atendeu o telefone que me deram, nem retornou recado ou mensagem. Ele mora em Nova Jersey.

Passeando pelo Google Street View encontro um monte de letras do Mr. John pelo L.E.S.

Sobre o artigo da Priscila Farias eu usaria boa parte do meu tempo por aqui, e o link pro livro do Poynor. Não perca o vídeo do canal Vox falando sobre a Cooper Black estar em todo lugar.

Queria agradecer meus amigos Sam @samorius , Faride @fmereb , Mirko @bghryct pelos inesquecíveis rolês não somente tipográficos durante esse ano em Nova Iorque. Ivana @ivana.ferguson.5 por me incentivar a falar o tempo todo com todo mundo na rua pra praticar o idioma e Fabiana @fabianaruggiero por sempre fazer tudo ficar mais simples e legal.